sexta-feira, 18 de abril de 2014

Hiato: ocupamos a usina de Santo Antônio

No dia 17 de abril, a partir das 8:00 aconteceu, no Mercado Cultural, na região central de Porto Velho, a assembleia popular dos atingidos - organizada pelo MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens).
Nela, lideranças das comunidades atingidas (marcaram presença as lideranças da Reserva Extrativista Lago do Cuniã; São Carlos do Jamari; Comunidade do Trilho, Linha do Ibama, Linha Sta. Inês e loteamentos em Jacy-Paraná; Jacy-Paraná; Curicacas; Reassentamento Santa Rita; Reassentamento Morrinhos; projeto de Assentamento Joana Darc; Bom Será; Ilha de Belo Monte; Itacoã; Bom Jardim; Tira Fogo; Igarapé do Tucunaré; Nazaré; bairros: Nacional, São Sebastião e Balsa) e representantes de movimentos sociais (MAB, MPA, MST, CPT, CONACOBAM) deram seus depoimentos de violações de direitos humanos ocorridas antes, durante e após a catástrofe ambiental que é a "cheia do Madeira" (coloquei entre aspas, porque não se trata de um fenômeno natural e imprevisível). Estes depoimentos, além de reivindicações dos atingidos, foram incorporados na Carta do Madeira, lida e aprovada ao final da assembleia.
É preciso ainda registrar a presença e o apoio do MPF e de professores da UNIR (inclusive a reitora e o chefe de gabinete) tanto no microfone como na plateia.

Foto: Daniela Moreira
Depois da assembleia popular, todos os presentes (aproximadamente 600 pessoas) entraram em vários ônibus que se puseram em movimento. Eu só descobri nosso destino quando já estávamos em movimento: a usina de Santo Antônio.
Foi a primeira vez que todos nós ali presentes pudemos passar da cancela e entrar no território da usina. O carro de som ficou no pátio do estacionamento, assim como todos os outros veículos.
Caminhamos aproximadamente 1 km até a barragem. Como eu não estava na frente, não sei qual foi a reação dos operários e responsáveis na usina com a nossa chegada. Lembrei do evento ocorrido em 2000 no Rio de Janeiro, quando moradores de rua e de favelas entraram pela primeira vez num shopping. Registrei que quase todos que usavam uniformes nos filmavam e fotografavam.
Quando chegamos perto da água, todos ficamos impressionados com o que vimos. Aquilo não era mais o rio Madeira, não era mais a Cachoeira de Santo Antônio. Aquilo era o reservatório da usina de Santo Antônio.
Um senhor levantava os braços e bradava: "Acabou tudo, minha gente. Acabou tudo."
Dali nos dirigimos ao refeitório da planta em busca de água, porque o calor do meio-dia era intenso e estávamos expostos ao sol escaldante.
Os trabalhadores da usina já estavam manifestando seu descontentamento com as condições de trabalho: reduziram a jornada, planejam greve. Quando chegamos com muitas mulheres e crianças, quando chegamos sem medo, quando chegamos em marcha, eles devem ter se animado.
Mas não se misturaram. As negociações com os imediatos da planta (os dirigentes do consórcio não ficam ali, apenas os contratados e subcontratados das empreiteiras) foram se desenvolvendo enquanto as pessoas usavam os banheiros e tomavam água.
Ficou acertado que seria servido almoço para todo mundo. Entramos no refeitório que lotou com a nossa presença.
Foto: Daniela Moreira
Enquanto eu decidia se ia pegar sobremesa, vi, pela porta de entrada, que a Polícia tinha chegado. Não eram muitos (12), o que nos deu a segurança de que não tinham vindo para nos tirar de lá à força.
Fomos muito fotografados pelos policiais e seus P-2. Uma comissão de cada uma das três posições (nossa, da usina e da polícia) se reuniu para discutir como proceder. Ficou agendada uma reunião com os dirigentes da usina Santo Antônio para discutir a responsabilidade dos consórcios sobre os impactos causados desde a implementação das usinas e a garantia de que haja compensações pelo dano causado.
O dirigente do MAB fez o encerramento da nossa visita-ocupação da usina e fomos transportados pelos ônibus da UHE Santo Antônio até os nossos ônibus, que nos aguardavam do lado de fora da guarita. A imprensa chegou quando os ônibus estavam saindo, mas ainda conseguiu coletar algumas entrevistas. 

O Diário da Amazônia impresso de 18 a 22 de abril apresentou uma matéria sobre a "invasão" do canteiro de obras da hidrelétrica. No formato digital do mesmo jornal, as últimas notícias são de ontem e anteriores ao evento.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Jacy-Paraná

A 70 km de PVH, a fila de caminhões parados do outro lado de Jacy-Paraná era enorme
Estacionamos o carro
... e seguimos de voadeira (a R$ 5,00 por pessoa) para Jacy-Paraná
O impacto ambiental sobre Jacy é causado por Santo Antônio, já que a barragem de Jirau fica acima de Jacy
Vê-se que a água já baixou um pouco
O linhão (de energia) entre as árvores, cortando a paisagem
Visitamos a Comunidade do Trilho, estabelecida ao longo da carcaça da antiga Estrada de Ferro Madeira-Mamoré
Todos nos mostraram seus poços e como a água está engordurada e fedida
Suspeitam que o cemitério (que está abandonado à própria sorte) esteja contaminando a água dos poços devido à elevação do lençol freático - ocasionada pela retenção de água a montante de Santo Antônio

O impacto social em Jacy foi causado por Jirau: a população de 4 mil subiu para 24 mil habitantes. Com o número elevado de homens na cidade, cresceram prostituição, estupros, doenças venéreas e Aids. Aqui, os desabrigados foram alojados nas escolas e nos cabarés
Sabíamos que a Santo Antônio Energia tinha disponibilizado voadeiras gratuitamente para a população. Quando procuramos essas voadeiras, as 4 estavam estacionadas em Jacy. Quando chegamos do outro lado, havia uma fila de gente esperando a voadeira gratuita.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Para voltar a ver o rio


ENTRE RIOS from Caio Ferraz on Vimeo.

Acima, documentário de Caio Ferraz (2010) sobre dois rios paulistas que foram redesenhados em função do trânsito por automóveis. Abaixo, citação de Juliano Pessanha sobre o olhar para a cidade de dentro do automóvel - e fora dele.
“E foi junto da mesma bicicleta azul, durante uma incursão desolada e repleta de ressentimento pelos bairros de Vila Gomes e Rio Pequeno, que eu, ao cruzar uma pequena ponte, uma quase-pinguela, notei que ela estava esburacada e cheia de rachaduras e que os homens-carro a atravessavam rapidamente sem olhar para o chão esburacado e eles cruzavam como se estivessem numa avenida e então, nessa noite, compreendi que o homem quer dizer Esquecimento.”
Juliano Garcia Pessanha (“Certeza do Agora”, São Paulo: Ateliê Editorial, 2001) 

quinta-feira, 27 de março de 2014

Cota e quinhão

Cota significa, na linguagem técnica que os rondonienses aprenderam a usar nos últimos meses: o nível da água do rio. O mesmo Rio Madeira tem diferentes cotas em lugares diversos.

 No mapa se vê, na fronteira com a Bolívia, Abunã. Seguindo o curso do rio, vê-se a UHE Jirau (antes de Jaci-Paraná), a UHE Santo Antônio que fica a 7km de Porto Velho e Humaitá, já no estado do Amazonas.

Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), as cotas estão subindo a cada dia nos diversos pontos:
       
             Abunã   Jirau  Santo Antônio Porto Velho  Humaitá
18/02     23,68   88,33      69,89           17,76          23,95
19/02     23,77   88,33      69,93           17,82          23,58
20/02     23,88   88,55      69,88           17,87          23,61

21/03    25,29    89,22      69,47           19,36          25,14
22/03    25,38    89,36      69,48           19,41          25,58
23/03    25,49    89,51      69,52           19,47          25,18
24/03    25,53    89,51      69,55           19,53          25,24
25/03    25,54    89,54      69,55           19,60          25,26
26/03    25,52    89,53      69,44           19,63          25,29
27/03    25,50                                       19,66          25,33  

A partir desses dados, pode-se observar que em um mês as cotas dos reservatórios de Jirau e Santo Antônio não sofreram grandes alterações, ao passo que houve um incremento de quase dois metros na cota dos outros pontos do rio (Abunã a montante de Jirau, Porto Velho e Humaitá a jusante de Santo Antônio). Pode-se observar também uma leve queda da cota em Abunã nos últimos 3 dias e também uma leve queda nas duas UHEs nos dois últimos dias em que houve divulgação de dados.

Na cidade de Porto Velho, o trânsito é constantemente remodelado: rotas antigas estão sendo tomadas pelos igarapés, novas rotas são desbravadas. Moradores que usam a Estrada de Santo Antônio como única via de acesso estão prevendo o isolamento. As águas que entram pelo rio Madeira ou pelos igarapés estão contaminadas (não há saneamento básico na cidade: cada casa tem sua fossa, cada prédio/condomínio tem seu córrego). Nos abrigos (escolas e igrejas) só tem cesta básica e os desabrigados, que já se sentem menos gente, ficam sem mistura. Ouvi relatos de crianças pedindo frango em supermercado.

Será que nada disso era previsível? Em Jaci-Paraná, todas as obras de compensação erigidas pelo consórcio Energia Sustentável do Brasil (ESBR), responsável pela usina de Jirau, estão embaixo d´água. Todo asfalto que está submerso agora está se dissolvendo e precisará ser refeito. Todas as casas alagadas estão condenadas. Ambos os consórcios investiram em compensações antes e reparos agora. Pode ser que tenham gastado muito (para os nossos padrões pedestres), mas as usinas ganharam muito com a cheia.
Pelo gráfico publicado no boletim diário da ANA, pode-se observar a linha pontilhada que indica a cota de emergência segundo a CPRM de 16,68m e a linha preta que indica a cota do rio ao longo dos meses. Observa-se claramente a variabilidade do rio conforme o regime de chuvas na Amazônia e um pequeno detalhe: a partir de fevereiro, a linha preta disparou.

Em fevereiro, a UHE Santo Antônio desligou 11 turbinas e deixou de vender sua mercadoria (megawatts) para o governo (que paga R$ 78,87), para quem 70% da energia gerada é repassada. Continuou operando com 7 turbinas, que geraram energia para ser vendida no mercado livre (em que o mw/h está custando por volta de R$ 828,00). Na última semana de fevereiro, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) determinou que todas as turbinas de Santo Antônio fossem desligadas.

Agora, as usinas simplesmente não estão ganhando rios de dinheiro, mas tiveram o seu quinhão quando a cota estava alta nos reservatórios devido à retenção de água.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Sobre obviedades irrelevantes

Replico aqui um texto Roberto Smeraldi, publicado em: http://amazonia.org.br/2014/03/a-senhora-de-la-palice/

A Senhora de La Palice
18 de março de 2014    

De Roberto Smeraldi*

O Senhor de la Palice, marechal do rei Francisco I de França, se tornou desde o século XVI ícone da obviedade irrelevante, da afirmação de alguma verdade tão redundante que acaba desviando do que interessa. Tanto que seu epitáfio reza: “se não tivesse morrido, ainda estaria vivo”. Uma típica argumentação lapaliciana é aquela, por exemplo, de negar terminantemente o que ninguém disse, na ausência de elementos para poder afirmar alguma coisa sobre determinado assunto. A história mostrou depois que a fama do marechal foi causada mais por seus ajudantes de ordens: mas até hoje ele carrega o estigma.

Algo do gênero parece ter ocorrido com assessores da nossa presidente em ocasião de sua recente passagem pelos estados de Rondônia e Acre, para sobrevoar áreas alagadas. Mandaram a presidente afirmar em tom alto que “é absurdo atribuir às usinas a culpa pela cheia do Madeira”. Como discordar disso? Ora, se há muita água é porque houve muita chuva nas cabeceiras. Trata-se de uma frase tão óbvia que obrigaria até uma liderança dos black-blocs e o dono de um banco multinacional a assinarem juntos.

A visita da presidente visava atender obrigações imediatas de chefe de estado, como aquela de conhecer de perto uma conjuntura de calamidade e a de anunciar os devidos socorro e solidariedade para as populações atingidas. O que ela fez, ou prometeu fazer logo. Possivelmente queria se limitar a isso. Ou, caso quisesse ir além, inclusive para assegurar que é preocupação presidencial saber o que pode acontecer no futuro frente a situações como esta, podia determinar que se realizem estudos e projeções de cenários que deixaram de ser realizados, ou utilizados, quando do licenciamento das usinas.

É fato que os gestores do licenciamento na época assumiram a responsabilidade explícita de desconsiderar o parecer assinado por seu próprio corpo técnico, que alertava para a falta de estudos sobre os impactos do novo regime hidrológico nas beiras do rio à jusante do empreendimento (é o caso de Porto Velho). É também fato que os mesmos gestores assumiram a responsabilidade de desconsiderar parecer contratado pelas próprias empresas, a pedido do Ministério Público, que alertava sobre o efeito da curva de remanso (é o caso da Bolívia e de parcela de território brasileiro a montante de ambas barragens, incluindo a rodovia). E ainda é fato que tais gestores assumiram a responsabilidade de desconsiderar as consequências da mudança de localização da usina de Jirau sobre a cota do reservatório de Santo Antônio, negando de antemão que existissem. A tais três fatos, acrescente-se que se resolveu não estudar, talvez por considerá-lo improvável, um cenário com vazão como aquela que acabou sendo atingida logo neste primeiro ano após o início da operação de ambas usinas.

Anunciar que, embora tardiamente, se estudariam tais questões com consistência e transparência, pelo menos com o objetivo de controlar ou limitar ocorrências futuras, seria a opção mais prudente por parte da presidente. Até porque estaria alinhada com a decisão cautelosa do Operador Nacional do Sistema elétrico (ONS), que há semanas já resolveu suspender a geração de energia nas usinas em decorrência da atual situação. Ao desconhecer – pois ninguém estudou – quais impactos as usinas têm sobre um cenário de vazão como aquele atual, o ONS entendeu que devia eliminar o risco de agravar ainda uma situação já emergencial. Das duas, uma: ou o ONS agiu irresponsavelmente, ao interromper indefinidamente um serviço importante para o país e que sabidamente não guarda relação com a calamidade, ou agiu com prudência, justamente porque ignora como se dá esta relação.

E aqui vem o assunto de interesse público que a assessoria palaciana não deveria dispensar com motes lapalicianos. Não interessa à sociedade discutir da culpa da cheia, e sim saber como o conjunto das usinas interage com ela. Lembre-se que neste ano, ou seja no início de seu ciclo de operação, estamos ainda lidando apenas com a variável água. Progressivamente, nos anos vindouros, passaremos a lidar com a variável água e com a variável sedimentos, na medida em que os mesmos se acumularem, pois aquele sobrevoado pela presidente é o rio com maior carga sedimentária do mundo, contribuindo com apenas 15% do volume de água do Rio Amazonas, porém com 50% de seus sedimentos.

É isso que Ministério Público, Defensoria Pública, OAB, assim como instituições da sociedade civil organizada que se dedicaram a estudar o tema querem saber. É isso que o ONS assume desconhecer quando interrompe a geração elétrica, apesar de se tratar do momento mais favorável para a mesma, e portanto com expressivos prejuízos econômicos resultantes (até porque as usinas já custaram aos cofres públicos mais do que o dobro do valor previsto quando se decidira construi-las). E isso também pode acabar com a peculiar troca de acusações entre os dois consórcios – ambos com empresas estatais como principal acionista – que não perdem ocasião para reforçar que, se fizeram algo errado, só foi para se defender de algo pior feito pelo outro.

O que a cheia histórica do Rio Madeira sugere é de acabar logo com este desconhecimento. O pior cenário é o de conviver com uma perspectiva de vulnerabilidade episódica do território nas cheias – que inviabiliza qualquer investimento e planejamento – e, ao mesmo tempo, com o desligamento periódico das usinas nos momentos mais propícios para a geração elétrica, como forma de mitigação parcial dos impactos a jusante, mesmo sem saber se isso tem efeito.

* Roberto Smeraldi, 53, jornalista, é diretor da OSCIP Amigos da Terra – Amazônia Brasileira.

domingo, 16 de março de 2014

Dilma e o lobo

Ontem (sábado, 15 de março) a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, esteve em Porto Velho para apreciar a extensão da enchente que ainda não recebeu a devida atenção no Brasil. Ontem foram registrados 19,5 metros acima do nível normal do rio Madeira - e a tendência ainda é subir. Ela sobrevoou o Rio Madeira e só então acolheu o pedido de calamidade pública pleiteado pelo prefeito da cidade.

Segundo matéria publicada na Folha, Dilma colocou a culpa pela cheia histórica do Madeira na Natureza, isentando as usinas (Santo Antônio e Jirau) de qualquer responsabilidade pelo desastre que é
(i) o isloamento do Acre por terra,
(ii) o alagamento extenso de Bolívia, Acre, Rondônia e Amazonas,
(iii) os desalojados e desabrigados que perderam seu chão, casa e território e
(iv) as futuras doenças que virão depois que a água baixar.

Dilma defendeu as usinas usando a fábula do lobo e do cordeiro (na versão de La Fontaine, porque a de Esopo não apresenta a argumentação baseada na posição do cordeiro e do lobo em relação ao rio) da seguinte forma: o cordeiro argumenta que está abaixo do lobo, portanto não pode ter sujado a água que o lobo bebe. Para Dilma, a Bolívia está acima, "sujando" nossa água. E as usinas, pergunto eu: onde estão? Fora do rio? Santo Antônio fica 7 km acima da capital de Rondônia e a energia acumulada ali vem em linha reta contra Porto Velho (que fica na curva do rio). Santo Antônio fica acima do Baixo Madeira - que agora está dentro do Madeira.

O terceiro parágrafo do texto da Folha explica: não é a Bolívia que precisa ser responsabilizada, mas as chuvas que caíram na Bolívia. Na fábula, o lobo representa o tirano que impõe sua razão arbitrária para satisfazer seus desejos e o cordeiro representa a vítima. Nas palavras de Dilma, a chuva é o tirano que impõe sua razão arbitrária para satisfazer seus desejos e o povo ribeirinho é a vítima. E as usinas? Para Dilma, estão fora de questão, estão fora do rio Madeira.

A moral da história (porque as fábulas sempre trazem uma moral) contada por La Fontaine ficou assim na tradução de Ferreira Gullar:
Onde a lei não existe, ao que parece,
a razão do mais forte prevalece.
Na história de Pedro e o lobo, de Prokofiev, que igualmente existe em várias versões, temos novamente dois pólos. Se no Lobo e o cordeiro os pólos eram ocupados por vilão e vítima, o lobo de Pedro está num pólo e no outro estão Pedro e o pássaro e o pato e o gato e o avô e os caçadores. Contudo, o lobo nessa história não é vilão, é apenas um lobo subordinado às leis da Natureza. E Pedro, pássaro, pato e gato não são vítimas, mas um coletivo doméstico que, sem preparo algum, mas com muita vontade de se divertir, se aventura na natureza selvagem.

Na história contada pelo músico russo, Pedro tinha sido proibido pelo avô de passar (sozinho) da cerca que delimitava a floresta. Pedro abre a porteira na cerca e o pato, gato e pássaro o seguem, felizes por poderem explorar uma nova região. Na versão da Disney, Pedro tinha 6 anos e queria caçar. Ainda nessa versão, ao entrarem no terreno desconhecido, o pato vê o lobo em todos os lugares - o que não se confirma - e todos brigam com ele. Essa briga barulhenta chama a atenção do lobo que vem e engole o pato (o pato é vítima fatal em todas as versões). Pedro então rapidamente traça um plano com o pássaro de capturar o lobo e salvar a todos de suas garras.

Implantar usinas hidrelétricas de fio d'água nos rios amazônicos significa, metaforicamente falando, atravessar a cerca que separa o mundo conhecido e controlado da floresta em que há um lobo. Sair destemidamente à caça do lobo e levar outros desavisados consigo é irresponsável como foi irresponsável construir e fazer funcionar duas usinas numa das maiores sub-bacias amazônicas apesar da escassez de estudos apontada por vários órgãos, inclusive o Ibama. Abrir a porteira sem antes calcular os riscos foi tão desastroso como liberar as licenças para as usinas com estudos de impacto contestados. Por isso, através de uma liminar, a Justiça Federal determinou no dia 10
que as usinas Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, atendam as necessidades básicas - moradia, alimentação, transporte, educação e saúde - das famílias atingidas pela cheia do rio Madeira que moram acima de cada uma das hidrelétricas, sob pena de multa diária de R$ 100 mil para cada uma delas.

Segundo o juiz federal Herculano Martins Nacif, da 5ª Vara Ambiental e Agrária de Rondônia, há vínculo entre a cheia histórica do rio e as usinas instaladas no local. A decisão também prevê que um novo estudo de impacto ambiental seja feito no local. (Fonte: Folha 11/03/2014)
Os ribeirinhos e (sócio)ambientalistas foram os primeiros a prever as inundações e os desbarrancamentos. Suas vozes não tiveram eco nas audiências com os consórcios nem fora delas. Os ribeirinhos foram removidos, reassentados, desalojados, desabrigados primeiro. Como o pato que previu a desgraça e pagou o preço, os ribeirinhos pagaram o pato.

O lobo de Pedro não é o vilão, mas a conjuntura desfavorável. As chuvas deste ano foram mais intensas em janeiro/fevereiro que nos anos anteriores. As usinas não previram tanta chuva e não reagiram a tempo. Represaram a água que vinha da Bolívia (inundando tudo pra cima das usinas), Santo Antônio represou a água entre as usinas e aumentou sua cota de produção de energia em pleno dilúvio e ambas não reconhecem que, mesmo tendo diminuído a intensidade das chuvas aqui, a água do rio continua subindo.

Ninguém jamais culpou as usinas unica- e exclusivamente pela cheia do Madeira. A ação delas provavelmente teve o mesmo peso que a ação das chuvas. Mas as chuvas não assinam termo de responsabilidade, contrapartida, compromisso moral e social.

Dilma tem um compromisso com o assim-chamado desenvolvimento. No âmbito do PAC, o governo federal liberou recursos para a construção das usinas de Santo Antônio e Jirau. Quando Dilma relembrou a fábula do lobo e do cordeiro, ela foi porta-voz do empresariado: O mais forte sempre encontrará pretexto para fazer a sua razão prevalecer.


quinta-feira, 13 de março de 2014

A água da cidade

Estação de Captação de Água da CAERD em Porto Velho
O nível da água do Rio Madeira continua subindo. Muitos distritos do Baixo Madeira estão submersos: São Carlos está embaixo d`água até os telhados, Nazaré, que fica na curva do rio, teve suas casas levadas pela correnteza. Os desabrigados do Baixo Madeira estão vindo para Porto Velho. Luis e eu notamos até mesmo um leve aumento dos preços de aluguel em algumas imobiliárias.
UHE Santo Antonio

A água da cidade é tratada pela CAERD, que tem sua estação de captação no rio Madeira e está sofrendo para se isolar do rio que está comendo a cidade (no ano passado houve os desbarrancamentos, agora a inundação).
Quando Luis e eu chegamos, quase moramos numa casa e quase moramos num apartamento no centro com vista para o rio. Nas duas quase-moradias, a água era de poço artesiano. Sabemos que no Norte a incidência de contaminação de água de poço é grande, por isso preferimos água da Caerd (mas não foi por isso que não ficamos naquelas quase-moradias - a estória é longa). Agora já não sabemos mais se a Caerd está conseguindo tratar a água que sai da torneira do apartamento em que moramos na Avenida Rio Madeira.

Desastre é resultado de uma convergência de desvios e erros

Bairro Nacional
O posto debaixo d`água

A Farquar ficou interrompida

Cheias do Madeira

Replico aqui o que encontrei na Carta Capital


Blog do Felipe Milanez
Amazônia
Cheias no rio Madeira: um desastre anunciado
Resultado da intervenção das usinas na região mostram que as inundações observadas neste mês podem ser ainda pior no futuro
por Felipe Milanez — publicado 13/03/2014 14:39, última modificação 13/03/2014 16:09
 
Secom / Rondônia

O rio Madeira não se adaptou ao "mecanismo de barramento"
Leia também
Cheia no Madeira vai continuar com águas do Mamoré , afirma pesquisador


Rondônia, historicamente, fica longe. Extremo oeste do Brasil, o alto rio Madeira sempre foi relegado como um lugar distante dos centros de poder, pouco merecedor de atenção. Bom lugar para fazer experiências políticas e de engenharia. As catástrofes que acontecem por lá demoram a chegar na "opinião pública" que senta sobre o poder e o dinheiro. Foi assim com a Ferrovia do Diabo, a Estrada de Ferro Madeira–Mamoré (construída entre 1907 e 1912), e logo depois, quando Rondon esticou as linhas telegráficas (concluída em 1915 com o telégrafo instalado em Santo Antônio do Madeira), pouco antes de o rádio tornar o telégrafo obsoleto. Foi para Rondônia onde os militares, durante a Ditadura cujo golpe completa 50 anos nos próximos dias, decidiram enviar os pobres do sul do País para não ter que dividir a terra dos latifúndios. Lá longe, os migrantes do sul morriam de malária, em conflitos com povos indígenas, ou nas balas de pistoleiros. E tudo ficava por isso mesmo, com a pressão social mais aliviada. Ao longo do último século, Rondônia foi o retrato de um "triste trópico" de exploração e saque.

Não é a tôa que foi justamente Rondônia o local escolhido de experimento para o governo Lula iniciar seu plano neodesenvolvimentista de construção de usinas na Amazônia, cujos projetos atualmente passam de centenas. Os majestosos rios amazônicos vão tornando-se cada vez mais "as veias secas da Amazônia", como escrevi em uma reportagem na revista RollingStone. Em Rondônia, um laboratório político para testes socioecológicos, é tolerado errar. Pode-se errar feio, grosseiramente, violentamente. E assim Lula decidiu iniciar a exploração energética do Complexo Madeira com duas usinas simultâneas, logo de cara: Santo Antônio e Jirau. Foram licenciadas durante a gestão de Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente que, em 2007, havia declarado o licenciamento das usinas uma "vitória da sociedade". Qual sociedade? A de Rondônia, ou a que vive "longe" de lá?

A atual cheia histórica, batendo os 19 metros, tem provocado uma catástrofe humana e ecológica em Rondônia, no Acre e na Bolívia. No entanto, apesar das águas estarem altas há semanas, o problema apenas tem começado a receber atenção do distante sul do Brasil, o "sul maravilha", terra do samba e do carnaval nessas mesmas últimas semanas.

O problema não é a cheia em si, que sempre ocorre, anualmente. Ainda que nesse ano haja mais águas. Não é o Madeira o culpado. Como disse o superintendente do Ibama, em Palmas, a respeito das usinas no Tocantins: "a natureza não se adaptou ao mecanismo de barramento do rio". Definitivamente, a análise, de tão absurda, pode ser estendida para o Madeira, que também "não se adaptou ao mecanismo de barramento". É de se esperar que o Xingu, que rompeu a ensecadeira feita para a construção de Belo Monte, também nos últimos dias, igualmente não se adapte ao barramento proposto. Tampouco o Tapajós. A Natureza insiste em "não colaborar" com o neodesenvolvimentismo (para seguir a linha de pensamento dos analistas ambientais que licenciam as obras no Ibama).

Mas a culpa não pode ser atribuída à vítima, seja ela a Natureza ou quem vive nesse ambiente. Não é o Madeira, nem quem sempre viveu nas suas margens, o culpado pela catástrofe. Há uma novidade: as duas usinas. O Movimento dos Atingidos por Barragens tem uma análise certeira de quem sofre, além do rio e do sistema ecológico: a população local. "Com as usinas operando no limite e enquanto os consórcios construtores disputam as possibilidades de gerar mais lucro, as comunidades e população que vivem à margem de todo o rio Madeira continuarão sofrendo com a maior enchente dos últimos cem anos da região, causada e potencializada pelas obras das hidrelétricas do rio Madeira."

Enquanto Jirau doou 250 cestas básicas e mil frangos congelados "visando prestar auxílio aos atingidos", Santo Antônio, publicamente, tem tentado ver se a água passa depressa. Ambas mostram-se sorrateiramente acuadas diante do desastre, em um silêncio constrangedor só rompido para cada uma atacar a vizinha, numa briga pública que coloca em risco milhares de pessoas. E começam, ainda de forma incipiente, a ser pressionadas por algumas autoridades no âmbito do Judiciário. A participação delas nessa catástrofe, uma vez passada a crise quando as águas escorrerem para o Amazonas, vai ser medida junto com a quantidade de mortos (pelo menos 60) e dos milhões em prejuízo.

Procurei dois destacados pesquisadores para uma breve análise da catástrofe. Antes mesmo dos licenciamentos, eles já alertavam para os problemas decorrentes dos possíveis barramentos do rio Madeira, que carrega metade dos sedimentos do Amazonas: Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), e Jorge Molina, do Instituto de Hidráulica e Hidrología (IHH) da Universidad Mayor de San Andrés (UMSA). Um de cada lado da fronteira do Madeira, que nasce nos Andes e deságua no Amazonas.

Para Molina, "há fortes suspeitas" de que as usinas pioraram as coisas no Brasil. E o problema, completa Fearnside, é que a credibilidade do Ibama e da ANA foi posta em dúvida, no momento em que o governo prepara-se para leiloar mais uma série de usinas na Amazônia. A questão é tão grave que a Justiça Federal determinou que os estudos de impacto ambiental sejam refeitos.

Pior: no futuro, lembra Fearnside, as mudanças climáticas devem aumentar a ocorrência de eventos extremos.

Fearnside entrou no INPA em 1978, e publicou trabalhos científicos que são referências fundamentais sobre 10 barragens na Amazônia brasileira: Balbina, Tucuruí, Samuel, Curuá-Una, Santo Antônio, Jirau, Teles Pires, Jatapu, Cotingo, e Belo Monte). Os trabalhos e outras informações sobre barragens estão disponíveis no seu site http://philip.inpa.gov.br e na coluna que escreve em Amazonia Real

Abaixo, entrevista com Fearnside, feita por e-mail. Logo após, um breve texto de Molina, que responde a perguntas que lhe enviei.



Felipe Milanez   Quais as perspectivas?

Philip Fearnside O futuro? Cheio de incertezas. Esta cheia excepcional e o que aconteceu nos últimos três ou quatro anos anteriores, como a erosão que Santo Antônio provocou em Porto Velho, colocam em dúvida muitas coisas: os estudos e os projetos das duas usinas, a operação dos reservatórios, os níveis d'água de inundação reais, as verdadeiras consequências do impactos destes projetos no Brasil e na Bolivia e o que pode ocorrer no futuro. Eu temo que também foi posta em dúvida a credibilidade do IBAMA, da ANA e a sua capacidade de cumprir suas próprias normas e condições.



FM Quais as relações entre as usinas e os efeitos dessa cheia? Quais os riscos envolvidos?

PF As duas usinas devem estar contribuindo, de maneiras diferentes, ao agravamento dos impactos da enchente atual.  A presença da barragem de Santo Antônio, logo acima de Porto Velho, pode estar aumentando a erosão da orla da cidade.  O vertedouro da barragem modificou as correntezas em frente à cidade, jogando mais água contra a orla, como foi demonstrado em 2011-2012 quando cerca de 300 casas foram derrubadas ou condenadas. A velocidade da água neste local também deve ser maior do que no rio natural, sendo que toda a liberação da energia está agora concentrada em uma única queda só 7 km acima do centro da cidade.

No caso de Jirau, deve estar contribuindo à inundação na Bolívia no trecho logo acima do final do reservatório propriamente dito em Abunã, na divisa entre Brasil e Bolívia. Os sedimentos amontoados, justamente no início do reservatório em Abunã, devem represar a água rio acima, aumentando a inundação. As afirmações das empresas de que este fenômeno de “remanso superior” não aconteceria no caso de Jirau foram contestadas por mim em um artigo em 2013 na revista Water Alternatives (versão em português disponível em http://philip.inpa.gov.br).



FM Esse é um problema decorrente da disputa entre as usinas ou, mesmo que tivessem cumprido o plano inicial dos projetos, esses riscos já existiam?

PF A alegação de Jirau de que a usina de Santo Antônio não abaixou o nível do reservatório como planejado quando a vazão começou a subir, se confirmado, indica um forte impacto sobre a população próxima ao lago, inclusive em Jaci Paraná. O mesmo pode aplicar a Jirau, sendo que se o nível do reservatório tivesse sido rebaixado ao máximo para aproximar o rio natural, a inundação teria sido menor, inclusive nos trechos hoje interditados da rodovia BR-364.



FM Quais as perspectivas no futuro?

PF As mudanças climáticas em curso estão previstos a aumentar a ocorrência de eventos extremos, incluindo inundações. Os planos do governo brasileiro para construir dezenas de barragens na Amazônia teriam grandes impactos dos mais variados tipos. A história das usinas do rio Madeira mostra como o sistema atual de tomada de decisão não consegue dar o peso adequado aos custos sociais e ambientais. Há extensa documentação dos impactos das usinas do Madeira, e de outras barragens existentes e planejadas na Amazônia, disponível em http://philip.inpa.gov.br.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O limite entre ficção e propaganda

Ainda fico escandalizada com a publicidade (merchandising, branding, product placement) massiva presente em obras de ficção. No cinema, o primeiro choque foi com o Náufrago, que me pareceu ser uma grande propaganda da FedEx (e das bolas Wilson). Na literatura, o susto foi no 1Q84, em que Haruki Murakami descreve a cor, o tamanho, a textura - e marca (!) de um montão de objetos.

Recentemente vi um pouquinho de televisão (no celular!) e fiquei impressionada com as propagandas. Talvez elas tenham sido planejadas para serem engraçadas. Além de não conseguir ver graça, eu não vi sentido (tipo coerência e coesão, que garantem a boa tessitura da peça) e achei tudo meio aloprado. Mas havia um denominador comum: os comerciais se esforçavam muito para contar uma história - mesmo que ela não tivesse nenhuma relação palpável com o produto que aparecia no final.

Luis Fernando Veríssimo publicou, no Comédias da Vida Privada, uma crônica chamada D. Leonor; em que a personagem principal passa, de repente, durante o café da manhã em família, a anunciar os produtos à mão para uma câmera invisível. Neste texto, o autor faz com que o discurso publicitário invada o discurso familiar, causando estranhamento no marido e filhos - e humor no leitor.

Mas como esse texto é lido? Por coincidência e sorte, encontrei um texto de Vilma de Sousa justamente sobre a leitura desse texto do Veríssimo. Para o seu espanto (e meu também), os quatro leitores desse texto que ela entrevistou não entenderam a intenção crítica do autor, sendo que três disseram que era normal a mãe de família só querer os melhores produtos para a família dela.



Terminei de corrigir as resenhas dos meus alunos de Publicidade e Propaganda sobre um curta de José Roberto Torero chamado A alma do negócio (1996). Não consegui incorporar aqui a versão que está no portacurtas.org.br, por isso tive que buscá-la no Youtube (onde, por ironia do destino, o curta vem introduzido por um anúncio publicitário).

Quando assistimos ao curta na sala de aula, a primeira pergunta (imediata) foi: esse é um comercial da Band-Aid? Ou seja, alguns alunos interpretaram o texto ficcional como sendo uma peça publicitária. Quando li suas resenhas, percebi que as fronteiras entre ficção e propaganda estão se desintegrando para os jovens bombardeados por propagandas (narrativas).

Alguns contaram o número de produtos anunciados, outros verificaram a autenticidade dos produtos anunciados, muitos cronometraram o tempo de cada anúncio e avaliaram que estavam dentro do padrão, outro confessou sentir vergonha pelos efeitos toscos, os clichês e estilo over. Alguns tomaram o curta como laboratório para aprender como não fazer comerciais, outros apresentaram teorias da Comunicação, outros explicaram a fidelidade que consumidores têm em relação a marcas.

A maioria entendeu que o curta era uma crítica ao consumismo, à invasão do discurso publicitário na vida privada e cotidiana e à felicidade que é constantemente associada a cada produto anunciado. Alguns refletiram sobre suas futuras profissões, um se confessou confuso e abalado por ter que refletir sobre o caminho profissional que escolhera. Um punhado escreveu sobre ética: via de regra em termos abstratos (é preciso ser ético); mas um me intrigou, porque citou Zeca Pagodinho (que foi garoto-propaganda de uma marca de cerveja e depois de outra, concorrente) como anti-ético.

Vinte anos atrás, quando eu sabia os nomes dos jogadores do Corinthians, eu me espantava com a fidelidade dos torcedores ao time. Mas nunca considerei os jogadores que mudavam de time como anti-éticos. Por que se espera que alguém, que recebe dinheiro para fazer propaganda para um determinado produto, use esse produto fora dos comerciais? A estratégia de vestir a camisa (ou fumar o cigarro, como fazia o Marlboro Man) não é regra, afinal, não é o produto que interessa.

A vida privada mesclada com a ficção já é difícil de desentranhar. Percebo que atualmente, na mídia, a ficção se mescla com a publicidade. E a publicidade se mescla com a vida privada.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Coração

Acordei às 4 da manhã. Estava disposta para o novo dia - mas o dia ainda não tinha chegado. Tirei o veneno contra mosquitos da tomada, lavei as mãos e fui no banheiro. Não me pareceu adequado tomar café e começar o dia em plena escuridão.

Voltei pra cama, me cobri e fechei os olhos. Mas o sono não vinha. Mudei de posição, passei a ouvir a minha respiração e continuei esperando o sono. Pensei como costuma ser fácil adormecer ao lado do Luis: entro no mundo do sono escutando o seu coração (e o meu).

Fiquei com saudades de ouvir o coração do meu marido e com pena de mim por não conseguir dormir. Tentei escutar o meu coração. Senti o pulso, mas não havia movimento ali. Concentrei as minhas atenções nos batimentos, mas não ouvi nada no silêncio da madrugada.

Acho que o meu coração está no Rio, no coração do Luis.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Burocracia e violência

Era madrugada quando Luis e eu compramos a minha passagem de volta de Cachoeiro para o Rio (onde eu pegaria o avião para Porto Alegre, de onde eu pegaria outro ônibus para Santa Maria). Junto com o RG, guardei a passagem no bolso da calça - que foi pra máquina de lavar na manhã seguinte. Enquanto a máquina trabalhava, consegui pescar o RG. Mas a passagem não foi localizada.

Voltamos na rodoviária, explicamos que a máquina de lavar desintegrara a passagem e pedimos uma segunda via. O supervisor me disse que me daria uma segunda via se eu apresentasse um BO em que constasse o código da passagem extraviada. Pra facilitar, ele indicou o endereço da delegacia online em que eu podia fazer o boletim de ocorrência.

Fiz o boletim de ocorrência e relatei que a passagem tinha sumido na máquina de lavar. Recebi resposta por e-mail afirmando que o meu BO foi indeferido, "pois não houve perda, mas dano". Deu vontade de responder que os farelos de papel que consegui encontrar nas roupas não configuravam exatamente uma passagem danificada. Respirei fundo e decidi não apelar para a violência verbal.

Fomos até a delegacia de polícia, prestar BO. A delegacia que Luis conhecia tinha fechado e fomos, debaixo de chuva e trânsito lento, até o outro lado da cidade. O homem sentado atrás do computador não sabia onde estavam os formulários de BO, digitava como quem se depara com um teclado pela primeira vez, estudava a procedência do RG do Luis e acompanhava com muito mais interesse todos os casos circundantes: os três presos que tinham chegado e estavam enfileirados na parede, aguardando uma decisão; a mulher que vinha prestar queixa do genro que bateu na filha e levou a neta embora; o casal de turistas que tinha sido roubado, sabia que a moto estava no pátio aguardando perícia e tinha passagem de volta marcada naquele dia; a mulher que queria levar o BO impresso, feito no dia anterior.

O nosso caso parecia tão banal e irrelevante perto dos outros todos. Pedindo que constasse o código da passagem no relato do BO, Luis adotou uma postura de militar diante do burocrata que paulatinamente descobria as teclas do computador - e como se preenche um BO. Ficamos uma hora naquela delegacia, expostos à violência com que são tratados os cidadãos pobres e mal informados. Ficamos chocados com a burocracia anestesiada que se traduzia em machismo e impedia qualquer gesto de empatia.

Voltamos na rodoviária com o BO na mão. A moça que emitiu a segunda via no guichê me perguntou se eu tinha perdido a passagem ou se eu tinha sido assaltada. Expliquei que tinha perdido a passagem na máquina de lavar e ela concluiu, aliviada: "então não houve violência".

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A nova família

Dona Hermelinda e suas filhas: Mariinha e Madá
Paulo nos buscou no aeroporto de Vitória e nos levou no carro da Madá para Marataízes, onde todos os Cachoeirenses se refugiam do calor que faz nessa época do ano na cidade natal de Roberto Carlos. E em Marataízes a casa estava cheia. Os pais da Madá (ambos muito perto de completarem 100 anos), acompanhados pelas enfermeiras, dois irmãos (Matheus e Mariinha com família), Rafael, Madá e Luis Alberto estavam lá.
Luis Alberto e Gabriela, a neta de Mariinha

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Virada megaevento

Luis e eu nos despedimos com calma de Lucena e voltamos pelos coqueirais (e não pelo ferry-boat) para João Pessoa. Almoçamos e cortamos cabelo para terminar o ano velho e começar o ano novo bem e conseguimos nos comunicar com o Ninno por telefone.

O drama do telefone foi o seguinte: Luis tinha ganhado um telefone moderno (touch) de Natal, mas o devolveu pra mim, porque achou que teria dificuldades para manusear o aparelho. Digitar naquele teclado era difícil, atender chamadas foi um drama (que botão se aperta - e como?), coordenar os chips uma agonia (que saiu cara).

Conseguimos aprender a usar o telefone quando tivemos que combinar com a locadora de veículos a devolução do carro. Como a agência fica na beira da praia - que ficaria interditada por causa do réveillon - marcamos lugares e horários alternativos. O último combinado foi deixar o carro no estacionamento do aeroporto. E como ninguém receberia o carro, o horário da devolução ficava meio a nosso critério - contanto que antes da partida do avião.
Lírio aos 4 de quatro por Angry Birds
Seguimos as direções recebidas e paramos num bar perto da universidade para ligar pro Ninno. Estávamos a duas quadras de sua casa e fomos recebidos pelo Ninno e Lírio.
Ninno e Renata
Além da surpresa de ver o Lírio desse tamanho e tão a cara da Andréia, tivemos outras várias surpresas, como por exemplo encontrar o Luis Lafuente, ex-aluno meu da Unir, hospedado ali e reclamando do calor de Porto Velho. É que no Nordeste tem brisa... ou, formulado de outra maneira, ele era infeliz e não sabia.
Luis Lafuente
Passamos grande parte do tempo na casa de Ninno e Renata descansando, recobrando forças e baterias. O nosso voo partiria às 2 e meia e o plano do Ninno era que fôssemos todos à praia, ver a queima de fogos. Até que cada um tomasse banho, arrumasse cabelo, até que a comida no forno ficasse bem assada, demorou mais que o planejado. Luis estava com mais medo que não conseguíssemos voltar a tempo de pegar o carro estacionado na frente da casa do Ninno que eu, que ouvia do Ninno que daria certo e ouvia do taxista que em meia hora dava tempo de chegar da praia no carro.
Na cozinha-sala tem um balanço. Foto: Luis
Entramos todos num táxi e fomos pra beira da praia, olhando sempre no relógio. O trânsito estava pesado, mas não parado. Caminhamos bastante no calçadão até os amigos de Ninno e Renata e tivemos 5 minutos de espera até a meia-noite (que já tinha passado no resto do Brasil em que há horário de verão). Demos um abraço de feliz-ano-novo e de despedida nos nossos anfitriões e refizemos o caminho até o lugar onde pretendíamos pegar um táxi.

O trânsito fluía, esse não era o problema. O problema foi achar um táxi vazio. Todos estavam com passageiro, os pontos de táxi tinham deixado de existir e os pontos de ônibus estavam lotados, assim como os poucos ônibus. O tempo passava e o nosso desespero foi aumentando. Sabíamos que o nosso carro estava no Castelo Branco, o que dá uma corrida de R$ 40, mas não sabíamos o caminho, nem tínhamos meios de chegar até lá. A sensação de impotência era similar à que tivemos em Gramado, no Natal Luz, quando saímos para buscar os pais do Luis depois do Nativitaten e acabamos presos no trânsito parado por uma hora numa noite de frio. E eles lá, na beira do lago, passando mais frio ainda, esperando por nós.

Luis teve a ideia de abordar o primeiro que víssemos entrando num carro e pedir que nos levasse pelo dinheiro que tínhamos no bolso até o carro no Castelo Branco. Mas demorou pra isso acontecer. E quando aconteceu, já era 1 hora da manhã. O casal de velhinhos que nos ouviu, sentiu o desespero de perder o avião na nossa voz. Com toda a calma do mundo, nos levaram até o carro e receberam de bom grado os R$ 43 que nos restavam.

Claro que eu errei o caminho até o aeroporto uma vez e tive que pedir informações duas vezes (parece que estou desenvolvendo meu senso de desorientação e parece que ele tem picos em momentos de estresse). Claro que nos arrependemos de termos nos metido em outro evento de massas perto da água com queima de fogos com o tempo contado. Claro que aprendemos (na marra) a evitar multidões e megaeventos. Promessa de virada de ano: nunca mais ler horóscopo. O meu e o do Luis tinham alertado para evitar multidões na virada. O horóscopo se mostrou mais eficiente que a previsão do tempo! 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Piscinas naturais

Na penúltima manhã em Lucena, acordamos cedinho para participar de um passeio de barco. A referência era seu Arlindo - que todos conheciam, mas a gente nunca acertava a caiçara (cabana em que os pescadores guardam suas coisas de pescaria) dele. Um senhor nos levou (ele de bicicleta e nós de carro) até a casa do seu Arlindo - que nos deu direções precisas até o ponto de onde sairiam os barcos.
Depois de meia hora de barco com respingos de onda na cara, chegamos nos arrecifes. Cada barco (foram dois, contendo 5 turistas cada) tinha um óculos snorkel à disposição. Luis tinha comprado óculos de natação no camelô e eu monopolizei o snorkel. Juntos, nadamos encantados pelos corais cheios de peixinhos coloridos, grandes e pequenos. Se deixar levar pela correnteza daquela água salgada que nos fazia flutuar numa boa, vendo as maravilhas escondidas embaixo da água foi uma experiência fabulosa.

Os outros turistas ficaram entretidos com o tubarão-lixa preso no curral (no fundo da foto de baixo).
Eu tinha esquecido o cartão da máquina fotográfica dentro do computador, então a minha máquina ficou ociosa e foi estocada num canto do barco. Seu Arlindo tirou essas duas fotos da gente com a máquina de outro turista e ficou de anotar e-mails pra que recebêssemos as fotos. Quando chegamos em casa, notei que a máquina fotográfica não estava na nossa bolsa. Corri de volta na caiçara do seu Arlindo que lembrou que tinha jogado uma sacola escura na lata do lixo. E lá estava a minha máquina. De noite, quando fomos na lan house para nos conectar com o resto do mundo, o moço a dois computadores do nosso nos reconheceu das piscinas naturais e nos passou as fotos que estão aqui.

E assim, com essas sortes e pequenas maravilhas, decorreu a nossa (primeira) lua de mel.

domingo, 29 de dezembro de 2013

A outra ponta

 A outra ponta de Lucena termina num rio.
 Tentamos seguir pelo rio, mangue adentro, mas não chegamos muito longe.
 No entanto, a caminhada foi longa e boa.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Pontinha

André nos emprestou a rede de 15 metros dele e lá fomos nós, pescar na Pontinha. Quando chegamos no banco de areia que divide as marés, havia muitos banhistas e pescadores na paisagem, pra nossa surpresa.
Estendemos a rede três vezes, cada vez com mais prática. A parte mais difícil pra mim foi atravessar a zona do sargaço, pedras e estrelas do mar. Pisar em solo insólito me transformou numa espécie de sirene e devo ter assustado os peixes grandes. Pescamos 3 sardinhas, um bagre e vários peixinhos pequenos. Devolvemos ao mar dois baiacús e inúmeros peixinhos de tamanhos, cores e formatos variados. E as crianças ajudavam a desembaraçar a rede, mas tinham medo/nojo de pegar nos peixes.