terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Suspeita de zika vírus

As manchinhas vermelhas na barriga começaram a aparecer no sábado (30/01). Uma aqui outra lá, bem fraquinhas. Não dei muita bola: podia ser o calor, podia ser o creme contra estrias que passo na barriga, podia ser alguma coisa que eu comi.

No dia anterior, eu tinha ido numa nova obstetra pra conversar sobre parto, já que o meu obstetra não faz parto pelo plano. Descobri que a situação obstétrica de Porto Velho é mais grave que eu imaginava. Somente a maternidade municipal e o hospital da Unimed têm equipe plantonista - anestesista, pediatra, obstetra - o que seria necessário em caso de parto normal. A maternidade credenciada no meu plano de saúde (GEAP) tem UTI neonatal (para prematuros), mas apenas uma obstetra plantonista: não tem anestesista ou pediatra de plantão e suspeitam que a obstetra plantonista não dorme porque atende todo mundo. Mas esse parágrafo só serviu para explicar quem são as obstetras pras quais liguei no parágrafo a seguir.

No domingo (31/01), as bolinhas vermelhas na minha barriga se multiplicaram e passaram também para as costas. Não coçava, nem eu tinha febre, mas eu sentia dor na base do crânio (atrás, do lado esquerdo). Como eu tento sempre dormir e deitar do lado esquerdo, este lado em geral apresentava mais bolinhas vermelhas e talvez seja a explicação pra dor na cabeça. Percebi também que as bolinhas eram sensíveis a calor: quanto mais calor, mais salientes eram. Liguei pra nova obstetra, perguntando o que podia ser. Ela disse que manchas vermelhas no corpo de grávida "é normal". Eu acreditei (ela é obstetra, eu nunca estive grávida antes), mas meu marido insistiu numa segunda opinião. Liguei pra obstetra plantonista da maternidade, que já foi minha obstetra. Ela disse que manchas vermelhas podiam ser muita coisa, e que daria pra detectar alguma coisa pelo hemograma. Mandei whatsapp com foto da minha barriga e costas para a secretária do meu obstetra, mas ela nem viu no fim de semana. Conversando com os meus pais por Skype, levantamos a hipótese de haver relação com a vacina tríplice (tétano, difteria e coqueluche) que eu tinha tomado 2 dias antes das manchas vermelhas aparecerem.

Na segunda-feira (01/02) fui em jejum no meu obstetra. Pedi pra ser encaixada com urgência, mostrei a barriga pra secretária e entrei no consultório. Eu tinha manchas vermelhas no corpo todo, como se tivesse sarampo, estava com um olho vermelho, a dor na base do crânio persistia, apesar de ter enfraquecido, e as mãos estavam tão inchadas que doía para abrir e fechá-las. A temperatura tinha subido para 37, mas as manchas não coçavam. Meu obstetra disse que zika virus era muito raro em Rondônia, que se fosse virose, eu teria mais febre, coriza, dor no corpo. Disse que é pouco provável que o bebê tenha microcefalia, porque um feto de 29/ 30 semanas não está mais em formação, como é o caso de fetos no primeiro trimestre. E se for zika mesmo, o bebê já está infectado, porque o ciclo do vírus é bastante curto; e adiantar o parto não seria uma boa ideia, porque aí se tem um prematuro. Em relação a zika, a única coisa que se pode fazer é o diagnóstico, e ele não soube dizer onde faz. Não descartou a possibilidade de alergia (por exemplo à vacina) e receitou um antialérgico especial para grávidas. Pediu também hemograma e IgE, que eu fui fazer imediatamente.

De tarde, o resultado dos exames mostrou que o meu sistema imunológico estava fraco. Luis decidiu que era hora de procurarmos especialistas não em gestação, porque as respostas sempre eram pouco conclusivas, mas em doenças tropicais. Não sei retraçar o percurso de telefonemas realizados por ele, mas meu marido chegou à resposta de que a Policlínica Ana Adelaide tinha kit para testar zika virus (além de dengue e chikungunya). Quando chegamos, por volta de 13h30, a sala de espera estava lotada e parecia não haver sistema de prioridade para gestantes. Enquanto eu esperava para ser chamada, Luis foi entender como funciona o local. Num prédio, onde estavam as pessoas esperando, o médico atende ou encaminha as pessoas. No outro bloco, estava o laboratório onde são coletadas e analisadas amostras de sangue. Mas para chegar no laboratório, eu precisava passar pelo médico (assim como todas aquelas outras pessoas também).

Fui logo chamada para a triagem de risco, e me surpreendeu que a minha pressão e temperatura estivessem normais. Demorou para eu ser chamada para ser atendida pelo médico e teria demorado mais se Luis não tivesse interferido. Enquanto esperávamos, entrou um sujeito usando camiseta da Rede TV filmando a sala de espera com o celular. Perguntou quem tinha ligado para ele pra reclamar da superlotação no Ana Adelaide e aos poucos as pessoas foram dando seus depoimentos de que havia apenas 1 médico ali e já estavam esperando desde a manhã e não tinham almoçado.

O que a gente ouvia das pessoas na sala de espera era que estavam com febre, manchas vermelhas, coceira e suspeita de dengue. Na maioria, eram as mulheres e crianças que apresentavam essas queixas. Luis explicou ao rapaz da TV que provavelmente estávamos testemunhando um surto de dengue ou zika e que o sistema público de saúde não estava preparado para atender a demanda.

O médico que me atendeu disse que já tinha atendido mais ou menos 40 pessoas e que metade delas tinha os mesmos sintomas que eu. Avisou que me encaminharia para fazer os exames de zika, dengue e chikungunya, mas que o procedimento era altamente burocrático e demorado. Preencheu 4 pedidos de exame diferentes e fez a "prova do laço": com a esferográfica, desenhou um retângulo no meu braço e estancou o sangue acima com a braçadeira de medir pressão. Se, depois de 3 minutos aparecessem bolinhas bem vermelhas no retângulo (ou em volta dele), era sinal de dengue. Meu braço foi mudando de cor e inchando. Quando eu não lembrava mais como ele era antes, coloquei o outro braço do lado e notamos que estava roxo. Não sei se deu os 3 minutos prescritos, mas não apareceram as petéquias que indicariam dengue. Avisei que eu já tinha tomado antialérgico naquele dia e ele respondeu que a primeira reação provocada pelo medicamento é a diminuição da coceira e que as bolinhas vermelhas demorariam a sumir. Disse que os exames pedidos pelo meu obstetra eram inespecíficos e pediu que eu levasse os 4 pedidos de exame ao administrador do Ana Adelaide, que  se ocuparia da papelada para encaminhar o exame de zika pra fora. O resultado chegaria em 15 dias.

Depois de rodar um pouco, encontramos o administrador, que se pôs a preencher 4 formulários imensos (e provavelmente iguais) para encaminhar os meus exames para Belém. O diagnóstico de zika, pelo que entendemos, só é feito em 2 lugares no Brasil todo: o Instituto Evandro Chagas em Belém e a Fiocruz no Rio. Enquanto mudava a posição dos papéis-carbono, o administrador disse que demoraria uns 30 dias pra sair o resultado e que não tinha chegado ainda nenhum resultado dos exames enviados a Belém. Uma mulher entrou na sala e entregou papéis ao administrador, que disse que o caso dela era igual ao meu. Explicou que o médico que nos atendeu é um dos melhores infectologistas de Rondônia (trabalha também no CEMETRON - Centro de Medicina Tropical de Rondônia) e que demos sorte de ele ter pedido o pacote completo de exames para nós, porque qualquer outro médico plantonista não teria atentado para os sintomas que relatamos.

Com as 4 vias do pedido da bateria de exames em mãos, fomos, por volta de 17h, para o laboratório, coletar sangue.

O que mais ouvimos, durante essa jornada, é que "zika é muito raro em Rondônia", "não há o que fazer se for zika", "não sabemos o que pode ser isso que você tem". Alergias me parecem descartadas, já que antes de mim 20 outras pessoas relataram os mesmos sintomas que eu tenho ao infectologista. A causa dos sintomas parece ser algo que afeta o coletivo - especificamente quem está com a imunidade baixa.

Hoje (02/02) reparei que as manchas nos braços diminuíram (coincidência ou não, eu tinha passado aloe vera nos braços ontem) e que as da barriga ficaram mais difusas. Não tive febre de manhã, mas de tarde o termômetro marcou 37,1. Mãos e pés estão inchados e alguns músculos nas pernas puxam (mas já fui avisada de que cãibras nessa idade gestacional são esperadas). A dor na base do crânio desapareceu, o olho não está mais tão vermelho e meu rosto também não. Continuo sem saber o que eu tenho e se é perigoso para o bebê que estamos esperando.

Lamento muito que obstetras e infectologistas não compartilhem conhecimentos e procedimentos e que a saúde pública no Brasil esteja tão mal das pernas, a ponto do diagnóstico de zika demorar 30 dias para chegar - de tratamento nem se fala: nem do tratamento do vírus, nem da microcefalia, possivelmente associada ao zika.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Fazemos iogurte

Lembro que quando eu morava na Oca, Lígia e Ferrone faziam iogurte fervendo litros de leite e adicionando um copinho de iogurte industrializado ao leite. Mas eu sabia que dá pra fazer iogurte sem ter um iogurte que se use como base.

Eis que Luis voltou de Floripa com sementinhas de iogurte. Siomara e Jairo deram pra ele uns "bichinhos do iogurte" num frasco com leite. E desde então começou a corrente de fazer iogurte.
 
Toda noite, eu passo o iogurte do dia anterior numa peneira e sobram os "bichinhos", que eu lavo na água corrente. Da peneira eles voltam pro frasco (vazio e limpo) e adiciono meio litro de leite e guardo tudo num lugar escuro (saco de pão). O iogurte pronto, iniciado 24h antes, vai pra geladeira e fica lá por 2 dias pra ganhar consistência, porque os "bichinhos" continuam agindo. Quando deixamos o iogurte pronto por pouco tempo na geladeira, ele fica bastante líquido. Tenho esperança de, controlando o tempo, conseguir um kefir.
 
Percebi que o número e tamanho dos "bichinhos" na peneira vai aumentando com o tempo. Lendo coisas aqui e ali nas interneta, resolvi seguir a instrução de não deixar o iogurte em processo entrar em contato com metal (seja a peneira, a colher, o vasilhame etc.), mas nunca pus a teoria à prova.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

De volta em casa

Enquanto descíamos do taxi que havia nos trazido do aeroporto, apontávamos as novidades no jardim:
"abriu uma rosa!"
"Olha quanto hibisco!"
"Caramba, a trepadeira subiu tudo isso!"
Claro que nem tudo eram flores. O mato tinha crescido bastante e era preciso limpar os canteiros. Eu me encarreguei deste, que é mais elevado e menor (a barriga permitiu que eu arrancasse as ervas daninhas).
Já Luis assumiu o trabalho pesado. Livrou a nossa horta (mastruz, manjericão, alfavaca, citronela, couve, espinafre, vinagreira, pimenta) das ervas daninhas.
As mangas tinham acabado e não havia mangas podres embaixo do pé.


quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Onde está Nicinha?


Nicinha, pescadora ribeirinha e militante do MAB-RO está desaparecida desde 07 de janeiro deste ano.

sábado, 9 de janeiro de 2016

50 anos de Casa da Juventude

Oma e Helena
Em 9 de janeiro de 1966 foi fundada a Casa da Juventude em Gramado, de frente pro Lago Negro. Meus avós, Theodor Fritz Kleine e Marie Agnes Kleine estavam lá. E no jubileu de 50 anos, minha avó ainda estava lá - e foi homenageada.
Helena e Gerhard
Dieter
O prefeito em exercício, o presidente da associação e o atual diretor da Casa fizeram falas em que ressaltavam como a história da Casa da Juventude, com seus cursos de alemão e danças folclóricas, se confunde com a história da família Kleine: Theo Kleine foi o primeiro diretor (Hausvater), seu filho mais velho, Gerhard Kleine assumiu a tarefa com a esposa, Ruth, que passaram o bastão para o filho mais novo, Dieter Kleine, que assumiu a direção da Casa com ajuda da esposa, Denise.
Apresentação de danças folclóricas

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Esperando a meia-noite

Dieter, Denise, Gerhard e Oma

Helena, Denise, Ruth, Dieter e Gerhard
Vimos a "Festa da Virada" pela TV em várias capitais, exceto em Porto Alegre. As velas da árvore de Natal foram acesas uma última vez e nos despedimos do ano de 2015.
Luis
Nina com 15 anos cumpridos
2016 está prenhe de expectativas em relação à nossa filha, Agnes Maria.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Gripe na gravidez

Devo ter pego essa gripe no avião, no ônibus ou em Campinas, onde passamos dois dias na casa do irmão do Luis.

Natal e Ano Novo era a minha última oportunidade de viajar de avião antes dos 7 ou 8 meses, quando as companhias aéreas temem parto prematuro no avião. E a gente queria passar com a família, mostrar a barriga, comemorar a pequena menina que vem em abril.

No primeiro dia em que acordei em Belo Horizonte, na casa das tias do Luis, senti forte dor de garganta e tive febre. Quando informei que estava sentindo os gânglios na altura dos ouvidos, Luis entrou em estado de alerta por causa do Zika virus. Quis me levar ao hospital todos os dias; conseguiu em Gramado, onde o médico diagnosticou sinusite e receitou "antibiótico que grávida pode tomar", mas a bula não transmite essa segurança toda.

Até chegarmos em Gramado, passamos quase uma semana no apartamento das tias em Belo Horizonte. Todos foram pro sítio, inclusive uma das nossas anfitriãs, e nós ficamos no apartamento, olhando o céu nublado. Nariz escorrendo, febre que ia e voltava, muitos espirros, depois tosse. Assim embarcamos na longa viagem até Gramado. No avião, tive muita dor na sobrancelha na hora do pouso e quando assoei o nariz, saiu sangue.

Que férias. Na última vez que estive no Sul Maravilha, em julho, pro GEL, também peguei uma gripe forte. Naquela vez, ela evoluiu devagar e demorou a sarar. Dessa vez, usamos de várias armas: limão com mel, xarope de guaco, extrato de própolis, nebulizador com soro fisiológico, antibiótico e óleo de copaíba nas costas. As fases da gripe estão passando mais rapidamente, mas Luis já está com o nariz escorrendo...


Primeira festa em casa

Taís, João, Papagaio, Luis, Narcísio e Walisson
Um dia antes de viajar, fizemos uma confraternização em casa com os poucos que ainda estavam em Porto Velho. Foi a primeira vez que chamamos pessoas pra nossa casa que demorou tanto tempo para ficar habitável. Durante muito tempo tivemos eletricista, marceneiro, encanador, limpador de forro, chaveiro e outros consertando/instalando coisas na casa. E Luis pelejou bastante pra conquistar a casa e retirar um pouco do poder das ervas daninhas e animais que tomavam conta da casa que tinha ficado fechada uns meses antes de entrarmos.
Heloisa e Narcísio
Eu tinha feito chutney de manga com as mangas (manga massa) que a nossa mangueira nos dá, achando que seria o maior sucesso, mas as folhinhas roxas na salada que a a gente tinha comprado na feira (e nem lembra o nome) chamaram muito mais atenção que o chutney ou a minha salada de batata da Dona Fine que todas as mulheres da comunidade da Capela de Vila Campo Grande preparavam na véspera da festa anual.
Foto: Luis
Acho que aqui dá pra ver a minha barriga de 5 meses. Foto: Luis
Inauguramos a casa um dia antes de viajar. E foi nesse dia que alguns colegas (por exemplo Heloísa e Narcísio) me viram grávida pela primeira vez. Pois é, a UNIR não é necessariamente um ponto de encontro...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

A defesa de TCC da Rafaela

Foto: Sebastião. Minha barriga nem está aparecendo...
Hoje, 14 de dezembro de 2015, foi a defesa do TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) da Rafaela. O curso de Letras - Português ainda não formou nenhuma turma de TCC, por isso eu fiz o que a UNIR chama de "acompanhamento especial". Foi minha primeira experiência de orientação. Ver a Rafaela falando com desenvoltura para a banca examinadora (Geane Klein e Agripino Fonsêca) foi bastante gratificante. Mostra como ela mergulhou fundo e domina as questões que ela estudou e como o entendimento da linguagem amadureceu.

No primeiro semestre de 2015, quando eu estava ministrando uma disciplina chamada "Introdução às Ciências do Léxico", Rafaela me pediu que eu a orientasse. Pensei logo numa gravação que eu tinha de sujeitos afásicos respondendo a um teste de nomeação. Eram dados que eu não tinha analisado, mas que prometiam análises interessantes: ao ver a figura de uma pirâmide, um sujeito diz "múmia". Percebe que não é a palavra-alvo, reformula e diz "esfinge". Tentamos ajudar, fornecendo um contexto sintático: "eu vou no Egito, visitar as ... ?" A resposta é uma aventura em termos de redes semânticas: "Cataratas!"

Rafaela animou, escolheu bem os dados, leu os textos da Neurolinguística, da Lexicologia e Linguística Cognitiva, analisou os dados com o ferramental teórico disponível e foi apresentar o trabalho dela num congresso de Semântica Cognitiva. No período em que estive de repouso por causa da gravidez de risco, ela foi a primeira a me visitar em casa (e trabalhar no texto: tanto para publicação nos anais do congresso como para o TCC).

Não tivemos qualquer problema com a escolha dos membros da banca, pelo contrário, foram muito solícitos e logo responderam entusiasmados que tinham lido e aprovado o trabalho. A defesa hoje consistiu na apresentação da Rafaela e uma chuva de elogios e agradecimentos. Fico muito feliz de encerrar o ano letivo assim.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

É menina!

Na última vez que eu fui fazer ultrassom, o bebê estava de perna cruzada. Não deu pra ver se era menino ou menina, mas a suspeita era de que fosse menina.

Pra saber, sugeriram que eu fizesse a simpatia do garfo e da colher (tipo tirar o palito mais curto. Garfo é menino, colher é menina), que eu atentasse para o formato da barriga (pontuda é menino, redonda e espalhada é menina), que eu pensasse "é menina?" e colocasse a mão na barriga: se mexesse, é porque é; por fim, sugeriram que eu fosse no Dr. Eudes, "porque o Dr. Eudes não erra".

Fui no Dr. Eudes. Depois de me cumprimentar, perguntou se eu já sabia o que era. Respondi que não tinha certeza. A primeira coisa que ele procurou foi o meio das pernas do bebê. "É uma gatinha!!! Olha, se sair menino, eu pago os estudos até o fim da faculdade."

O mais legal ainda é ouvir o coração batendo forte. Dessa vez deu pra ver o rosto, a boca abrindo e fechando, as mãozinhas se mexendo. Como diz o Luis, hoje a nossa filha teve o primeiro check-up completo: tronco, membros, rins, fígado, estômago, coração, crânio e cérebro foram medidos e avaliados. Segundo o veredito, tudo está na mais perfeita normalidade.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Porque é impossível calar diante de mais um desastre induzido

O portal Amazônia Real publicou um texto meu sobre o rompimento das barragens em Mariana e alguns paralelos dessa tragédia com a cheia do Madeira de 2014.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

1+1=3

Nosso cajuzinho
Nos fundos da clínica em que fizemos o segundo ultrassom, havia um cajueiro enorme com cajus minúsculos, menores que a castanha. Luis tirou um do pé e o plantamos aqui em casa, porque esse cajuzinho representa pra nós o milagre da vida.

Quem adivinhou que eu estava grávida, na verdade foi a Mônica, em função de uma postagem que eu fiz. Depois fiz o teste de urina, que deu positivo pela primeira vez na vida, e depois confirmei com o teste de sangue. O primeiro ultrassom foi feito após uma consulta de 5 minutos com um obstetra que nunca mais vi e mostrava um embrião que mais parecia um eclipse lunar. Mas deu pra ouvir o coração e determinar que eu estava na sexta semana de gravidez. Olhando no calendário, vi que não se conta as semanas a partir da data de concepção (o que me pareceria lógico), mas a partir da data da última menstruação. A data provável do parto ficou em 24 de abril.

O segundo ultrassom é tão significativo pra nós, porque eu tinha sangrado na véspera (três dias depois do primeiro ultrassom) e o obstetra plantonista no hospital estava convencido, após o exame de toque, que "com essa quantidade de sangue que você perdeu, não há mais vitalidade aqui". O segundo ultrassom nos mostrou que havia um descolamento, sim, mas que o bebê estava vivo, coração batendo forte. Fiquei uma noite internada no hospital.

Me foi recomendado repouso. Detalhe é que o obstetra com quem me consultei depois do segundo ultrassom disse que 4 dias de repouso eram suficientes. "Depois disso, você vai estar jogando bola." O remédio que ele me receitou podia ser tomado via oral ou vaginal. Tomei via oral e começaram os enjoos matinais, vespertinos e noturnos. Eu não tinha mais fome, demorava muito pra comer, vomitava o que tinha comido. Comecei a perder peso.

O terceiro ultrassom foi um choque pra nós, porque mostrou que havia dois descolamentos enormes, totalizando 66% do saco gestacional. Em busca de um obstetra em que eu pudesse confiar, mudamos de obstetra. Essa, a quarta, nem olhou os ultrassons e manteve a indicação da progesterona (mas dessa vez, via vaginal). Recomendou repouso absoluto e para os enjoos, receitou um remédio indicado para quem faz tratamento de quimio e radioterapia - em cuja bula estava escrito que não era recomendado para gestantes. Pedi ajuda para encontrar um obstetra de confiança e recebi uma indicação da reitora da UNIR, casada com um ultrassonografista. As primeiras consultas foram por telefone, depois eu fui lá. Essa obstetra conversou mais de 10 minutos comigo e não atendeu nem telefone nem outra paciente durante a nossa consulta. Eu fui ganhando confiança, mas logo ela informou que não faz mais parto e recomendou que eu voltasse para a obstetra anterior. Me disse que enquanto eu não sangrasse de novo, estava tudo em ordem e que enjoo era sinal de que a gravidez avançava bem.

O quarto e o quinto ultrassom foram marcados com dois dias de diferença um do outro (o primeiro foi particular e de urgência, porque eu tinha sentido cólicas) e mostram realidades contraditórias. Um não tomou a medida de nada: nem do descolamento, nem do saco gestacional. Calculou, no olhômetro, que o descolamento correspondia a 30% do saco gestacional. O ultrassom feito dois dias depois mostra um descolamento de 60%. Essa ultrassonografista mediu tudo, mas não garanato que tenha acertado o cálculo da porcentagem. A data provável do parto regrediu para 12 de abril.

Voltei para a quarta obstetra e seu consultório lotado. Não olhou os ultrassons, não se interessou pelo quebra-cabeça que eles representam, lamentou que "gravidez assim, cheia de incertezas é difícil" e me despachou. Tive dores na barriga de noite, liguei pra enfermeira que trabalha no hospital dessa obstetra perguntando se é normal. Ela perguntou quem era a minha obstetra e disse: "ela está na minha frente. Conversa com ela." Conversei, ela disse: "venha." Fui e ela me receitou um remédio pra infecção urinária. Eu disse que eu não tinha infecção urinária, afinal tinha tido a suspeita antes e feito o teste (inclusive a urocultura). "Toma esse remédio que você vai ficar melhor." Não tomei.

Fiz o ultrassom morfológico, também chamado de transluscência nucal. Os marcadores indicavam que tudo estava normal e vimos o bebê mexendo braços e pernas, pulando até. Nossos corações saltaram junto, porque foi surpreendente que o bebê se movimentasse tanto e tão rápido. A data provável do parto ficou em 10 de abril. O ultrassonografista se comportou como obstetra (recomendando que eu não parasse de tomar a progesterona) e comemorou conosco o bom desenvolvimento do feto. Dias depois, a obstetra disse pra eu parar de tomar Utrogestan.

Voltei para o terceiro obstetra, que também é ultrassonografista. Senti confiança no exame que ele fez de todos os ultrassons e entendi por que (ele tomou o tempo para explicar e desenhar o que se passa no útero) devo continuar tomando progesterona (Utrogestan). Infelizmente ele não faz parto pelo plano de saúde.

Bem no início da gravidez, pensamos em ter o filho na Alemanha e fazer todo o acompanhamento por lá. Casa de nascimento, parteira que acompanha antes e depois, ter os meus pais do lado nos pareceram vantagens inegáveis. O problema era a licença do trabalho e o seguro de saúde lá. Nenhum dos dois era impossível, mas tínhamos muito pouco tempo para avaliar e decidir. Fomos nos convencendo de que tinha que ser possível ter um bebê em Rondônia, mas não contávamos com as diferenças entre julgamentos, obstetras e ultrassonografistas relatadas acima. Minha mãe e minha tia aceitaram o convite de virem pra cá por volta do nascimento da criança. Terei duas mães pra me ensinar a ser mãe.

Nos três primeiros meses de gravidez, tive muita correria, insegurança, enjoo, briga por causa de comida e afastamento do mundo. Passei muito tempo na cama, olhando pro teto, sem saber o que se passava no resto da casa. Luis passou a fazer tudo. Além de fazer as coisas dele, ele assumiu as minhas tarefas na casa e fora dela. Sou muito grata ao meu marido por todo o esforço e dedicação, inclusive abdicação de compromissos importantes para ele.

Aos poucos, vou retomando a minha rotina, sem, contudo, fazer esforço. Meus orientandos vieram aqui em casa, minha barriga está crescendo, os enjoos vão diminuindo, mas se concentram de noite. A greve acabou, as aulas serão retomadas essa semana, mas ainda estou de atestado até semana que vem.

Estamos muito felizes com a gravidez, não sabemos ainda se é menino ou menina, nem ainda não sinto os pontapés e cambalhotas. Parece que o pior já ficou para trás e estou ansiosa para experimentar as próximas etapas da gravidez e maternidade em geral.

domingo, 13 de setembro de 2015

Fumaça

Um aluno me disse, com certo espanto, que o Climatempo não apresentava nenhuma condição climática para Porto Velho: nem sol, nem chuva, nem nuvens. Dizia lá fumaça.
O cheiro de queimada invade tudo, o céu fica branco, não se vê muito longe, o sol fica atrás de uma cortina, o ar fica seco, caem fuligens pretas do céu. A situação está parecida com 2010, quando não se via até o fim da quadra.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Excesso e falta d'água

Marca da cheia passada
Como hoje tem um evento de lançamento do fascículo 19 da Nova Cartografia Social da Amazônia (Auditório da Unir-Centro, 19h) sobre os deslocamentos de uma comunidade que foi removida de (1) Mutum-Paraná pela usina de Jirau para (2) Nova Mutum (a company-town da empresa, onde só tem casas, nenhuma sombra, nenhum verde) e decidiu que lá não dava pra viver e foi se instalar nas margens da BR, em (3) Vila Jirau, Luis e eu fomos para Vila Jirau ontem, para convidar as pessoas.

Quando chegamos, todos já tinham sido convidados pelo João, que tinha ido a Mutum-Paraná, a cidade-fantasma. Seguimos para lá e nos deparamos com a Nicinha e comunidade de Abunã acampados em Mutum-Paraná.
Água fornecida pela Defesa Civil
A comunidade de Abunã sofreu com o excesso de água das cheias (deste ano e a histórica do ano passado) e se instalou onde conseguem pescar. Não tem água potável nem energia, mas dá pra pescar. Semana passada um fogo devorou as margens do acampamento, algumas pessoas agora só têm a roupa do corpo.
Marcas do fogo e a urubuzada empoleirada na árvore
A água parada está dando infecção nas pessoas. Tem muito pouco oxigênio na água, por isso também tem pouco peixe. Peixes de valor comercial não tem, mas dá pra ir levando com o que tem.
Comunidade de pescadores
Malhadeiras na comunidade de pescadores
Nicinha nos pediu carona, nós concordamos. Junto com ela, veio um isopor maior que o porta-malas cheio de peixe: sardinha, pacú, surubim e pirapitinga. Em troca da carona, ganhamos peixes.
Lavando roupa
Encontramos o João, ouvimos as histórias da vida sofrida que estão levando lá e voltamos pra Porto Velho. Em vez de altearem a BR (pra não alagar na enchente do ano que vem), colocaram placas no trecho: ÁREA SUJEITA A ALAGAMENTOS
Paisagem árida
 De Abunã alagada, foram para Mutum-Paraná, onde não tem água potável - a não ser aquela que a Defesa Civil dá.

domingo, 9 de agosto de 2015

Kirikiri: novos inquilinos

Casal de gaviões kiri kiri
Há uns dois meses, um casal de gaviõezinhos vinha rondando o nosso condomínio. Primeiro observamos da nossa varanda que procuravam estabelecer-se numa caixa de ar condicionado no último andar do prédio em frente ao nosso. Imaginamos que aquele apartamento estivesse desocupado, mas eles logo desistiram de lá e escolheram a caixa do ar condicionado no nosso quarto.
Caixa de ar condicionado do nosso quarto

Da janela da cozinha, observamos como traziam material para o ninho no bico e se instalavam na caixa do ar condicionado. Até o início do ano, ainda na estação das chuvas, o ar condicionado que havia dentro daquela caixa preenchia toda a caixa. Como fazia muito frio no quarto e ele não tinha muita regulagem, trocamos os ar condicionados da casa de lugar: o grandão foi pro escritório e um menor entrou em seu lugar. Com isso, criou-se um espaço relativamente grande em volta do aparelho e a gradezinha que deveria prevenir a entrada de pombas se fez necessária. Mas ela está furada e os gaviões entram e saem na maior moleza.
A caixa de ar condicionado do quarto à direita e o gavião no topo do prédio, à esquerda
No começo, a gente ligava o ar condicionado e eles saíam. A gente jogava água e eles voavam. A gente batia no papelão dentro do quarto e eles se apavoravam. Mesmo assim, eles insistiram em ficar.
O macho que tem pintas pretas na barriga
Está certo que mês passado viajamos e o ar condicionado não foi ligado por uns dez dias. Devem ter decidido colocar seus ovos nesse tempo de calmaria.

Os quatro ovos encontrados na caixa do ar condicionado
Dei um tapão no papelão que emoldura o ar condicionado e um gavião disparou pra fora da caixa. Abri o papelão e vi um mar de picotes de isopor. Nesse tapete branco, destacavam-se quatro ovos. Determinada a não repetir a novela que havia se desenrolado no ano passado com as pombas na caixa do ar condicionado do quarto andar, tirei os ovos de lá. Luis e eu só pensamos o que fazer com os ovos depois que eles estavam na nossa mão: levar para o IBAMA? UNIR? Colocar na outra caixa de ar condicionado que não usamos, como por exemplo do quarto de hóspedes?

Olhamos pela janela da cozinha e a visão do casal assustado olhando na direção da caixa do ar condicionado onde tinham depositado sua futura família nos forçou a uma decisão: devolvemos os ovos. Como estavam, dispostos sobre o isopor picotado.
Falco sparverius = falcão parecido com pardal (porque é o menor dos gaviões)
Ficamos com medo de eles não registrarem que os ovos tinham sido devolvidos e que o cheiro das nossas mãos impedisse que reconhecessem os ovos como seus. Voltaram. Trouxeram mais material para construir ninhos. O ar condicionado passou a fazer barulhos diferentes, talvez porque estivessem lutando bravamente contra o vento quente que sai dele. Decidimos não mais ligar o ar condicionado do quarto e nos mudamos para o quarto de hóspedes.

Procuramos saber mais sobre nossos novos inquilinos e descobrimos que são bastante urbanos, ao contrário do que imaginávamos. Seu nome, também grafado como quiriquiri vem do som que eles produzem (tipo quero-quero ou bem-te-vi). O que achamos o mais curioso é a distribuição da espécie no Brasil: onde não tem floresta.




quarta-feira, 5 de agosto de 2015

domingo, 2 de agosto de 2015

Flor de cacau

Manga, caju, jambo e cacau estão em flor. E eu estou esperando...

Floresta aquática

Durante a cheia histórica de 2014, a água do rio Madeira extravasou as margens e alcançou as terras. Num lugar, que hoje referenciamos como "brejo", no sítio do Jairo, a água ficou. E foram se criando peixes ali. O problema são as árvores que não têm costume de ficarem submersas e vão morrendo. Açaí e pupunha foram as primeiras a secarem. E a gente não vê muita solução pra retirada das árvores, porque, sem chão, não tem onde se estabilizar para cortar, nem pra onde correr quando a árvore seca cair.


Como o medo de puraqué (peixe elétrico) é grande, ninguém entra na água. Na foto acima, Damian está esvaziando a canoa (furada) para que possamos nos mover sobre a água. Não cabiam os quatro na canoa, e como Damian tinha esquecido o remo, Eric ficou de fora da canoa e foi buscar o remo.
A parte mais tensa foi desemaranhar as duas malhadeiras que tinham sido guardadas no mesmo saco.
Assim que conseguiram, Damian ignorou o remo trazido e foi remando com o terçado (extrativista esquece o remo, mas anda com o facão pra todo lado). Luis ajudou com uma vara de 2m, eu fui empurrando as árvores que me apareciam nas costas.
De noite, sonhei que tinham pego uma jatuarana. Não sei se de fato conseguiram pegar peixe: quando voltamos para ver a malhadeira depois do almoço, estava intacta.

domingo, 26 de julho de 2015

Do outro lado do rio

Quando chegamos no sítio, Tucumã rosnou para nós. Conforme Luis conversava com o cachorro mencionando os nomes de Jairo, Siomara, Damian, Syrius (todos os alertas ligaram ao som desse nome), Tucumã se acalmava. Notamos a ausência das galinhas, mas elas são espertas: assim que a gente foi pra cozinha, elas apareceram.
O peixe grudou (o couro do tambaqui) na grade, então a solução foi assar o peixe como os gaúchos fazem churrasco. As galinhas não tiveram medo do fogo para resgatar o espólio.
Grande parte do nosso cuidado envolveu o coelho - que é coelha. Limpamos a casinha dela, demos água limpa e tentamos adivinhar o que ela come. Ela beliscava gramíneas e comeu um cará roxo cozido. Siomara ajudou, indicando por mensagem de celular o que ela come: poeirara, uma trepadeira que dá na beira do rio, estava com favas de feijão como ela descreveu e florzinhas roxas. A outra coisa que a coelha gosta de comer - para nossa surpresa - são flores de hibisco. O olhar, a curiosidade e a sabedoria da coelha me lembraram muito a Akari.
Cozinha ribeirinha: limão galego e macaxeira na bancada; lista de compras escrita na tábua, fósforos e vela para o caso de acabar a luz, ouriço de castanha para conter coisas variadas, panelas dependuradas, artesanal misturado com comprado pronto.