quinta-feira, 16 de abril de 2015

Saudades de Yehuda

Joe e Yehuda tocam uma bicicletaria. Joe e Yehuda são ciclistas de tipos diferentes: Joe gosta de pedalar em grupos de ciclistas, pedala no asfalto para melhorar o tempo, usa lycra e capacete. Sua bicicleta é de corrida e ele a usa quando as condições forem favoráveis.

Yehuda não gosta de lycra, capacetes ou óculos escuros e prefere pára-lamas, bagageiro, bolsas, luzes. Yehuda pedala todos os dias para todos os lugares, carregando o que for necessário. Sua bicicleta é urbana e ele a usa como meio de transporte.
Depois de muito esgotados, voltaram a ser impressos os volumes 2, 3 e 4 do Yehuda Moon.

domingo, 12 de abril de 2015

Bodenlos

O gênero biografia merece, às vezes, subespecificações. As biografias Persépolis e Epiléptico, por exemplo, se apresentam na forma de quadrinhos. As biografias de Michelangelo, Darwin e Van Gogh, todas escritas por Irving Stone, são biografias romanceadas. Já as autobiografias, escritas pelos sujeitos que são objeto da biografia, acabam dando mais valor ao percurso de ideias: Max Planck, Richard Feynmann, Werner Heisenberg entrelaçam vida e obra. Deste estilo poderia ser a autobiografia filosófica de Vilém Flusser, Bodenlos. Mas Bodenlos ainda é diferente.

A autobiografia está dividida em quatro partes: monólogo (em que é relatada a condição de judeu praguense que veio se refugiar, como único sobrevivente da família, no Brasil); diálogo (em que suas reflexões com e sobre onze figuras iminentes são tecidas); discurso (em que suas aulas ganham destaque); reflexões (em que o regresso a Praga é preparado e efetivado).

Numa palestra de Gustavo Bernardo, ele descrevia Bodenlos como sendo uma biografia em que Flusser escreve sobre os seus amigos (Alex Bloch, Milton Vargas, Vicente Ferreira da Silva, Samson Flexor, João Guimarães Rosa, Haroldo de Campos, Dora Ferreira da Silva, José Bueno, Romy Fink, Miguel Reale e Mira Schendel) e quase nada sobre si. Lendo o livro, percebi que, além de escrever sobre cada amigo em capítulo separado, Flusser articula-os, comparando-os entre si e a si mesmo.

Mais que isso, como muitos de seus amigos são ligados à palavra escrita, Bodenlos se mostra como uma grande reflexão sobre a escrita:

Escrever é trabalhar de dentro da língua sobre a língua. Pois a práxis de tal trabalho implica um constante distanciar-se da língua [...]. Tal distanciamento provocava por sua vez alienação daquela língua que brotava, calada, do próprio ser-no-mundo. (p. 183)
E como a ciência é escrita, suas reflexões sobre ciência são consequência:
Ciência para mim sempre tem sido uma maneira de falar, e filosofia da ciência, portanto, parte da filosofia da língua. Apenas, parte que tendia cancerosamente a invadir as demais partes. Creio que a filosofia da ciência encontrará sua posição apropriada apenas dentro de uma teoria de comunicação a ser futuramente elaborada.
[...]
Procurei focalizar a ciência enquanto discurso cumulativo de explicações "objetivas" de fenômenos, e enquanto método historicamente determinado de humanizar a natureza e naturalizar o homem. (p. 280-281)
Para mim progresso científico é a maneira como o homem afirma sua dignidade perante a realidade, embora o faça diabolicamente. (p. 283) 
A função da técnica é modificar o homem que a possui. Não, portanto, manipular coisas e homens coisificados é a função da Técnica, mas modificar o homem pela própria práxis. Destarte a filosofia pode humanizar a técnica e evitar a tecnologização do homem. (p. 288)
Bodenlos me ajudou a tirar o chão da ciência - que eu considerava edifício sólido.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Páscoa ribeirinha

Jairo veio pelo rio, navegou um pouco pelo esgoto do Nacional e veio nos buscar
Saímos aqui, perto da ponte
As águas do Madeira já estão baixando, mas ainda se vê a marca marrom do mês anterior, em que a cota chegou a 17m. A estrada da beira que vai margeando o Madeira está caída em alguns trechos e completamente abandonada à floresta em outros.
Estrada abandona
A nova estrada, que entra pelo KM 4,5 da BR 319 está bem encharcada, e como a casa do Jairo fica na estrada da beira, e tem vários pontos com muita água pra atravessar, não tinha como chegar de carro. Por isso Jairo nos buscou de barco.
Estrada da beira
No sítio tinha os membros da Arirambas, as galinhas, o coelho, os cachorros, o hamster, os passarinhos, os mosquitos, as flores, as árvores etc. Não tirei fotos de todos, apenas de um gafanhoto que não teve medo da câmera.



Nem todos ficaram pro churrasco, infelizmente. Luis cuidou da carne, Jairo desenterrou, descascou e cozinhou macaxeira amarela.
O churrasqueiro
Luis na cozinha

Jairo do lado de fora, descascando macaxeira recém-colhida
A casa do Damián
Damián
Antes de ir embora, fomos (de barco, porque pela estrada teríamos que passar por uma poça com água podre, em que provavelmente morreram animais) ver a casa do Damián. Devagarzinho a casa vai tomando forma.
Jairo e Luis


segunda-feira, 6 de abril de 2015

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O que dizem da energia limpa e quem fica com o "menor impacto"



 
Texto meu publicado no Amazônia Real:

Em dois documentários feitos sob a perspectiva dos atingidos pela indústria eólica – um realizado pelo CPT (Comissão Pastoral da Terra) Bahia, Energia Eólica: a caçada pelos ventos! (2013) e outro, Vento Forte, realizado pelo CPP (Conselho Pastoral dos Pescadores) e lançado esse ano – acompanhamos os relatos dos danos ambientais e sociais causados pelas (várias) empresas de geração de energia eólica.

Para quem acompanhou as transformações causadas pelas usinas hidrelétricas, o esquema se repete: contratos abusivos, audiências públicas de fachada, devastação da flora e fauna, controle sobre a água (ao menos no período da construção), desapropriação e remoção de comunidades tradicionais.

Assim como no caso das hidrelétricas no Madeira se propalava que usinas a fio d’água eram sinônimo de energia limpa, o senso comum diz que as usinas eólicas também geram energia limpa. A fonte é renovável, não é? Falar de “impacto” é pouco, porque o dano não pode mais ser mitigado. Trata-se de transformações em que o desgaste provocado é irreversível. A remoção de pessoas é uma constante. A disputa por territórios é perpetuada. Grandes obras de infraestrutura implicam em remoções forçadas de comunidades inteiras, sejam obras para a Copa, as Olimpíadas, ou para geração de energia. Para onde vai essa energia toda?

A energia produzida ali não se destina ao entorno. Assim como Santo Antônio e Jirau tiveram sérios problemas em relação às linhas de transmissão, as usinas eólicas estão criando elefantes brancos mal planejados. Aqui se aplica bem a frase perolar proferida por um colega: “Primeiro atiram a flecha, depois correm com o alvo, pra tentar fazer a flecha acertar o alvo.”

Com tais “regras do jogo”, não há nenhuma fonte limpa. 31 novas usinas solares foram contratadas pelo Governo em leilão realizado no ano passado. A novíssima fonte se reúne à matriz energética nacional repisando os trilhos da concentração econômica, licenciamento e instalação compulsórias nos locais mais propícios à maximização da geração, o que significa novas levas de remoções sumárias e efeitos ambientais “imprevistos”.

Não estamos fazendo opção por fontes com “menor impacto”. Todas as fontes estão sendo inventariadas para serem utilizadas extensivamente, como demonstra o projeto de expansão do parque nuclear brasileiro no vale do rio São Francisco, ou as dezenas de novas hidrelétricas na Amazônia, projetadas para serem instaladas até 2018. A escolha já foi feita em nome dos conglomerados eletrointensivos que ficam muito contentes em poderem ostentar selos de “sustentabilidade”.  Os documentários anunciam uma nova geração de moinhos de gente, que mesmo assim se apresentam como negócios limpos.

No modelo que temos hoje, a indústria eletrointensiva é a maior consumidora de energia, e sua demanda é infinita: nunca se produziu tanta energia no Brasil e nunca se pagou tão caro por ela. Tem alguma coisa errada nessa conta. Será que, com nosso poder de organização e planejamento, não somos capazes de repensar esse modelo predatório de geração de energia?

foto lou
Lou-Ann Kleppa, que está publicando artigo neste site como colunista convidada, é professora da Universidade Federal de Rondônia (Unir), graduada em Letras pela Universidade de São Paulo, tem mestrado e doutorado em Lingüística pela Universidade Estadual de Campinas (SP), e doutorado sanduíche em Neurolingüística pela Radboud University Nijmegen. Foi diretora do documentário “Entre a cheia e o vazio”. 

segunda-feira, 30 de março de 2015

Bicicleta anfíbia

Esse é Argus Caruso, inventando um novo projeto.

terça-feira, 17 de março de 2015

Meu estômago

Não sei quando tudo começou, mas os sintomas começaram por volta de um mês atrás. Sentia a garganta "entalada", como se não tivesse terminado de engolir algo pequeno, como um grão de arroz. Ocasionalmente tinha dor de estômago e raramente tossia. Logo que os sintomas se manifestaram, Luis achava que fosse gravidez; eu achei que fosse verme. "Tem alguma coisa aí dentro: pode ser bichinho ou pode ser bicho".

Fiz teste de gravidez (deu negativo) e tomamos albendazol (dessa vez a cada 3 dias, por 3 vezes, quando eu estava acostumada a tomar ao longo de 5 dias). Os sintomas continuaram. Marquei clínico geral que lembrou que eu tinha tido uma esofagite (por causa de verme) em 2011. Pediu as mesmas coisas que então: exame de sangue, urina e fezes e endoscopia.

No dia da endoscopia acordei com dor de cabeça. O céu estava pesado e cinza. Fomos no laboratório/consultório e logo se instalou a dúvida se eu tinha carência pelo meu plano de saúde. Eu tinha migrado da Unimed para o Geap, mas a carteirinha, enviada para um endereço diferente do meu, não chegou, então eu não sabia quais eram os meus prazos de carência. A secretária ligou no Geap e confirmou que estava tudo ok, que eu podia fazer esse tipo de procedimento. Pedi pra ir no banheiro e vomitei. Duas vezes. Avisei o médico que eu não estava bem, ele respondeu que "tudo bem".

Fui sedada e não lembro de nada depois que a assistente fechou os meus olhos um um tapa-olho branco aveludado. Mas tive, sim, a sensação de um ruído gutural que saía de dentro de mim. Luis, que estava na sala ao lado, ouvia o meu refluxo e o médico ordenando que eu encolhesse a língua por favor. Pediu que interrompessem o procedimento, mas foi comandado para fora da sala. Depois a assistente disse que haviam encontrado algo no meu estômago que justificava a manutenção da endoscopia.
1- Esofagite enantematosa leve distal, hérnia hiatal por deslizamento I,
2- pangastrite enantematosa leve erosiva,
3- duodenite enantematosa,
    úlcera bulbar ativa com hemorragia intramural e
4- pesquisa de H. Pylori pelo método da urease
    (x) positivo ( ) negativo.
Essa foi a bomba que eu recebi no dia seguinte. No dia da endoscopia, Luis disse que me sedaram uma segunda vez por causa do refluxo, o que explica por que dormi o dia todo.

Na fila para o clínico geral que havia me atendido de início havia 21 pessoas na minha frente. Fui no Pronto Atendimento. Este clínico geral desenhou o meu estômago, explicou o que estava acontecendo lá dentro, aconselhou que eu procurasse um especialista e receitou um antibiótico para matar a bactéria e depois remédios (enfatizando e repetindo que são caros) para recuperar o aparelho digestivo do efeito dos antibióticos e do estrago que a bactéria tinha promovido. O tratamento contra a bactéria duraria uma semana e o tratamento a favor do meu estômago duraria 3 meses. Disse que o tratamento era difícil e muitas pessoas têm dificuldade para mantê-lo.

Quis ligar para a minha mãe, mas ela não estava nem no Skype, nem no telefone. Liguei pro meu irmão. Ele só teve tempo de reconhecer a minha voz falando o nome dele, depois me ouviu chorando. Foi a primeira vez que eu disse para alguém (diferente do Luis, que acompanhou tudo de perto) o que eu tinha. Ter uma úlcera me pareceu menos doloroso do que dizer que tenho uma úlcera e que ela está sangrando.

O irmão do Luis, que é médico, me ligou de noite e disse mais ou menos a mesma coisa que o clínico geral do Pronto Atendimento tinha dito, mas me assustou: a correção da hérnia, que significa que o estômago está fora do lugar e que o diafragma está alargado, portanto o conteúdo do meu estômago facilmente migra para o esôfago assim que eu me inclinar, se não acontecer espontameamente depois do tratamento, só mesmo por via cirúrgica - e que dá pra marcar a cirurgia com 2 meses de antecedência. Sugeriu que eu tomasse mais dois medicamentos para amenizar os efeitos do antibiótico.

O problema é que bromoprida dá muito sono e eu passei o primeiro dia de tratamento dormindo. O segundo dia passei deprimida, no terceiro dia a minha mãe me disse o que o médico dela havia dito sobre o meu caso: na Alemanha, o tratamento seria o mesmo e H. Pylori é uma bactéria bastante comum.

Liguei nos gastroenterologistas de Porto Velho. A secretária daquele que fez a endoscopia não atendia, outro tinha agenda só pra abril, em outro a secretária ficou argumentando comigo que o sangramento podia ter sido causado pela própria endoscopia e que o médico que fez a endoscopia é que devia me acompanhar e que a consulta custa R$ 300 porque o médico não é credenciado no Geap. Por indicação de outra secretária achei um que não constava no meu guia Geap, mas que atendia pelo convênio. Tinha um encaixe pra mim.

Voltei de lá hoje: bastante aliviada. O tratamento é de 21 dias, a bactéria não tem possibilidade de passar (ou ter passado) pro Luis (se bem que a essa hora, já deve estar mortinha), provavelmente foi transmitida através de alimentos (mosca, água), continuo não podendo me inclinar pra frente ou para trás, mas isso tem a ver com estômago cheio e o estômago provavelmente voltará ao normal depois do tratamento - mas isso quem vai dizer é uma outra endoscopia.

Agora tenho uma endoscopia marcada pra daqui a um mês e uma lista de alimentos que devo e não devo ingerir. E mesmo que o tratamento não tenha acabado, tenho a sensação de que o pior já passou.

segunda-feira, 16 de março de 2015

sexta-feira, 6 de março de 2015

Wishful thinking

Clique para ver maior
Como parece que teremos cheia histórica do Madeira todo ano, ando acompanhando os boletins diários da ANA - e as notícias sobre a cheia do rio Acre. Ontem fui surpreendida com a anotação de uma brusca queda de nível do rio Madeira no boletim diário publicado na Agência Nacional de Águas. Em dois dias, o rio Madeira teria baixado 5m em Porto Velho (de 17,02m no dia 3 passou a 14,51m no dia 4, depois a impressionantes 12,25m ontem). Conferi a cota e vazão em Abunã (a montante) e Humaitá (a jusante) e nas duas usinas e não via para onde essa água toda tinha migrado. Eu tinha certeza que se tratava de um erro, mas não podia acreditar que tivessem errado e publicado o erro.
Se clicar, aumenta
Hoje corrigiram o erro. No dia 4 a cota tinha baixado mesmo, mas não 2,51m: baixou 24cm e o registro foi alterado para 16,78m. Ontem não baixou adicionais 2,26m, mas subiu 8cm, registrando 16,86m. E a cota pra hoje é de 16,92m.

domingo, 1 de março de 2015

Doutorado defendido

Durante a defesa
No dia 27 de fevereiro de 2015, Luis realizou um sonho acalentado por muitos anos e alimentado e inspirado por muitas pessoas. Defendeu sua tese sobre processo decisório no BNDES (coisa que ninguém fez até agora) diante de uma banca exigente e amiga. Carlos Vainer como orientador, o resto da banca: Henri Acselrad, Célio Bermann, Virgínia Fontes, Carlos Brandão.
Depois da defesa, leitura da ata: aprovado.
A defesa se estendeu até de tarde (foi a mais longa que eu já presenciei) e todos os membros da banca foram muito pertinentes e contribuíram para que Luis tenha uma outra visão do próprio texto (que deve ser aprimorado para que seja publicado). Estou muito orgulhosa do Luis!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Rambutã

Rambutã
Eu tinha lido no jornal que a safra de rambutã em Ponta do Abunã tinha sido boa, que a fruta viceja mais aqui do que na Ásia (de onde é originária) e que se parecia com lichia. O Kg tava R$ 11,00, então trouxe pra casa essas frutas peludinhas.
Tipo lichia, a melhor fruta do mundo
A consistência - tanto da casca como do gomo - é mais firme que lichia: usei a faca para abrir. Lichia eu descasco na unha.
Mais firme que lichia
Gostei da novidade e do fato de ser daqui de perto. Tem um tanto de coisa que a gente compra no supermercado que chega aqui cansado da viagem longa...
Caroço parece amêndoa

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Água e energia

Na semana passada, fim de janeiro de 2015, foram sorteadas 114 casas para os afetados pela cheia de 2014. Famílias ribeirinhas foram remanejadas para a zona leste da capital - que fica, geograficamente falando, o mais longe possível do rio Madeira (que margeia a parte oeste de Porto Velho). A zona leste é a menos prestigiada e mais abandonada pelo poder público da cidade: mais uma prova de que os ribeirinhos atingidos pela cheia são tratados como marginais. Detalhe: uma das beneficiadas deu entrevista para o Diário da Amazônia, reclamando que estava esperando essa casa que saiu agora desde 2008, pelo Minha Casa, Minha Vida. Entendo que não apenas os afetados pela enchente de 2014 tiveram direito a essas casas, mas também os que estavam na fila.

Uma das consequências da cheia de 2014 nas terras do Jairo é que um igarapé que ficava a meio caminho - a pé, diga-se de passagem - da castanheira, se transformou num grande brejo. Damian diz que tem pirarucu e peixe elétrico nessa água parada. Agora, para coletar castanha, só se atravessa o brejo de barco.
Mãe do Jairo admirada com o volume de água, irmã do Jairo "banhando"
Mesmo que o rio não esteja marcando níveis demasiado elevados, o lençol freático está bastante elevado. Narcísio conta que onde mora tem água de poço e que no verão (junho a agosto, quando não chove no Norte) o poço costumava secar. Em 2014 não secou. Muita água à flor da terra.

Em 25 de janeiro do ano passado, a manchete do Diário da Amazônia anunciava o nível de 15m do rio Madeira. Um ano depois, no dia 25 de janeiro de 2015, a cota registrada no Madeira foi de 15,21m. A ANA (Agência Nacional de Águas) apresenta boletins diários de medições. Durante a cheia do ano passado, emitia também boletins mensais, em que todos os pontos medidos dia a dia eram colocados num gráfico, de modo que podíamos acompanhar a evolução da cheia. Durante o pico da cheia, sabíamos mais sobre as medições que fora desse período: a CPRM, por exemplo, publicou boletins diários em março e abril do ano passado, mas apenas um em janeiro e apenas um em fevereiro - quando a cheia estava em formação. Ou seja, era impossível acompanhar a formação da cheia por esse canal.

A história se repete. No site da ANA não há boletins mensais desde setembro de 2014. Os boletins diários mostram pouca coisa em termos de histórico, mas revelam dados escandalosos. Nos boletins da CPRM, religiosamente era repetido que a cota máxima permitida para a Usina de Santo Antônio era de 70,50m. Curiosamente a Usina de Jirau não é mencionada nas medições da CPRM, no entanto sabemos que a cota em Jirau é variável - dentro de um limite entre 82,50m e 90m. No boletim diário da ANA de 26 de janeiro deste ano não há dados de medição na Usina de Santo Antônio para 26/01/15, mas apenas do dia anterior: 70,51m. Ultrapassou 1cm da cota regulamentar.
A Usina de Santo Antônio já foi multada pelo IBAMA por ter ultrapassado 4cm da cota permitida. No boletim de 30/01/2015 aparece a medição de 26/01/2015: 70,61cm. Isso são 11cm acima da cota regulamentar. A Usina de Jirau, que em 01/12/2014 operava com a cota de 85,14m, chegou a ultrapassar a sua cota máxima permitida em 22/01/2015 (90,03m), em 23/01/2015 (90,04m), em 26/01/2015 (90,02m) e em 28/01/2015 (90,01m). Não guardei os boletins de todos os dias, portanto alguma outra ultrapassagem de cota regulamentar pode ter me escapado.

Os reservatórios das usinas hidrelétricas não estão vazios em Rondônia. No entanto, sob a alegação de que os reservatórios das usinas hidrelétricas estão pouco cheios no Brasil e que será preciso recorrer às termelétricas que geram energia mais cara, todos os usuários de energia elétrica do Brasil - exceto no Amazonas, Amapá e Roraima - são obrigados, desde janeiro de 2015, a pagar R$ 3,00 a cada 100 kWh consumidos. Ou seja, o custo é repassado para o consumidor.

Fico me perguntando quanto as duas usinas daqui representam para o suprimento energético nacional.  Porque a energia que sai de Porto Velho viaja pelo linhão até Araraquara (SP) para alimentar um anel que redistribui a energia para o Brasil todo. Jirau encerrou 2014 com 22 turbinas das maiores turbinas no Brasil funcionando, Santo Antônio está operando com 32 - também de 70mwh cada.

Os telejornais nacionais (Bom Dia Brasil e Jornal Nacional) mencionam a chuva no Norte e lamentam extensamente a ausência de chuvas no sudeste. A pauta da seca e da crise de abastecimento de São Paulo é tratada como se afetasse o Brasil todo. Em nenhum momento os jornais de alcance nacional fazem o contraponto do Norte com o Sudeste. Abundam dicas de economia de água, reportagens sobre restaurantes que se acham mega ecológicos ao substituir sua louça de porcelana e vidro por plástico (evitando de pensar que descartar tanto plástico sujo não é nada inteligente) e denúncias de desperdício de água. E aqui, em Porto Velho, onde já foi declarado estado de atenção devido aos 15,48m do nível do rio e até as usinas desrespeitaram suas cotas máximas permitidas mais de uma vez, o desperdício de água entrou na pauta. Segundo o Diário da Amazônia, o desperdício da água tratada em Rondônia chega a 52,8% - grande parte por causa de vazamentos na tubulação.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Suspeitos são terroristas e terroristas não têm direito à defesa

Eram dois irmãos os suspeitos de terem explodido duas bombas na maratona 2013 de Boston: um morreu logo em confronto com a polícia, o outro foi condenado à pena de morte ou prisão perpétua - essa é a margem de barganha do sujeito que se declara inocente. As provas que conduziriam o juiz a concluir que o suspeito é mesmo culpado são um bilhete e a história pregressa (informada pela Inteligência Americana) do rapaz. As afirmações de parentes de que ele merece morrer não são prova de que ele é terrorista e fez uma bomba explodir.

Eram três os suspeitos de terem matado 12 pessoas no jornal francês. Dois irmãos e um cunhado. O cunhado "se rendeu", segundo a mídia. Não sabemos se está preso, se é inocente, se houve investigação. Houve caçada aos dois irmãos que hoje foram mortos pela polícia francesa. Os mortos não podem provar sua inocência.

Suspeitos de terrorismo desencadearam, por um lado, ataques ao mundo islâmico que beiram o fanatismo e por outro lado, união e solidariedade espontânea e efusiva (porque politicamente correta) aos que foram vitimados (houve 3 mortos e muitos feridos em Boston, em Paris morreram 12 pessoas - ou vitimados psicologicamente, porque o estado de alerta e clima de insegurança foram ativados).

A quem servem esses atos de terrorismo? O que Al Qaeda ou o Estado Islâmico ganham com esses atos de terrorismo não reivindicados por eles, mas retraçados a eles pela Inteligência Americana? Por que o sequestro de hoje (há informações de que os sequestradores teriam sido mortos pela polícia concomitantemente com os irmãos - supostos terroristas) aconteceu em um mercado judeu? A disputa entre judeus e islâmicos foi transplantada da Palestina para a França?

Poucos dias antes do ataque a Charlie Hebdo, a islamofobia reuniu milhares em praças públicas na Alemanha, como se fosse normal e justo considerar o diferente como inferior. No mesmo dia do ataque ao jornal parisiense, uma mesquita foi explodida em Paris - mas isso não é terrorismo. A TV brasileira passou em tempo real a caçada a dois suspeitos, reafirmando continuamente a escassez de informações.

Suspeito que os atos de terrorismo não servem a terroristas externos, mas para aumentar coesão e controle internos do local que sofreu o ataque.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Floripops

Jairo e Siomara
Numa breve passagem por Porto Alegre, logo depois de Gramado, vimos Jairo e Siomara no Parque da Redenção. Ali combinamos de visitá-los em Canasvieiras, Floripa.
Luis e Lou
De Curitiba, então, partimos para Floripa com escala em Joinville.

Logo cedo de manhã Jairo vai pra praia e ajuda a arrastar a rede que traz muitos siris, peixes e águas-vivas. Essa é a garantia do almoço saudável para a família. E de manhã é possível caminhar/correr na praia. De tarde a maré sobe, encurtando a faixa de areia lotada de turistas queimados de sol.
Siri do arrasto da manhã
Percebo agora que tirei bem poucas fotos da nossa vivência com a família de Jairo, Siomara, Jarina, Uirá, Sirius Black (o cachorro) e Perebas (o hamster. Gostei do hamster!).
Peixe (Paraty) do arrasto da manhã
Não tratei o peixe, nem vi os siris morrendo na água quente. Simplesmente sentei na mesa e comi peixe fresco, pescado no dia, muito bom. Quando Luis e eu coletamos caracoles nas pedras da prainha (entre Canasvieiras e Jurerê), ajudei a preparar os caramujos - e comi quase tudo depois, porque o pessoal achou esquisito demais comer caracoles.
 
Siri na mesa
Na mesa
Teve um dia que acabou a água da torneira. Todos lembraram do verão em que Florianópolis estava lotada de turistas e houve interrupção do abastecimento de água e os turistas foram embora decepcionados/frustrados/com raiva. Por sorte, não tinha acabado água na cidade, mas alguém tinha fechado o registro da rua, interrompendo o abastecimento da casa. O curioso é que, dormindo de tarde, depois do almoço farto, eu sonhei que o problema e a solução era o registro...
Uirá
Lemos nos jornais que no primeiro fim-de-semana de janeiro, depois da virada do ano, o perfil do turista mudaria. Nossa esperança era que os turistas fossem embora, mas o jornal parece ter tido razão: saem os foliões e chegam as famílias. Quando fomos na Lagoinha, Luis e eu nem animamos de caminhar até a outra ponta da praia, passando por todos os guarda-sóis, desviando de todas as crianças, bolas de futebol e frescobol. Reparamos que os vendedores ambulantes tinham se adaptado aos turistas argentinos: anunciavam "milho" e "choclos", "choripãn" e os espetinhos eram "xixo".

No último dia na praia, decidimos nos despedir direito da praia. Caminhamos/corremos até a ponta de Canasvieiras, onde as ondas não chegam na areia, mas na vegetação do mangue que se estica em direção ao mar. Quando a água bateu no umbigo e começamos a ver peixes maiores beirando o mangue, resolvemos voltar. Toda a água daquela ponta até o pier (2km?) estava marrom escura, cheia de matéria orgânica. O vento mudou a paisagem de um dia pro outro. Assim é o mar: sempre o mesmo, mas sempre diferente. De noite, Jairo ainda nos chamou pra ver um peixe desse tamanho assim, ó, que tinha chegado na praia. Era grande mesmo, com a boca bem deformada. Sempre o mesmo, mas sempre diferente.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Desumanização

Perguntei pro Luis o que ele faria se fosse morador de rua. Ele disse que tentaria organizar os moradores de rua, criar um movimento social. Me dei conta de que os homens de rua que vejo são indivíduos isolados (uns dos outros e da sociedade).

Num artigo que li sobre a relação de drogas com sociabilidade, o isolamento aparece como um dos grandes responsáveis por nossas obsessões. Somos muito frágeis, quando isolados dos outros.

E quando nos juntamos em sociedade (maior e mais heterogêneo que comunidade), tendemos a isolar membros da sociedade. Criamos distância dos mendigos, dos trabalhadores de frigorífico, dos dirigentes. Pelo que entendi do Philosophy Talk intitulado Humanity Violated, um motivo que nos leva a desumanizar o outro (que é do nosso mesmo tipo, espécie, condição = humano) é poder. Para ter poder sobre o outro, distanciamo-nos dele, usamos metáforas para inferiorizá-lo.

O que os homens de rua e as classes trabalhadoras não têm é poder aquisitivo. E qual é o contraponto? Caixas enormes, com ar condicionado, musiquinha e segurança em que as pessoas humanas são encorajadas a mostrar seu poder aquisitivo.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Curitiba

Pensamos numa cidade localizada entre Porto Alegre e São Paulo que não seja alvo de turistas nesse fim de ano. Chegamos a Curitiba. Os preços de hotel pareciam razoáveis, conseguimos passagens de avião e fomos. Luis precisa de silêncio e calma para escrever, afinal, o homem tem uma tese para entregar.

Assim que chegamos, notamos que a cama era desastrosamente disforme. Passamos o primeiro dia em Curitiba vendo, paralelamente, outros hotéis e como conseguir uma cama dura neste hotel. Na manhã seguinte o colchão foi trocado por um novo (tirado do plástico). Fomos ao Mercado Municipal e voltamos carregados de frutas frescas, secas e nozes.

Notamos que grande parte do comércio da cidade está fechado por causa do fim de ano e aprendemos (com sorte) que é preciso ligar antes de ir ao restaurante, para saber se está aberto. Caminhamos uns 4km até chegar a um restaurante japonês - ainda bem que estava aberto e que a comida era boa e o preço justo. Os outros restaurantes no caminho estavam fechados.

Estamos hospedados bem perto do Passeio Público, que começou como zoológico e ainda mantém algumas aves em jaulas. Talvez a população de homens de rua no centro de São Paulo seja tão grande (guardadas as devidas proporções) quanto aqui. Mesmo assim, o número de homens de rua sentados em bancos de praça com olhar vazio, dormindo em cantos ou na grama mesmo, conversando com alguém que a gente não vê, mancando apressadamente ou protegendo suas feridas é grande. Concentram-se no Passeio Público e praças do centro. No Parque Tanguá, nas beiras da cidade, havia três, um em cada banco, na parte de cima, onde turistas se aglomeram em poses soberbas para selfies na fonte.

Numa de nossas caminhadas, vimos um shopping cuja fachada era tomada por propagandas da Louis Vuitton e Prada. Entramos, para ver como é um shopping ostentação. Logo na entrada, dois guardas, um homem e uma mulher, posicionados a 20 passos um do outro, encaram as pessoas que entram no recinto. Não dão as boas-vindas, intimidam com o olhar quem não pode gastar ali. A sensação de andar por corredores largos e pátios externos ouvindo musiquinhas soft e sendo sempre vigiado é como estar numa bolha, em que a segurança e o conforto são mantidos com muito custo.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Gramado

Oma e Luis
Todo Natal em Gramado é diferente. Dessa vez, a novidade foi o Luis. Estivemos em Gramado em dezembro de 2013, mas foi para o nosso casamento. O Natal nós passamos em Cachoeiro de Itapemirim, com o pai do Luis.
Ruth e Gerhard
Gerhard recuperou as forças para o Natal, conforme ele tinha se proposto. Tinha tido um anúncio de infarte, emagreceu muito e deixou todo mundo preocupado.
Gabriela e Keki
Gabriela está grande, descobriu que o problema não era leite e parece uma mini-adulta conversando na mesa.
Lou&Luis
Fomos visitar Harro, meu pai biológico. Luis e Harro se entendem muito bem e sou grata ao Luis por facilitar esses encontros que não são fáceis pra mim.
Harro Kleppa

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

No sítio

Daniela, Gu, Du, Tia Sonia, Luis, Tio Rodrigo, Darinha (escondida) e Soninha
Luis e eu fomos visitar a família mineira (a parte da mãe do Luis) e passamos o fim de semana no sítio, a uma hora de Belo Horizonte. Casa cheia, mesa farta e muita conversa.
Casa de periquitos
Tio Rodrigo é criador de passarinhos. Vimos pintagóis de variadas cores, canários, pintassilgos e periquitos. Quando chegávamos perto, um silêncio inusitado de poucos segundos interrompia a conversação constante dos passarinhos.
Urucum
Numa manhã, saímos para caminhar e só voltamos pro almoço. No dia seguinte, senti a musculatura reclamando. Muito bom caminhar em estradas de chão, lembrei da Estrada Real.
Genial

Eu
E antes de partir, um pequeno convite à recordação da infância: cigarras.
Casca de cigarra

domingo, 21 de dezembro de 2014

Santa Teresa

Luis tinha uma reunião marcada no BNDES, o prédio preto atrás do cone iluminado (que é uma catedral). Fomos os dois para Santa Teresa, de onde se vê a cidade do Rio de Janeiro. A vista é linda, mas os preços lá em cima infelizmente são para turistas. Aliás, percebemos que muitos estrangeiros moram em Santa Teresa. E outra: os taxistas não gostam de subir o morro.

Gostei muito de ver o bonde (nos adesivos nos carros, nos bottons, nas camisetas) amarrando a identidade de Santa Teresa. Se o bonde funcionasse, não haveria necessidade de tantos ônibus com motoristas raivosos e velozes, não haveria tantos carros estacionados ao longo das ruas estreitas e não haveria tantos acidentes.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Desbarrancados

Esposa do Zezinho e a rachadura no chão
Luis e eu fomos até a casa do Zezinho, no Belmont, para pedir ajuda para transportar a placa grande, e nos deparamos com uma estrada péssima de um lado e o desbarrancamento da margem do rio de outro lado. A Estrada do Belmont, principal acesso ao porto - Porto Velho é uma cidade portuária - está toda esburacada. A casa do Zezinho fica entre a estrada e o rio que está engolindo diariamente a margem direita do baixo Madeira.
Desbarrancamento

Zezinho diz que o desbarrancamento acelerado e concentrado nesse tempo e espaço se deve à atividade dos garimpeiros que dragam o leito do rio. Ao retirarem terra do meio, fragilizam as margens.
Fofoca: conjunto de dragas
Acreditamos que a atividade garimpeira tenha influência no desbarrancamento da margem, mas não acreditamos que as fofocas sejam as únicas responsáveis por isso, já que sabemos que desde 2012 a erosão a jusante de santo Antônio é devastadora. O Bairro Triângulo está sendo destruído desde então pela força das águas que saem da usina.