terça-feira, 21 de maio de 2013

Em nome da objetividade

No início do século XX, muitos psicólogos procuravam dar à Psicologia o estatuto de ciência tão rigorosa quanto a Física. E rigor se media em números, portanto era preciso fazer experimentos. No Curso de Psicologia Geral de Luria, por exemplo, é citado
o famoso psicólogo americano R. M. Yerkes, que colocou minhocas num tubo em forma de T, labirinto extremamente simples. No extremo esquerdo do tubo a minhoca recebia choque elétrico, que provocava reação defensiva. Com várias repetições desse experimento, a minhoca podia adquirir a ''habilidade" de evitar o choque elétrico e encaminhar-se para o lado direito. A lentidão com que se desenvolveu esse processo pode ser vista no seguinte: foram necessários mais de 150 testes para que o comportamento da minhoca adquirisse caráter organizado e na grande maioria do testes ela começasse a encaminhar-se para a direita, evitando o choque elétrico. (p. 40)
Na boa, eu teria desistido das minhocas na décima tentativa - e isso que eu sou conhecida pela minha teimosia. Yerkes volta a aparecer nas minhas leituras, dessa vez na pena de Stephen Jay Gould, em A Falsa Medida do Homem:
Foi nomeado coronel e, nessa condição, presidiu a aplicação de testes mentais em 1,75 milhões de recrutas durante a Primeira Guerra. Mais tarde, afirmou que os testes mentais "ajudaram a ganhar a guerra" [já que o intento dos testes era distribuir adequadamente os recrutas nas funções militares]. "Ao mesmo tempo", acrescentou, "[a psicologia] conseguiu ocupar um lugar entre as demais ciências e demonstrou a importância que pode ter para a engenharia humana". (p. 202).
Para o espanto de Yerkes, os testes mentais (de QI) mostraram para ele que o cidadão americano médio adulto tem idade mental de 13 anos.

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Jornalistas podem ser entendidos como uma espécie de mediadores entre os fatos e o público. Não se espera que jornalistas emitam sua opinião pessoal acerca dos fatos. O que muitas vezes não é questionado é a escolha dos temas abordados. Mário Magalhães deu entrevista à redação da Revista O Viés, em que insiste que foi imparcial na biografia de Carlos Marighella:
Eu costumo dizer que eu sou um repórter, e assim eu estou fazendo o trabalho de levar as pessoas essa história fascinante. Na biografia eu acho que não poderia ser um detrator ou louvá-lo. Até por que pessoas para detratarem Marighella, ou para louvá-lo existem aos montes. Ele é um monstro para uns, e um herói para outros. Mas no meu livro eu não queria nem ser um promotor, e aí acusar o Marighella disso ou daquilo, nem um advogado de defesa, para promovê-lo. Muito menos um juiz, para julgá-lo. Eu queria ser um repórter, que apresenta a história para que as pessoas possam conhecê-lo. Por que sobre Marighella, e sobre as pessoas em geral, são duas questões: conhecer a sua história é a primeira parte. A partir daí se pode julgar se ele foi bom ou ruim.
E mais adiante:
Eu não considero que eu faço jornalismo literário. Eu considero que eu faço jornalismo. Até por que o livro tem 2580 notas, 256 pessoas entrevistadas e consultadas, uma bibliografia de mais de quinhentas obras e mais de 700 volumes. E tudo o que é mais importante e relevante do livro está baseado em documentos históricos que eu consegui tanto no Brasil como na Rússia, República Tcheca, Estados Unidos e Paraguai. Eu sempre conto a história de quando o Marighella foi preso no cinema e, depois de levar três tiros, sente um gosto adocicado do sangue que escorreu na sua boca. Essa história eu conto no livro, aí muita gente me perguntou como eu poderia saber disso. Foi por meio da pesquisa, por um texto do próprio Marighella relatando sentir esse gosto adocicado. Então na biografia eu tentei descrever tudo que o Marighella fez, viveu e pensou, e isso tudo foi por meio de documentos, já que, diferente da minha mãe, pelotense, eu não acredito no espiritismo e não entrevistei o espírito do Marighella.
Só o fato de ter escolhido o Marighella - e não qualquer outro guerrilheiro, militante ou mesmo general que viveu nos tempos da ditadura - já diz muito sobre a posição do jornalista. Só o fato de detectar que existe uma carência de informação a respeito deste homem e que existe uma quebra crônica na passagem de informações entre a geração que viveu esta época e as seguintes já mostra o envolvimento do biógrafo com a personalidade biografada. Quando, em tempos de Comissão da Verdade, um jornalista resgata a história de alguém que a história convenientemente esquece, entrevemos a opinião do jornalista biógrafo.

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No post anterior mencionei o filme Doméstica de Gabriel Mascaro. A primeira coisa que surgiu na conversa com o Luis sobre esse filme (que ainda não vimos) foi: e por que não se colocou a câmera na mão das empregadas? O próprio diretor responde à pergunta numa matéria da Bravo! de maio de 2013:
"Não acredito em caridade, muito menos no cinema", responde Mascaro. "Poder não se dá, se negocia. Doméstica é um filme sobre a negociação da imagem." (p. 43)
Na visão do Luis, teria sido mais interessante dar a câmera aos dois lados: tanto os(as)  filhos(as) dos patrões como as(o) empregadas(o). Lembremos de Viveiros de Castro e a onça: o homem (sujeito) olha para a onça (objeto), mas a onça (sujeito) também olha para o homem (objeto).

Na Piauí de 13 de maio de 2013, Eduardo Escorel discute o método do cineasta - que pretende ser objetivo e pretende não interferir nas relações de afeto e poder entre patrões e empregados:
Mascaro não está, naturalmente, ausente de todo. Mas apesar de ser responsável pela seleção das personagens e pela montagem, ao fazer do método o cerne do filme, sabota a própria escolha do assunto, cuja relevância e relativo ineditismo sugeririam a possibilidade de resultado menos anódino.
Doméstica nos dá visão idealizada das relações sociais, omitindo qualquer traço da tragédia que as domina – omissão deliberada difícil de aceitar. (Questões cinematográficas)

domingo, 19 de maio de 2013

Cortar e colar

No filme de ficção sobre Hitchcock (2012) claramente se pretendeu dar maior destaque à esposa dele enquanto cineasta e parceira de trabalho. Mais pro final do filme, o casal está em crise e ele pede que ela o ajude a finalizar o filme em que está trabalhando: as filmagens foram feitas, o material está todo lá, aguardando para ser acordado para a vida.

E ela vai pro estúdio, ajudar a editar Psycho (1960), que representou a grande virada na carreira de Alfred Hitchcock.

Lola rennt (1998) é ainda hoje o maior sucesso de Tom Tykwer, e grande parte da genialidade do filme está no modo de cortar e colar as cenas. Segundo o IMBd, o filme conta com 1581 transições em 71 minutos de ação (excluídos os créditos no final e a sequência inicial que culmina com uma multidão de pessoas formando as letras do nome do filme. Cada letra foi filmada separadamente e editar essa abertura custou ao diretor um mês de trabalho). O ritmo do filme é dado pela trilha sonora e pelo volume de imagens. Conforme o filme corre para o final, as cenas ficam relativamente mais longas, o que também tem seu efeito. Ainda quero chamar atenção pros créditos no final, que correm de cima pra baixo - e enquanto passam, a palavra 'Ende' anda, em letras garrafais e vermelhas, da direita pra esquerda.

Lembro de ter visto entrevista de ator (não sei se aplica a este filme) dizendo que não tinha entendido a estória durante as gravações, e que precisou esperar até a hora de ver a obra finalizada para entender o filme.

Estreou em maio de 2013 o filme Doméstica (2012) do cineasta pernambucano Gabriel Mascaro. Ainda não vi porque moro longe dos centros culturais. Sete estudantes de sete capitais brasileiras receberam uma câmera na mão e a tarefa de filmar a empregada doméstica por uma semana (a ideia era perseguir dois fios de Ariadne: a relação de poder e de afeto da empregada doméstica com os patrões). Cortando e colando, Mascaro transformou então as 120 horas de gravação no filme documental de 75 minutos.

É bom dizer isso por extenso: este diretor só teve contato com o objeto filmado através dos filmes que lhe foram enviados.

E agora, mais que antes, Flusser faz todo sentido pra mim. No livro intitulado Gesten, Vilém Flusser exercita o que ele chama de filosofia fenomenológica e investiga os gestos (de escrever, falar, fazer, procurar, fotografar, filmar, se barbear, amar e tantos outros). No capítulo sobre o gesto de filmar, ele coloca na mão do diretor de cinema duas ferramentas: tesoura e cola. Para Flusser, o gesto de filmar não equivale ao gesto de colocar a câmera no ombro, mas ao gesto de cortar e colar:

Der Filmemacher steht dem Bandmaterial gegenüber, und aus dieser Transzendenz heraus komponiert er Sachverhalte, welche im Kino als Prozesse erscheinen werden. Für ihn fallen also, wie für Gott, Anfang und Ende zusammen, aber mehr als Gott kann er einzelne Phasen des Prozesses umstellen, kann den Ablauf des Prozesses verlangsamen und beschleunigen, kann Phasen oder den gesamten Prozeß zurücklaufen lassen, kann schließlich den gesamten Prozeß als im Kreis laufendes Band zur ewigen wiederkehr verschlingen. Nicht nur also unterscheidet er, wie Gott, zwischen formaler Transzendez (schöpferischer Komposition) und existentieller Immanenz (Erleben des Ablaufs), sondern er kann, was Gott nicht kann, den Ablauf des Prozesses selbst in Zeitrichtungen außerhalb der strahlenförmigen Linearität umlenken. (p. 122)
O cineasta está diante da fita, e num gesto de transcendência compõe estados de coisa que no cinema se parecerão como processos. Assim como para Deus, para ele o começo e o fim se apresentam simultaneamente; mas mais que Deus, o cineasta pode ordenar diferentemente fases singulares do processo, pode lentificar ou apressar o andamento do processo, pode fazer com que fases ou o processo todo se invertam, enfim pode enrolar todo o processo num círculo fadado ao eterno retorno. Ele não apenas diferencia, como Deus o faz, entre transcendência formal (composição criativa) e existência imanente (vivência da sequência), mas ele pode - o que Deus não pode - desviar a sequência do processo para direções temporais fora da linearidade radial.
(Estou quase me convencendo de que só é possível filosofar na língua original, porque sou péssima tradutora.)

sábado, 18 de maio de 2013

Ar condicionado

Ouço os aparelhos de ar condicionado dos meus vizinhos e imagino que eles tenham aparelhos diferentes do meu, adquirido em Porto Velho. Sei que existem condicionadores de ar que aquecem - além de esfriar o ar.

O Climatempo anunciou que ontem fez 1ºC, o INPE instalado na UFSM afirma que a mínima foi de 3ºC. Seja como for, é frio pacas. A diferença entre 31ºC e 29ºC pode não ser perceptível, mas quando passa de 22ºC pra baixo, cada grau a menos conta - e se converte numa camada de roupa a mais.

O meu ar condicionado funciona entre as seguintes temperaturas: 18ºC e 30ºC! Fico imaginando um cenário em que colocar a temperatura do ar condicionado em 30ºC signifique um refresco em relação à temperatura externa. Liguei o meu ar condicionado. Vai que. Marcava 30, mas não esquentava.

No momento, é o forno que está condicionando a temperatura (e o cheiro) da casa: estou fazendo pão.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Far away so close

Philip completava 32 anos, era preciso comemorar. Liguei o Skype e liguei pro celular dele. A conversa durou exatos 30 segundos. Ele imediatamente reconheceu a minha voz e logo foi dizendo que a conversa teria que ser curta, porque ele estava na Croácia.

Werner me achou no Skype e resolveu colocar a conversa em dia. Tinha se separado da segunda esposa e estava namorando havia 3 semanas. Agora praticava vários esportes e se sentia muito bem. Anunciei que em agosto Luis e eu vamos com a Oma pra Alemanha.

Toca o meu celular. Luis tinha chegado em Belo Horizonte e logo embarcaria no outro avião para Altamira.

Passei o dia todo longe de casa e de noite fui ver um debate sobre a trajetória de Marighella e a ALN por Mário Magalhães (biógrafo do guerrilheiro Carlos Marighella) e Ana Maria Estevão (professora no curso de Serviço Social da Unifesp). Me chamou atenção que a primeira intervenção do público (não foi uma pergunta aos palestrantes) conduziu ao cenário de 27 de janeiro, Boate Kiss.

Quando retornei ao silêncio de casa, Luis me contou por telefone sobre estar de volta na Amazônia e como Altamira (em que está a usina de Belo Monte) não se encaixa na Amazônia.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Questão semântica

No Rio de Janeiro chegou uma frente fria.
Aqui estacionou uma massa de ar polar.
No Rio chove.
Aqui as temperaturas despencam pra perto de zero.

domingo, 5 de maio de 2013

A obra-prima desconhecida

ferhoFren coubus, por dez nosa, arcri breso a late goal que não sefos naspea mau brao de tear (...) moco ãolemaPig, lee goupaa a tear com a tear rapa zerfa de asu tanhisBa não um tojuncon de nossig e de resco, mas a dedaliare tevenvi do use tomensapen e da asu çãonagimai. (a partir de p. 30- 31)

"Na tela, há apenas cores confusamente amontoadas e contidas por uma avalanche de linhas indecifráveis. Todo sentido se dissolveu, todo conteúdo desapareceu, com exceção da ponta de um pé que se destaca do resto da tela (...). A busca de um significado absoluto devorou todo significado para deixar sobreviver apenas signos, formas privadas de sentido. Mas, então, a obra-prima desconhecida não é, ao contrário, a obra-prima da retórica? É o sentido que apagou o signo ou é o signo que aboliu o sentido? Eis o Terrorista colocado em confronto com o paradoxo do Terror. Para sair do mundo evanescente das formas, ele não tem outro meio senão a própria forma; e quanto mais quer apagá-la, tanto mais deve se concentrar nela para torná-la permeável ao indizível que quer exprimir." (p. 31 - 32)

Mas, sanes vatitaten, lee bacaa por se trarconen nas mãos naspea dos nossig que, é dedaver, ramsapas véstraa do bolim do não dotisen, mas que nem por sois são nosme nhostraes ao dotisen que lee aguiseper. (a partir de p. 32).

AGAMBEN, G. O homem sem conteúdo. Tradução de Cláudio Oliveira. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012.


quinta-feira, 2 de maio de 2013

A bateria

Em março, quando eu estava de férias no Rio, a bateria do meu netbook entrou num vertiginoso processo de falência. Daí parou de acumular energia. Luis e eu fomos nas lojas de informática atrás de bateria, e todo mundo dizia que não tinha, porque esse tipo de bateria sai muito rápido. O que eles podiam fazer era consertar o conector, que estava quebrado, portanto causando mau contato. Resolvido o problema de alimentação do computador, restava trocar a bateria. Voltamos às lojas de informática e voltamos a ouvir que ninguém tinha, que só encomendando. Como eu estava pra voltar a Santa Maria, pedi pra loja encomendar e me mandar por Sedex.

Uma semana depois, escrevi pra loja, perguntando se a encomenda já tinha chegado lá e se podiam me passar o código rastreador no site dos Correios. Nenhuma resposta. Dias depois, liguei. O cara que atendeu lembrava do meu caso e disse que tinha despachado a encomenda. Me mandaria por e-mail o código, pra não gastar muito DDD.

No dia seguinte, chegou o e-mail com um pedido de desculpas: na hora de enviar, foi de PAC e não Sedex e esperavam que isso não me prejudicasse. Passei a acompanhar a bateria que demorou 13 dias para migrar de uma agência carioca para outra, onde ficou mais uma semana para descer a Passo Fundo num dia e chegar a Santa Maria no outro. A primeira tentativa de entrega ocorreu (exatamente um mês depois da compra da bateria) enquanto eu dava aula de manhã. O carteiro deixou aviso de tentativa de entrega, o que me surpreendeu, já que a regra é deixar o bilhete na terceira tentativa.

Tentei resgatar o objeto na agência aqui do Camobi, mas ela estava fechada para o almoço. Em São Paulo, as filas no Correio sempre são maiores justamente na hora do almoço, porque esta é a hora em que as pessoas não trabalham. E aqui a agência fecha na hora do almoço. Meus compromissos não permitiram que eu voltasse à agência naquele dia. E no dia seguinte embarquei num avião para o Rio de Janeiro.

Pelo site dos Correios, acompanhei as duas entregas subsequentes, e quando cheguei em casa depois do feriado, recolhi todos os avisos na caixa do correio. Na manhã seguinte, fui na agência dos correios 3 minutos depois de ela abrir. Na fila contei 6 pessoas. Decidi ficar na fila porque logo percebi que ela tinha uma dinâmica rápida: quase todos estavam ali para buscar pacotes.

Encaixei a bateria no netbook e observei as luzinhas. A luz da bateria acendeu de relance, logo apagou. O ícone da bateria na barra inferior da tela continuava acusando ausência de bateria - apesar do texto dizer: "conectada, carregando". Ficou assim por 5 horas. Tirei o cabo de energia. O computador não desligou. A bateria funciona, mas por "tempo restante desconhecido". Pena que o meu computador não reconhece a bateria que fez essa viagem de aventura e demorou tanto tempo pra chegar. Acho que vou chamar o meu netbook de Penélope...

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Frio

Faz frio aqui. Faz muito tempo que eu não sentia frio. Ando agasalhada em mangas longas faz mais de semana. Quase não vejo meus braços e pernas. Contra a pele ressecada, tenho cremes e contra a insônia tenho cobertores e meias de lã. Mas e a memória de temperaturas mais amenas? Não lembro do que é sentir calor, usar roupas curtas, suar e reclamar do sol.

Meu pé direito dói. Faz anos que eu não sentia dor no pé. E agora os sete parafusos de titânio reclamam da baixa temperatura. Ainda não estou mancando de dor. O inverno ainda não chegou.

Ontem fui no supermercado às 4 da tarde e trouxe um frango congelado. Botei na bacia e em cima da pia. Cinco horas depois, estranhei que não havia juntado água na bacia. O frango continuava congelado.

Espero muito que Luis passe o inverno comigo, porque o frio sem ele me parece maior.

domingo, 21 de abril de 2013

Saberemos se mentes?

Nas nossas andanças de bicicleta pela região, pedalamos por estradinhas de terra e sempre voltamos pra casa com frutas colhidas pelo caminho. As bergamotas e os limões cravo colhidos na última excursão continham uma quantidade surpreendente de sementes. Cheguei a ouvir a frase: "De agora em diante, só consumirei limões com sementes". Semente é vida - e garantia de ausência de transgênicos.

Como pode ser conferido no documentário Sementes da Liberdade (2012) feito pela Gaia Foundation em homenagem a José Lutzenberger, houve um momento na história (mais precisamente em 1995) em que foi inaugurada a possibilidade de se patentear microorganismos ou processos microbiológicos. A Monsanto patenteou sementes geneticamente modificadas para resistirem a um pesticida que mata tudo, exceto essa semente geneticamente modificada. Vandana Shiva fala de um 'casamento' entre a semente e o pesticida.

Em outro documentário, O mundo segundo a Monsanto (2008), de Marie-Monique Robin, a mesma Vandana Shiva explica que a diferença entre a Primeira e a Segunda Revolução Verde é que na primeira, o setor público dirigia a "missão de alimentar o mundo faminto" e estabelecia os critérios de segurança alimentar, ao passo que na segunda, uma única empresa assumiu esse papel. A diferença é apenas uma questão de gradação, porque as pessoas que pressionavam o governo a agir eram pessoas ligadas à empresa ou as duas coisas, como o caso do elaborador da regulamentação do FDA que foi o vice-presidente da Monsanto. Público e privado se misturam a ponto do setor privado determinar as ações do poder público em nome da economia, do crescimento e progresso.

A questão não é escassez de alimentos no mundo. Sabemos que é produzido um excesso de alimentos - que não chegam aos que morrem de fome. Ecoando a fala de Virgínia Fontes no Seminário Marx: Criação destruidora, traço o paralelo: A crise atual na Europa não se dá em tempos de miséria e penúria, mas no auge do consumismo. A lógica da acumulação de capital cria essas discrepâncias entre o pornograficamente excessivo e o vergonhosamente ausente.

A centralização de sementes na Monsanto se dá através da patente: para se precaver contra o estoque de sementes por parte do pequeno agricultor, a Monsanto vende suas sementes mediante assinatura de um contrato em que o agricultor se compromete a não guardar sementes, nem distribuí-las. Via de regra, as sementes criadas e comercializadas pela Monsanto são inférteis, ou seja, geram plantas que não desenvolvem novas sementes. E quando dão sementes, a segunda ou terceira geração não dá frutos. Como a relação entre a Monsanto e o agricultor se dá pela via do contrato (e quem compra semente é obrigado a comprar o pesticida específico pra semente junto), o surgimento de plantas geneticamente modificadas em plantações de agricultores que não compraram as sementes da Monsanto significam apropriação indevida.

Assim a Monsanto passou a controlar plantações de agricultores que não tinham controle sobre a contaminação de suas plantações por plantações de transgênicos de vizinhos. Seja por que via for (pólens no ar, sementes carregadas por animais de uma plantação a outra, água do lençol freático etc.), apareciam plantas transgênicas em plantações de agricultores que desde sempre usavam sementes nativas (crioulas). Foram considerados culpados. E assim se quebra as pernas do pequeno agricultor.

O agronegócio envolve tecnologia. Por envolver tecnologia para exploração dos recursos naturais, tem recebido incentivos financeiros enormes - que por sua vez justificam ajustes jurídicos às necessidades desse setor tão produtivo. O aumento da produção para exportação "para saciar a fome do mundo" anda junto com o aumento do uso de produtos químicos nocivos (agrotóxicos, hormônios, antibióticos etc.) que causam doenças e destroem o meio ambiente.

A destruição do meio ambiente não se dá apenas no nível da poluição, mas na eliminação da biodiversidade. Sementes têm um tempo de validade. Se não forem plantadas antes do fim desse tempo, não germinam. Quando os agricultores são seduzidos pelo sonho da alta produtividade e plantam sementes estéreis ao invés de sementes nativas, as sementes indígenas se perdem junto com a tradição. Quanto menos diverso, mais vulnerável se fica.

No documentário O veneno está na mesa (2011) de Sílvio Tendler, vislumbramos outras estratégias da empresa de transgênicos e pesticidas casados para firmar posição. Quando o agricultor vai pedir empréstimo ao banco, se vê obrigado a comprar sementes transgênicas e todos os produtos que a acompanham. Se não, o banco não libera o dinheiro. E quando os agricultores morrem contaminados, são culpados pela empresa de usar mal o defensivo agrícola. E a empresa se defende prometendo ensinar a aplicar o veneno.

A última estratégia da Monsanto para dominar o setor alimentar através da exclusividade das sementes transgênicas é descreditando os cientistas que provam que seus produtos são tóxicos, pouco seguros e ecologicamente insustentáveis. Manipulação genética é ciência do tipo que não se faz em casa. É preciso acreditar em quem tem as condições e os meios para realizar pesquisas desse naipe. Faltar com a verdade ou manipular dados para obter resultados que sustentam interesses privados é tão antiético como roubar sementes.

domingo, 14 de abril de 2013

Quem é afásico aqui?

Desde o início do ano, participo de grupo de convivência de afásicos na UFSM, coordenado pela Elenir. Além dos sujeitos com afasia e seus familiares, participam dos encontros (no sentido de planejar e executar atividades) alunas de Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional. De linguista tem eu; as outras são terapeutas. Enquanto eu olho pras soluções comunicativas dos sujeitos afásicos, elas olham pros déficits deles para que elas possam classificá-los e pensar em soluções.

Ficamos assombradas quando o sujeito diz 'múmia' em vez de 'pirâmide', mas as nossas parafasias viram motivo de piada: depois de uma dessas longas reuniões, uma aluna chegou pra Elenir pra combinar detalhes referentes ao congresso em Pato Branco. Pato Branco? É Porto de Galinhas!

Outra manifestação afásica é a incompreensão de piadas, por exemplo, que no IEL rendeu teses e dissertações. Lá foi coletado um dado do tipo: "Feliz o Adão, que não teve sogra" - ao que o sujeito afásico reagiu: "Por que? Ele não casou?"

Na reunião passada, uma das atividades envolvia receitas culinárias. Caiu uma receita na minha mão, que eu tinha que ler em voz alta. Na lista dos ingredientes tinha lá '3 ovos inteiros'. Em outro tom de voz, perguntei se era com a casca (dos ovos inteiros). E não é que a aluna de Fono me explica com toda a paciência do mundo que 'ovo inteiro' significa gema + clara?

Lembro da Christine definindo criança a partir da observação dos próprios filhos: "Eles fazem tudo que a gente faz, só que quando eles fazem, fica engraçado." Quando a gente erra, fica engraçado; quando os afásicos falam, tudo vira dado.


quarta-feira, 3 de abril de 2013

Os cicloativistas

Saí do estado de São Paulo em 2009, ano em que deixei de participar da agenda cicloativista. De lá fui pra Porto Velho e Santa Maria, dois lugares em que não encontrei outro cicloativista.

Desde então não me reuni mais com pessoas preocupadas em divulgar a bicicleta enquanto meio de transporte e as regras de trânsito que a concernem (tanto para motorizados como para não-motorizados). No meu círculo, essas pessoas eram ligadas ao Cicloviável, o grupo que tínhamos em Campinas. Pra mim, esse grupo foi uma plataforma de discussão sobre mobilidade urbana. Outra forma de ativismo que encontrei na época foi a bicicletada paulista. Logo percebi que muitos dos participantes da bicicletada produziam, na internet, material sobre a bicicleta enquanto meio de transporte.

O meu cicloativismo sem os outros se resume ao uso da bicicleta. Decidi que não quero ter um carro (assim como não quero ter uma televisão) porque não quero me tornar dependente dele. Simples assim. Usar um carro implica em custos (gasolina, manutenção, IPVA, licenciamento, estacionamento etc.), poluição do ar, maior ocupação da via pública por um bem privado (o que se mostra grave nos engarrafamentos) e stress. A responsabilidade pela vida do outro é maior quando se dirige um veículo motorizado.

Não é fácil entender esse cicloativismo. É a terceira vez que alguém diferente no meu prédio toca a campainha da minha casa perguntando se eu uso a minha garagem. As pessoas olham pra minha vaga e concluem que ela está livre, já que ela está ocupada por três bicicletas aparentemente invisíveis. Na verdade, agora são cinco, porque dois outros moradores resolveram abrigar suas bicicletas na minha vaga espaçosa.

Os cicloativistas de hoje são pessoas que decidiram não usar carro. E isso é difícil de entender numa sociedade em que é natural que todos tenham carro. A oferta gera demanda: a casa prototípica vem com a garagem, as ruas são asfaltadas e largas para acolherem carros, é possível adquirir um carro mesmo sem ter dinheiro para pagá-lo.

Os cicloativistas de hoje são de classe média, ou seja, poderiam ter um carro. Ao invés disso, usam a bicicleta e, através do exemplo, esperam gerar demanda por infraestrutura para a bicicleta como meio de transporte seguro na cidade. Alguns deles não esperam, vão lá e dialogam com o poder público, marcam entrevista com o prefeito às 6 da manhã. Renata Falzoni relata sobre essa entrevista aqui.

Os cicloativistas de hoje são indivíduos (agindo de variadas maneiras, pensando por escrito em seus blogs). Não necessariamente fazem parte de um coletivo, muito menos sob a liderança de qualquer guru. Em 2009, me debati muito com o tema da horizontalidade na bicicletada paulista. Dionizio e eu não acreditávamos nessa horizontalidade e desconfiávamos que havia (não um líder, mas) um grupo que direcionava a massa crítica. No podcast acima citado (e indicado pelo Dionizio), Renata Falzoni confirma nossas hipóteses: "Esse movimento, que é horizontal, até sem a minha aprovação - mas quem sou eu pra aprovar".

Por fim, os cicloativistas de hoje não querem ser identificados como esportistas. Recentemente li um texto de uma professora do IEL em que ela critica o encantamento dos ciclistas com o movimento Cycle Chic, que consiste em usar roupas "chiques" quando se pedala. Sabendo da multiplicidade de cicloativistas e sabendo que a autora do texto desconhece o movimento, vejo o cicloativista entre os dois extremos: nem esportista, nem de terno e gravata ou salto alto, mas de acordo com a ocasião. A bicicleta é meio de transporte, então, se o caminho leva ao parque, roupas esportivas são adequadas; se o caminho leva ao trabalho, roupas de trabalho são adequadas.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Acabou em pizza

Objetivamente falando, eu sei que pizza boa se come em São Paulo; mas é claro que isso é subjetivo. Pois o fato é que a geladeira tava tão vazia e a chuva tão fria, que recorri a um dos panfletos de tele-entrega de pizza no Camobi. Escolhi aquele que tinha as cores menos gritantes, as letras menos garrafais e o papel menos brilhante. Vi que eles tinham opções de combos (com refrigerante, com sobremesa, com sei lá o que), mas não estudei nenhuma delas, afinal de contas eu queria pedir uma pizza.

Liguei. O sabor que eu queria não tinha, porque o abacaxi tinha acabado e era possível que o rapaz não voltasse a tempo, já que a encomenda era grande e tava chovendo. Escolhi outro sabor; a outra metade era de tomate seco com rúcula. Achei o valor meio salgado, mas na verdade o quilo justo se comparado com os preços de São Paulo.

Ouvi a buzina, abri a janela, vi um vulto e uma moto, abri a porta, cheguei no portão e vi que o cara equilibrava um bujão de gás no ombro.
- Eita, eu pedi pizza, não gás.
- Ah, moça - frustrado por fazer força à toa, ele depositou o butijão no chão.
O moço achou quem abrisse a porta pra ele, eu voltei pra dentro de casa. Em seguida, tocou a campainha. Duas motos, um vulto de mochila quadrada e o portão aberto.

A primeira coisa que o rapaz tirou da mochila quadrada foi uma garrafa de Coca-Cola. Não pedi refrigerante. A segunda coisa que ele tirou do isopor fumegante foi uma pizza gigante. Não pedi gigante. A terceira coisa - me dou conta agora - que ele deveria ter tirado da bolsa quadrada é o saquinho de rúcula; mas a pizza veio sem nada de verde.

Entendi que nessa pizzaria, eles funcionam em piloto automático - e o que a gente pede, não interfere muito na vida deles. Justiça seja feita: a pizza estava ótima, pena que o que sobrou não cabe na geladeira (e só amassando muito, coube no forno. Ainda bem que está frio).

domingo, 31 de março de 2013

Voltando pra casa depois das férias

Quando girei a chave trancando a porta de casa pela última vez antes de viajar, todo o meu apartamento deixou de existir. As plantas, o gás desligado, os plugs retirados das tomadas, as janelas fechadas e a poeira sumiram da minha mente por um mês inteiro. Meu pensamento estava com o Luis, com quem eu passaria as minhas férias.

Demorei pra voltar: primeiro taxi, depois avião de manhã, seguidos de ônibus e trem e uma longa viagem de ônibus de 4 horas da capital até o coração do Rio Grande do Sul. Voltei a me sentir em casa mesmo antes de entrar na minha rua: a cachorrada me saudava como se eu fosse uma intrusa.

No começo, a minha casa, que foi o meu lar por alguns meses, não foi automaticamente substituída pela morada em que havia passado o último mês. Achei ótimo que fosse no térreo e não no último andar. Estranhei a temperatura fresca e o cheiro, olhei pras plantas contabilizando cadáveres. Deixei que a máquina de lavar roupa embalasse o meu sono na melhor cama do mundo. Colchão escolhido a dedo e pago em prestações pelo meu quase-marido que ficou no Rio e deixou um vazio ao meu lado. Luis volta a existir no telefone, e-mail e Skype. Ainda bem que é por pouco tempo.

De manhã, procurei a cafeteira na cozinha. Opa, não é assim que eu faço café aqui. Aqui eu esquento a água na chaleira e coloco o porta-filtro com o filtro cheio de pó sobre a minha xícara azul. Fui ver o que tinha na caixa do correio. Muita coisa. O mais surpreendente, todavia, foi o valor da conta de luz: R$ 0,00. É verdade. Como passei o mês fora, os gastos gerados (R$ 9,79) foram baixos. E por serem inferiores a R$13,00, foram jogados pra fatura do mês que vem. Pois é, sempre assombrei as pessoas com os baixos valores das minhas contas de luz...

No dia da mentira, volto pra sala de aula. As férias foram tão boas, que dá preguiça de voltar pra rotina.

sábado, 23 de março de 2013

Marx - a criação destruidora

Luis e eu participamos ontem do primeiro dia da Etapa 2 (de 3) do Seminário sobre Marx, cujo foco principal é Das Kapital. De tarde, no Sesc Pinheiros, aconteceu uma mesa com Roberto Schwarz, José Arthur Giannotti, João Quartim de Moraes e Emir Sader. Em nome dos velhos tempos em que eles eram estudantes e recém-professores, falaram dos primeiros seminários de estudos dO Capital na universidade brasileira (leia-se USP).

O perfil do público estava mais pra universitário curioso que pra militante de esquerda versado, de modo que as falas de alguns foram mais aproveitadas que as de outros. Outra coisa igualmente complicada pros não-iniciados foi perceber as posições políticas de cada um na mesa. Giannotti foi mestre de todos naquela mesa, mas politicamente se afastou deles - que se tornaram marxistas, enquanto Giannotti se declara marxólogo. Poucos puderam apreciar o esforço do Roberto Schwarz em não expor essas diferenças e homenagear o "filósofo municipal" que fazia questão de ler Marx com o rigor de "filósofo mundial". Eu tenho Luis pra entender essas coisas difíceis.

De noite eu recusei os fones que reproduzem a voz da intérprete que desconhece os termos técnicos porque o palestrante era alemão. Pra nossa surpresa, ele falava em inglês. Daquele jeito que os alemães falam inglês. Michael Heinrich, colaborador do projeto MEGA (Marx-Engels Gesamtausgabe) defendeu o projeto editorial de fôlego que consiste em recuperar e publicar todos os originais (com as rasuras, intervenções, cartas recebidas e enviadas, anotações, notas etc.) de Marx e Engels. Porque Marx foi e é o maior estudioso do capital(ismo) e continua atual. O projeto é imenso e conta com relativamente poucos pesquisadores - e pode não atingir o seu fim, como ele mesmo diz. Tive a impressão de que o texto de Marx é tratado como os textos sagrados - com o diferencial de que não são as traduções que tiram o sono dos estudiosos, mas as várias edições. Nada do que existe hoje de Marx (e Engels) está completo: tudo foi alvo de edições (seja para censurar, seja para inserir material).

Fiquei surpresa com a história (que eu não sei se recupero bem aqui) dos originais do Kapital. Marx chegou a publicar apenas o primeiro volume. Antes de morrer, entregou a Engels as versões incompletas dos volumes 2 e 3. Engels dedicou o resto de sua vida a completar as lacunas deixadas por Marx e publicar esses dois volumes. Os originais de Marx antes da edição de Engels se perderam. E agora vem a aventura: Engels entregou todos os originais (editados) ao Partido (SPD), onde ficaram arquivados. Quando a onda do nazismo se abateu sobre a Alemanha, foi preciso proteger esses originais, que foram parar na Holanda via Dinamarca e Reino Unido. Muitos textos se perderam nessas viagens, mas a maior fonte de originais de Marx e Engels hoje está em Amsterdam; a segunda maior em Moscou. E curiosamente foram surgindo textos dispersos em leilões. Quer coisa mais capitalista que um leilão? O valor do objeto não tem relação qualquer com o seu preço, mas é determinado por forças alienantes. Tanto, que o último texto adquirido em leilão foi comprado por um colecionador anônimo - por um preço alienígena.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Lá do alto







Do alto de Santa Teresa, a partir do convento, se vê os pontos turísticos do Rio, os aviões passando bem pertinho e a camada de poluição que envolve a cidade maravilhosa.

segunda-feira, 11 de março de 2013

O sistema é bruto

Diziam que quem sabia dirigir em São Paulo estava habilitado a se virar em qualquer trânsito de qualquer cidade. Eu aprendi a dirigir em São Paulo e não é raro que quem anda comigo reclame que meu estilo é agressivo ao volante. Percebi que minha postura de motorista mudou quando passei a ser ciclista, mas uma coisa não muda: tanto na bicicleta como no volante, tenho uma profunda confiança que todos os agentes de trânsito (motorizados, pedestres, ciclistas etc.) conhecem (e respeitam) as regras do jogo. Mesmo quando exerço a direção defensiva, confio que o outro saberá calcular e respeitar o meu espaço na via. Nesse sentido, acompanhar pessoas que se movem no trânsito tentando prever todos os movimentos dos outros agentes de trânsito, que vivem em constante estado de alarme e alerta máximo, é pra mim o terror. Porque a insegurança do outro cresce como uma onda que desaba em terrorismo pra cima de mim.

E no entanto, eu deveria ser um pouco mais realista e confiar um pouco menos no bom senso dos outros. Eu deveria levar em conta o transtorno que é o trânsito na vida de cada um que acompanha o aumento da frota de carros individuais e a degradação e o não-alcance da frota dos meios de transporte coletivos. Eu devia contar com desvios crassos como o atropelador de 17 ciclistas em Porto Alegre, o embriagado que amputou o braço de um ciclista usando seu carro, caminhoneiros que dormem no volante e tantos outros, brutalizados pelo sistema que nos faz sofrer todo dia. Ouvir rádio em qualquer capital é seguir os boletins de trânsito.

Estou conhecendo o Rio de Janeiro agora. Não atrás do volante ou guidão, mas como pedestre e usuária do sistema de transporte coletivo (ônibus e metrô). Na segunda vez em que vim ao Rio para ficar na zona norte, tive pesadelos com calçadas apertadas, lixos espalhados, grafitis mórbidos e uma constante sensação de abandono. Agora, que já deveria ter me acostumado, continuo impressionada com os bueiros que transbordam, os lixos que a enxurrada leva, o cheiro de mijo, os cocôs de cachorro.

E se eu achava que a linha Grajaú-Butantã em São Paulo era feita por motoristas estressados, tenho certeza absoluta que todos os motoristas de ônibus do Rio estão/são brutalizados pelo trânsito carioca. As altas velocidades em curtos espaços, as constantes freadas bruscas, as curvas em alta velocidade em ruelas que já tiveram suas esquinas arrancadas por veículos motorizados, as finas que tiram de tudo no caminho, o fato de não pararem nos pontos de ônibus me provam que o trânsito no Rio - medido através dos motoristas de ônibus - é mais brutal que em São Paulo.

Não peguei metrô nos horários de pico porque sempre havia um cinema por perto. Sim, a estratégia pra não pegar o metrô lotado era gastar o tempo numa sessão de cinema. Mas vi que no metrô do Rio tem estruturas de fitas antes da faixa amarela (em São Paulo são grades mesmo) para conter e controlar a população na entrada do trem. O que me assustou nesse esquema não foi a estrutura, mas a postura do segurança. Existe uma guarda especial de homens grandes e fortes que têm a tarefa de gerenciar o fluxo das pessoas com a imposição do próprio corpo. O guarda grande caminhou a passos lentos até a fita, ignorou solenemente as pessoas pardas paradas ali, fechou a fita, ouviu o trem chegando, sentiu o vento do trem parando nas suas costas, ouviu as portas do trem se abrindo, esperou dois segundos e largou a fita, que ricocheteou no braço de uma pessoa esperante. Nesse momento o guarda se deu conta que estava na frente de pessoas que sentem dor, e não de gado que precisa ser manejado. Quando expressei a minha impressão de abuso de autoridade daquele gesto que não leva em conta o outro, ouvi do Luis uma explicação de como é o cenário em horários de pico. O sistema é bruto. E brutaliza.

No Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, cartão-postal do Brasil, existe muito investimento em megaeventos, grandes projetos, desapropriação, construção e exploração de recursos naturais e do turismo. Para estas grandes obras, parece ser permitido errar: o Maracanã virou uma piscina depois da chuva forte da semana passada. O prazo de entrega da obra foi protelado por causa das obras de ajuste às forças da natureza - que não estavam no plano original. Ora, se a chuva não estava nos planos, e o complexo olímpico que está sendo construído na Barra servirá apenas à Copa e Olimpíadas, que tipo de sistema perverso é esse, que investe dinheiro pesado no que é passageiro e desconsidera a população local e permanente? Esse sistema é bruto. E brutaliza quem perde a paciência de ser sempre esquecido. E estoura de maneira brutal.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O garçom metódico

Sentei na mesa, ele veio me atender dizendo:
- Sentaste na pior posição possível. Não quer mudar pra este lugar, pra perna encaixar melhor? É que essas mesas são meio complicadas.

Não mudei de lugar, nem pedi bebida.

Uma semana depois, volto ao mesmo restaurante num horário em que tinha poucas mesas vazias. Deixei a chave em cima da única mesa em que batia sol. Quando fui sentar, outras mesas tinham vagado e sentei na mesa ao lado daquela em que batia sol. O restaurante foi enchendo e uma guriazinha sentou-se na mesa ensolarada. De longe, o garçom veio:
- Tu veio tomar um bronze hoje?
Passou por mim, que já estava terminando o meu almoço, e confirmou:
- Tu não bebe nada, né?

Esse garçom não apenas atende: ele decide quais são as melhores mesas e como se deve sentar-se nelas. E pelo visto, mantém uma agenda mental dos clientes. Eu sou aquela que não bebe nada enquanto come e provavelmente serei ignorada completamente na próxima vez que eu for naquele restaurante.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Fim de semana em Gramado

Pequena Helena

Nina

Se o cheiro saísse na foto...

...este blog seria um tanto perfumado


Flor de laranjeira: o melhor perfume do mundo

Nem sabia que alecrim tem flor!

Flor de cera

Lírios

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Por que progresso?


Surviving progress (2011) é um documentário sobre a "armadilha do progresso" em que nos metemos. Muitas das cenas foram filmadas no Brasil, o que (pra mim) é novidade. Mas não é novidade que tenham escolhido apenas dois cenários contrastantes - e que tenham sido São Paulo e a Amazônia.

O mais interessante do documentário é a constante pergunta "por que?" Por que se trancar numa lata de uma tonelada para se mover de um semáforo a outro? Por que acreditamos que o progresso se faz através das máquinas? Por que acreditamos que nossa miopia (que mira o conforto do indivíduo) não terá consequências para o coletivo?

Um dos entrevistados, um primatologista, define que a principal característica que nos diferencia dos primatas é a capacidade de perguntar (e investigar) por que. O filme tenta oferecer uma resposta por que valorizamos tanto o progresso, o que chamamos de progresso e por que estamos presos no esquema do progresso. O que (a meu ver) o filme não consegue fazer é provocar o espectador a se perguntar por que confia no progresso, por que é preciso frear o modelo.

Lembro de um refrão do Coolio que é mais ou menos assim:
When the revolution comes, I will be on front.
A revolução não vem se ninguém a fizer. Quanto mais nos conectamos à rede de computadores, menos nos conectamos uns aos outros e à vida na Terra. A revolução teria que ser maior que o indivíduo. O apelo do filme - como em tantos outros - é que cada um reduza, simplifique o seu consumo. Soluções individuais que passam pela tomada de consciência de cada um. Sabemos, desde as redações de vestibular (em que os candidatos insistem na solução-Chapolim para resolver todos os problemas do mundo), que isso não é solução coisa nenhuma.

Bogotá não virou cidade sustentável por uma súbita tomada de consciência dos cidadãos que resolveram usar suas bicicletas em vez de se endividarem para comparar um carro. Nem a Holanda sempre foi ciclista: a preferência pela bicicleta foi negociada, planejada, arquitetada, possibilitada pela infraestrutura oferecida aos cidadãos. A revolução é também fruto de uma decisão política.

Apesar de não gostar da solução que oferecem para o problema que é a desenfreada destruição do planeta, gosto da análise que o filme faz do assim-chamado-progresso.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Da margem ao centro

Foi por causa da disciplina de editoração de texto. Foi por causa da disciplina de editoração de texto que comecei a atentar para o que tem em volta do texto. Foi por causa dessa disciplina que eu comecei a me interessar por editoras, edições, impressoras, impressões, impressos e digitais. E foi por causa desse meu interesse baseado na necessidade de ensinar sobre o que eu não sabia, que Luis, que sabia que eu não sabia aquilo que eu tinha que ensinar, que o Luis que se interessa pelo que me aflige, que o Luis me apresentou à literatura marginal. Foi por causa da disciplina. Foi por causa da disciplina de editoração de texto que entrei no universo da literatura marginal. Foi assim.

Eu já tinha lido um conto do André Sant'Anna, publicado no Essa história está diferente. Na verdade, eu já tinha lido literatura marginal antes da disciplina de editoração de texto entrar na minha vida. O conto se chama Brejo da Cruz e é inspirado na piração que é a canção do Chico. Mas eu não sabia que aquilo que eu lia era literatura marginal. E quando não se sabe, não se pode dizer o que é. Fiquei impressionada com a oralidade, com a forma espiral de progredir. Repetia para seguir. Voltava para continuar. Como um bêbado contando estória. Conta e reconta. E se ninguém rir, conta de novo. Mas eu não sabia que lia literatura marginal. Foi só quando comparei o texto que ele me trouxe com o que a minha memória ainda retinha do Brejo da Cruz, que entendi que a Companhia das Letras tinha publicado literatura marginal. Aí eu entendi que a literatura marginal estava entrando no centro. Porque a Companhia das Letras é mais centro que a Intrínseca que é mais centro que a Livros do Mal que provavelmente não existe mais.
Daí eu fui na aula de editoração de texto com um livro do Ferréz na mochila. E com outro do Plínio Marcos. Nenhum meu, todos do Luis. O Luis que me trouxe da metrópole os livros que eu leria no interior. Isso é que é doido: os livros de literatura marginal vieram do centro para a margem. Santa Maria é centro pras cidadezinhas em volta, mas não é centro em comparação com Porto Alegre ou Rio de Janeiro, que um dia já foi capital do país. Com os livros de literatura marginal na mão, eu queria falar de editoras. Queria falar do Brejo da Cruz de André Sant'Anna publicado pela Companhia das Letras, queria falar do Capão Pecado de Ferréz publicado pela Objetiva, queria falar do Inútil canto e inútil pranto pelos anjos caídos de Plínio Marcos publicado por ele mesmo, pela editora Lampião. A editora Lampião não tem ficha catalográfica ou ISBN. Tem endereço e telefone. E ponto.

Um dos alunos, um cara que lê, um sujeito que curte literatura, que conhece literatura marginal, um rapaz que tem discernimento, esse aluno arregalou os olhos. Ficou surpreso quando folheou o Capão Pecado da Objetiva que o Luis tinha trazido do centro. Ficou surpreso quando entendeu que o livro publicado pela editora mais central que a Labortexto não era mais tão marginal. Ficou surpreso quando viu que as arestas tinham sido polidas, que as imagens tinham sido lavadas, que as interferências tinham sido apagadas. Na aula seguinte, me trouxe a sua edição de Capão Pecado. Não dá pra dizer que é o mesmo livro, porque foi publicado por outra editora. A editora que publicou o livro dele é a Labortexto. A Labortexto publicou o texto do Ferréz e as imagens e as intervenções. A edição da Labortexto tem 23 páginas a mais que a edição da Objetiva. Objetivamente, isso corresponde a 37 fotografias, um agradecimento, 12 estrofes da dedicatória, a segunda parte da dedicatória, a epígrafe e as intervenções de Mano Brown, Cascão e Conceito Moral. A edição da Objetiva tem, enquanto a da Labortexto não tem, uma intervenção do Ratão e outra do Garrett. E por fim, o que era prefácio virou posfácio. Enfim.

Quanto à prosa do Ferréz, o Luis, que leu o livro de novo antes de me entregar o livro, ele me ouvia enquanto lia os diálogos da periferia:
"- E aí, Zeca! Quer uma cerva gelada?
- Não, Burgos, eu tô a pampa. Porra, o bagulho tá cheio hoje, hein, mano!
- É, o bar do Polícia é o point agora, cê tá ligado? Também, o lava-rápido lá perto da igreja fechou; lá dava umas duas mil pessoas, mano.
- O que pegava lá, Burgos, é que o som da equipe tinha uma puta qualidade, aqueles manos da Thalentos são foda, além do equipamento eles agitam o pessoal pra caramba."
(p. 42 - Labortexto, p. 29 - Objetiva)
Quando eu li o livro, reconheci as gírias paulistas e tudo mais, mas eu não me ouvia. Eu não falo assim, tá ligado? Eu ouvia o Esteves, figura que saiu da Favela Monte Azul e falava assim, cê tá ligado, bicho?
"- Vixe, nem te falo, mano, o filha da puta só acorda depois das cinco da tarde, nem adianta colá lá agora, é mais fácil vocês irem à casa do Panetone, pois ele é um dos pouquíssimos que acorda cedo.
- Certo, então nós tamo indo lá, depois a gente se cruza, tá ligado?"
(p. 44 - Labortexto, p. 31 - Objetiva)
A periferia, a marginalidade, a vida hardcore, núcleo duro do Capão Redondo (SP) está nos diálogos. Isso alertou o Luis quando reclamei que na prosa, na parte descritiva, Ferréz abusa dos advérbios e sinônimos imperfeitos de verbos, quase escreve como os meus alunos que mal fazem malabares com as palavras:
"Rael dormiu tranqüilamente e no dia seguinte trabalhou como sempre, atendendo os clientes com muito carinho e atenção. (...)
Rael se despediu de Marcão e Celso, que eram irmãos e donos da padaria, subiu a rua Ivanir Fernandes e depois passou pela Falkemberg. De lá ele avistou a escola Maud Sá e ainda pensou em passar na quadra pra ver se tinha uns colegas jogando bola, mas deu prioridade em achar a metalúrgica. Prosseguiu e chegou na rua da feira, avistou a padaria São Bento (...)."
(p. 58 - Labortexto, p. 44 - Objetiva)
A conclusão está na mão. O texto que foi publicado por uma editora menos marginal que a anterior centralizou-se. A centralização é a submissão ao padrão, à norma que é texto e não imagem, prosa e não poesia num texto de prosa. Marginal é o misturado, o colado, o de difícil classificação. A conclusão é uma só. O escritor de literatura marginal apresenta o mundo marginalizado pela sociedade, mas tenta ele mesmo inserir-se no centro através da prosa descritiva que mal descreve a crueza da vida no Capão Redondo, que procura adornos linguísticos que cintilam, mas ficam fora de tom. Tipo as sandálias que vejo brilhando coloridas, estampadas e escandalosas nas vitrines. A conclusão é que em Capão Pecado eu vejo a literatura marginal querendo ser centro. Querendo escrever bonito, sem assumir por completo a linguagem corrente. Em comparação, Plínio Marcos é mais representativo da literatura marginal porque transita melhor entre margem e centro e assume a postura da margem numa linguagem que o centro entende.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O som que atravessa

O som ao redor
Santa Maria tem cinema. Tem, mas os filmes que queríamos ver só passam em Porto Alegre. Luis já tinha visto no Rio o filme do pernambucano Kleber Mendonça Filho e tinha reparado na reação do público de classe média descolada ao ver um filme que se passa em Recife. Estava curioso em relação ao comportamento do público gaúcho. A surpresa, no entanto, veio de outro lugar: o som da sala de cinema (Centro Cultural Mário Quintana) estava ruim e pelo menos duas cenas foram cortadas.

"O som ao redor" é dividido em três partes: 1) cães de guarda, 2) guardas noturnos e 3) guarda-costas. A questão da segurança na metrópole pode ser identificada como um fio condutor do filme que conta com vários personagens que vivem/ transitam na mesma rua. O espaço que guardas e guardados dividem é o mesmo, com a diferença de que os guardas ficam fora da casa e os guardados se trancam dentro. Por isso mesmo o espaço é disputado. O som ampliado no filme, tanto aquele que causa incômodo aos personagens como aquele que ressalta a vingança de outros, costura a narrativa solta e fragmentada.

A narrativa atravessa o tempo: a primeira cena é uma foto antiga de uma família na frente de um engenho de açúcar. Todas as cenas seguintes se passam na Recife atual. No tempo do engenho de cana, uma autoridade central detinha o monopólio (tanto dinheiro como força a seu serviço). No tempo atual, cada um se defende contra o mundo como pode: o poder está fragmentado e milícias fazem o papel da polícia. E um dos fragmentos volta para cobrar seu preço: "O senhor não se lembra? Pois eu tinha seis anos - e eu lembro."

A narrativa atravessa o espaço: o dono de metade dos imóveis daquela rua chama a trama da cidade para o engenho. Na cidade, o espaço privado é pouco pra tanta gente, mas a rua é vazia. E ainda assim, aquela rua é um simulacro do engenho: a família do coronel continua mandando no pedaço.

Por fim, a desigualdade social atravessa os personagens: um dos netos do coronel herda o ofício de administrar os bens da família enquanto agente imobiliário, o outro herda a truculência, o poder desmedido de quem não deve explicações. O filho do coronel acha um absurdo pagar a um grupo de seguranças para que façam a vigilância da rua, afinal de contas, aquela rua é herança sua. Do outro lado da linha social estão os rapazes que oferecem o serviço de segurança; o rapaz que, em troca de uns trocados, tenta ajudar a madame com suas bolsas, é repelido e risca seu Audi; a empregada que entra na casa de um morador daquela rua com o segurança que tem a chave (porque ficou incumbido de regar as plantas) e quer "na cama"; e a vizinha invejosa que ataca a outra que recebe em sua casa uma TV algumas polegadas maior que aquela que a ressentida conseguiu comprar. No meio, entre os muito ricos e os pobres, está a mãe de família de classe média que deixa que seus filhos decidam sua rotina infantil: paga um curso de inglês pros filhos, depois muda pra chinês quando a filha argumenta que já têm aula de inglês na escola. Essa mulher que naturalmente vive entre grades, paga ao guarda o que ele pede sem se perguntar se isso é necessário e passa o filme inteiro incomodada com o cachorro do vizinho (que existe  para garantir a segurança do lar) representa a classe média.

O medo de ser invadido permeia o filme todo: o coronel de engenho tem medo de perder o monopólio, a criança de classe média tem um pesadelo em que a casa é tomada por infinitos assaltantes, o agente imobiliário ouve passos acima de si quando mostra o porão do antigo engenho pra namorada e se sente incomodado ao ver que a empregada traz as netas e o genro (ou filho?) que se espalham na casa. O agente imobiliário, o personagem mais pacato de todos, é atormentado por um rio de sangue que nem faz parte de sua memória, mas define o passado de seu avô, ou seja, o medo é herdado pelas gerações mais novas.

O som ao redor não se fixa num enredo, num espaço ou tempo. O filme mostra o "mapa sonoro" do cotidiano que nos atravessa: o som do ambulante, do cachorro que late para todos os pedestres, das bombinhas que estouram em cadeia, da máquina de lavar, do aspirador de pó, do grito catártico, do menino que pede a bola, do carro que bate, das pessoas que cantam parabéns, dos que pulam o muro.

Lamentando que o som da sala de cinema não estava à altura da exigência do filme, recorto um trecho de Sacks (Alucinações Musicais, p. 148):
A genuína percepção em estéreo, seja ela visual ou auditiva, depende da capacidade do cérebro para inferir a profundidade e a distância (...) com base nas disparidades entre o que está sendo transmitido pelos dois olhos ou ouvidos individualmente - uma disparidade espacial no caso dos olhos, e temporal no dos ouvidos. São minúsculas as diferenças envolvidas: disparidades espaciais de alguns arcsegundos para a visão, ou de microssegundos para a audição. Isso permite a alguns animais, especialmente predadores noturnos como as corujas, construir um verdadeiro mapa sonoro do ambiente. Nós, humanos, não estamos à altura desse padrão, mas ainda assim usamos disparidades biaurais, tanto quanto indicações visuais, para nos orientar, para julgar ou formar impressões sobre o que nos rodeia. 
Por uma questão de honestidade acadêmica, preciso dividir os créditos desse texto com Luis Fernando Novoa Garzon.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Araçá

A placa dizia "myrtaceae", mas esse nome também se aplica às pitangas. A frutinha que comemos tinha como nome popular "araçá" e tinha um gosto difícil de definir. Luis disse que o gosto era de goiaba com jambo, e acho que essa descrição é a melhor a que se pode chegar.
Havia muitos pés de araçá no Jardim Botânico da UFSM. Tantos, que deu araçá de sobremesa e depois suco.

Encontramos um pé de araçá amarelinho. Esse Luis conhecia. E talvez pelo fato da cor ser mais próxima da goiaba, o gosto do araçá amarelo lembrava mais o gosto da goiaba.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Jardim botânico

A UFSM tem um Jardim Botânico em seu terreno. Infelizmente ele está abandonado (as hortas estão com mato tão alto, que às vezes não dá pra identificar no canteiro a planta medicinal anunciada na placa). Muitas coisas nesta universidade são geridas por bolsistas. E ali no jardim botânico eles estão em falta.
Joaninha
Assim que chegamos, fomos saudados por essa gatinha. Conforme andávamos, ela nos acompanhava - miando e saltando de sombra em sombra. Nas partes de grama expostas ao sol, ela corria que dava gosto de ver. Fiquei com muita saudade de Akari e Mustafá ao brincar com essa gatinha carente.
 Muitas plantas são de clima temperado, como por exemplo esse carvalho:
 Na estufa tinha algumas preciosidades:
 Margeando a cerca, o cactário:
 E uma coleção de bambus pra fechar a visita.

Jardim de apartamento

Luis já tinha coletado umas plantas no jardim da Oma (sálvia, melissa, hortelã, orégano e flor de cera) e vizinho (manjericão e alecrim). Daí, na vez seguinte que ele veio, fomos na floricultura, comparar vasos, terra, potes e mais plantas. Juntamos pedras da rua e montamos o nosso jardim. Temos pimenteiras, laranjeiras, flor de mel, onze horas, boldo, alcachofra, gengibre, salsinha, cebolinha e coentro.

Como o sujeito que mora no quarto andar costuma ligar o ar condicionado todo dia depois do almoço, e como a aguinha do ar condicionado dele pinga nas caixas para ar condicionado dos apartamentos dos outros andares espalhando as gotas de água, não é preciso se preocupar muito em regar as plantas.

Logo que havia mais de quatro mudas na nossa flora de apartamento, começaram a aparecer indivíduos da fauna: primeiro mosquitinhos coloridos, depois grilos, agora temos uma família de sapinhos fazendo festa de noite.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Como aprendemos

Será que aprendemos alguma coisa nas aulas? Será que somos capazes de debulhar um problema sob diversos aspectos a partir da fala do professor? Será que somos estimulados a reconhecer como conhecimento - e reter tal conhecimento - as informações apresentadas durante o tempo da aula?

Eu aprendi mais quando tive que ensinar. Aprendi inglês quando virei professora de inglês, aprendi a caminhar no campo da Linguística quando virei tutora lá em Bremen, aprendi a ver a Linguística de fora quando dei aula de Linguística Geral em Porto Velho (foi epifânico). Lembro ainda de um seminário espetacular que demos em grupo na USP sobre tópico discursivo. A professora nos deu zero. O fato é que aprendemos tanto sobre o assunto, que vimos os limites do modelinho que ela nos tinha proposto e o extravazamos. Paradoxalmente, o trabalho que eu recordo como sendo o mais produtivo na minha vida de graduanda foi premiado com uma nota zero.

Flusser afirma que escrever é uma forma de pensar. Luis, meu quase-marido, se deu conta de que está aprendendo sobre o seu objeto de estudo durante o processo de escrita. Escrever uma tese, a meu ver, é ensinar ao público leitor sobre o objeto de estudo.

Em todo caso, para se aprender, é preciso fazer, não basta ouvir e ver, copiar e repetir.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Documentário para os ouvidos


Descobri, meio que por acaso (dirigido), uma excelente fonte de documentários sonoros sobre grandes figuras da música brasileira. Em doses homeopáticas e ao longo de muitos dias, ouvi a ópera para os ouvidos que é o documentário sobre Jorge Ben Jor.

Muitas pessoas batutas são entrevistadas, são resgatadas histórias pontuais e panos de fundo gerais. Enfim, aprendi tanto sobre o artista e sua música como sobre a música (o pensamento musical).

A Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, oferece também outros documentários (Luiz Gonzaga, João Gilberto e Noel Rosa estão ao lado de Jorge Ben Jor). Pretendo ouvi-los todos na rede.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Caminhada branca

Confesso que me surpreendi quando encostei no balcão de passagens em Porto Alegre e a moça atrás do vidro me vendeu uma passagem pra Santa Maria dali a 10 minutos. Isso significava que, no dia depois da tragédia, o fluxo já não era mais em direção a Santa Maria.

Quando desci do ônibus em Camobi (bairro em que fica a UFSM e que fica a 10km da cidade), o silêncio me assustou. Cheguei a pensar que de agora em diante havia um acordo tácito de que era proibido rir, fazer barulho, cantar.

De noite havia uma caminhada marcada pra sair da praça Saldanha Marinho no centro e chegar no ginásio onde os corpos tinham sido velados. Não era pra levar velas, mas era pra vestir branco. No ônibus que peguei no Camobi quase todos estavam de branco. Aliviada, reparei que a alegria não tinha morrido. Os que estavam de branco desceram todos no mesmo ponto, subiram todos a mesma rua e se juntaram todos na mesma praça.

Na praça havia um mar de gente. Conversavam pouco. O máximo que saía era um "e aí" que obtinha como resposta outro "e aí" na mesma entonação. Registrei mais abraços e olhares tristes do que conversas, bandeiras, cartazes e protestos. Ondas de palmas vinham e se iam; não sei o que aplaudiam. Balões brancos foram soltos, mas eles voltavam e estouravam. Ouvi murmúrios diluídos do Pai Nosso e  ouvi como cantavam (mais de uma vez) o hino gaúcho com fervor:

Mostremos valor constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra

A massa branca se pôs em movimento. No trajeto, reparei que havia pouca gente nas janelas. Isso me deu a sensação de que a cidade inteira estava de branco e na rua. A massa branca caminhou até o ginásio. Lá de dentro ouvimos gritos e palmas. A massa respondeu e dispersou. Não caberia todo mundo dentro do ginásio e não era o propósito incomodar os remanescentes com a nossa presença.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A tragédia de Santa Maria

Fiquei sabendo da notícia pelo rádio. Na manhã de domingo, o delegado (ou bombeiro?) entrevistado anunciava cerca de 30 mortos. Comentava com calma que seria feita uma perícia e que ele ainda não podia divulgar números antes das investigações. Ao longo da manhã, o número de vítimas aumentava drasticamente.

Minha mãe ligou no meu celular lá de Bruchhausen-Vilsen, minha tia e vó me ligaram pra confirmar que eu não frequento boates. Todos os familiares ficaram aliviados quando disse que estava passando o fim de semana no Rio de Janeiro.

Os programas de TV (vimos Globo Esporte, um rabinho do Faustão e o início do Fantástico) que acompanhei nas horas de refeição com o Luis - que também não tem televisão - incorporavam notícias sobre a tragédia de Santa Maria em sua programação. O Fantástico foi quase todo sobre a tragédia de Santa Maria. Dilma largou tudo no Chile e foi a Santa Maria. Essa tragédia alimentou a mídia por um dia inteiro. E as pessoas consumiam os números crescentes de mortos, comentavam a notícia e se indignavam dentro e fora do país: recebi e-mails de amigos em Rondônia, Paraíba, Campinas e Holanda. Todos pediam notícias e adivinhavam que talvez algumas das vítimas tenham sido meus alunos. Não eram: li as listas, não reconheci os nomes.

Na tarde do domingo, a UFSM decretou luto por 3 dias. No fim do dia, divulgou uma lista de 114 vítimas fatais do incêndio que eram alunos da universidade. Em seguida, o luto foi estendido até 4 de fevereiro (o que implica em novas alterações no calendário acadêmico).

Todas as notícias apontavam como a sequência de erros, falhas e faltas de entendimento/orientação na boate tinha sido assustadora. No rádio, ouvimos que os seguranças impediram a saída dos jovens por 8 minutos, com a alegação de que tinham que pagar a conta antes de sair. Fica evidente que os seguranças não foram treinados para lidar com situações de emergência, apenas com pessoas que tentam consumir sem pagar. No Fantástico, ouvimos o especialista dizer que as pessoas devem ter morrido asfixiadas em 4, 5 no máximo 6 minutos.

Muitos morreram amontoados na região dos banheiros, provavelmente procurando uma saída alternativa (banheiros costumam ter janelas). Oferecer apenas uma saída para uma capacidade de 1.500 pessoas me parece criminoso. Os primeiros extintores usados para apagar as chamas no teto de isopor não funcionaram. Li no jornal (que ofereceram no avião do Rio a Porto Alegre) que o alvará da boate tinha vencido, mas que estavam providenciando um novo. Mesmo assim, o papel não resolve: é preciso que o alvará corresponda a condições reais de segurança. Não adianta ter alvará para um estabelecimento que só tem uma porta e extintores vencidos. Lembro do laudo de vistoria técnica dos bombeiros quando inspecionaram as condições de segurança na UNIR. As irregularidades eram tantas, que os bombeiros concluíam que a vida das pessoas e a integridade do patrimônio da universidade estavam em risco. No entanto, não interditaram a UNIR. Adianta ter alvará? Nem o laudo dos bombeiros nos adiantou.

Quando vi as imagens das pessoas abrindo as paredes com marretas, reparei que os homens estavam sem camiseta. Logo imaginei que teriam morrido mais mulheres do que homens na boate, porque duvidei que as mulheres tenham tirado suas blusas para criar uma espécie de filtro e assim inalar menos fumaça tóxica. Os números de homens e mulheres mortos são semelhantes, invalidando a minha hipótese. E ouvi no rádio, no caminho da casa do Luis ao aeroporto, que botar a camiseta na frente do nariz e boca alivia, mas não salva. Além de quente, a fumaça era altamente tóxica.

A banda era conhecida por seus efeitos pirotécnicos. E provavelmente a banda costumava se apresentar em lugares abertos. Não ser capaz de se adaptar à nova situação de boate fechada com teto baixo e cheio de revestimento acústico me parece se enquadrar numa espécie de darwinismo cruel: adapt or die.

Me chamou atenção que a notícia da tragédia e suas primeiras imagens tenham sido veiculadas pela internet (arrisco adivinhar: Facebook). Esse público está profundamente imerso no mundo digital/ virtual. Ouvi depoimentos de que durante a retirada dos corpos, o som dos celulares tocando era atordoante. Li no jornal o depoimento de uma mãe que ligou pro celular do filho. Quem atendeu foi um policial que informou que o rapaz estava morto. Pareceu tão irreal, que demorou pra mulher entender.

É preciso aprender com os erros. Como era possível uma casa noturna funcionar com apenas uma porta, pela qual entram até 1.500 pessoas? Como era possível os seguranças não entenderem a gravidade da situação e se escorarem no famoso "ordens são ordens, fui treinado para controlar o fluxo de consumidores, não de pessoas"? Como pode não haver leis nem fiscalização?

Um contra-exemplo de leis e fiscalização rígidas (demais) eu ouvi no rádio do taxi que me levou ao aeroporto: no mesmo domingo de pré-carnaval carioca, 156 foliões foram presos por mijarem na rua. Mijar na rua dá prisão; oferecer condições precárias de segurança dá em tragédia.

Onde estão os equipamentos de lazer para essa juventude? Não há parques na cidade, onde estão as praças de eventos, as casas de shows? Não vejo em Santa Maria o agito da vida cultural de Barão Geraldo, por exemplo.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O riso dos outros


Achei esse documentário de Pedro Arantes (que foi encontrado no Docverdade) surpreendente. Fiquei positivamente impressionada com a reflexão de alguns comediantes sobre o humor e seu trabalho (Laerte dá um show) e fiquei negativamente impressionada com a ausência de reflexão sobre o efeito de seu trabalho por parte dos comediantes mais em evidência no momento (destaque pro Gentili).