segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Ciência e divulgação

Quando estive na Holanda, em Nijmegen, fui estudar Teoria da Adaptação com Herman Kolk, autor da teoria. Toda a teoria baseia-se na assunção de que a fala afásica não é resultado direto da lesão cerebral, mas de uma adaptação que o sujeito afásico faz à sua lesão. Essa adaptação, no caso de pessoas com fala agramática, seria temporal: o sujeito percebe que, devido às pressões da situação do diálogo, não tem tempo para encontrar e combinar as palavras, então fala "telegraficamente".

Cheguei em Nijmegen com dados de MS e OJ, sujeitos brasileiros que falam português. Kolk não entende português, mas compartilhamos as categorias de palavras. A solução encontrada pelo meu orientador foi transformar os dados em números. Pediu que eu contasse omissões, substituições e acertos de preposições. Fiquei intrigada: se a teoria toda foca não na lesão, mas na adaptação, se o analista estuda o que é de fato falado, não o que "foi perdido por causa da lesão", posso ainda falar em omissões e substituições? Comentei com Jonas (estudante) que estava diante de uma incoerência teórica. Jonas respondeu, mais ou menos, uma citação que encontrei ontem na Autobiografia científica de Max Planck:

"Uma nova verdade científica nunca triunfa porque se consegue convencer os adversários, mostrando-lhes argumentos. Novas verdades científicas só são possíveis quando os teóricos adversários morrem e surge uma nova geração para a qual a novidade faz sentido." (adaptado p. 30)

Brinquei dizendo que não adiantava esperar o teórico morrer, porque ele tinha discípulos. Já de volta ao Brasil, e com um senso de necessidade de justificar a minha bolsa na Holanda, escrevi um artigo fruto do meu trabalho na Radboud Universiteit. Kolk assinava comigo um texto em que eu não contabilizava omissões nem substituições, mas analisava o que tinha sido dito; e mandei o texto pra Aphasiology. Voltou com pedido de correções. Corrigi, mandei pro orientador ver as mudanças. O orientador estava de mudança para os Estados Unidos, não teria tempo para ver o texto e pediu para que eu retirasse o seu nome do artigo. Tirei o nome dele e mandei pro periódico. Responderam que não publicariam o texto.

Mandei pro Journal of Neurolinguistics e obtive resposta no dia seguinte: seu texto foi rejeitado sem ter sido encaminhado a pareceristas porque não se encaixa no perfil da revista. Me pergunto se o texto teria sido ao menos avaliado se o nome do Kolk constasse duas linhas abaixo do título.

Essa foi a primeira barreira na minha vida de pesquisadora. E foi a primeira vez em que eu me coloquei no papel de contestadora de uma "verdade". Entendi que não era exatamente o conteúdo do meu trabalho que estava sendo cogitado para publicação, mas o sobrenome de quem assina o trabalho. A lista de revistas que rejeitaram meus textos é grande, e isso talvez tenha a ver com o fato de que eu não construí uma carreira com um único tema. Das preposições migrei para o agramatismo, dali para as marcas de oralidade nos textos dos meus alunos, dali para os sinais de pontuação.

Em todos esses anos, recebi pouquíssimas críticas. Aconteceu de eu apresentar um trabalho no GEL para a monitora da sala, porque não havia mais ninguém na sala. Tenho a impressão de que as críticas ao meu trabalho não vêm dos pesquisadores que leem o meu trabalho publicado, mas das pessoas que decidem se ele será publicado ou não. E mesmo esses pareceristas têm, na minha experiência, rejeitado ou publicado, sem se debruçar sobre o tema.

A ciência é feita por pessoas. A divulgação da ciência é feita por pessoas. Se a ciência pretende produzir conhecimento, os divulgadores da ciência deveriam explicar por que rejeitaram determinados trabalhos, porque esse conhecimento sobre as fragilidades do trabalho ajudam o pesquisador a repensar o seu trabalho.

Recentemente me inscrevi para o congresso da ABRALIN com um trabalho sobre o sistema de sinais de pontuação. Havia milhares de simpósios em que eu poderia submeter um resumo do meu trabalho. Escolhi um e mandei o resumo - depois de pagar a anuidade da Abralin. Não recebi a carta de aceite no prazo estabelecido pela organização, então escrevi para as coordenadoras do simpósio e para a Abralin. Demorou, e quando veio a resposta, foi indireta: acesse sua área restrita no site do congresso. Acessei. Não havia parecer, não havia justificativa. Estava escrito reprovado. Pensei: ok, as coordenadoras do simpósio não me conhecem. E como quase não há estudos sobre os sinais de pontuação, nem devem imaginar como se estuda isso de maneira diferente do que existe nas gramáticas. Continuei pensando: errei de simpósio. Talvez, se eu tivesse inscrito o trabalho em outro simpósio, teria o trabalho aceito. Impossível inscrever-se em outro simpósio apesar das inscrições ainda estarem abertas. Perguntei na organização do evento e confirmaram: impossível.

Cynthia me contou que uma vez participou de um congresso da ABRALIC. Pagou anuidade e inscrição, foi, apresentou e voltou. Dois congressos da Abralic depois, resolveu submeter trabalho lá de novo. Só aceitariam proposta de trabalho se ela pagasse as anuidades dos anos em que não participou do evento mais aquela anuidade atual. O congressos por acaso são clubes?

Ontem Marcelo Gleiser, maior divulgador de ciência escrevendo em jornal no Brasil, se despediu de sua coluna dominical na Folha. Foi expulso do clube? Recebo e-mails de periódicos oferecendo publicação em troca de dinheiro. Me convidam para entrar no clube? A Capes incentiva os seus bolsistas a publicarem, divulgarem seus trabalhos, mas não repassa a segunda metade do orçamento anual (para o PIBID, do qual sou coordenadora institucional), de modo que os bolsistas ficam sem passagens e sem diárias. O clube fechou?

domingo, 23 de novembro de 2014

Ecológico

Estou dando um curso de Introdução à Linguística do tipo que passamos por algumas disciplinas da Linguística (Fonética, Fonologia, Morfologia, Semântica, Sintaxe e Pragmática). Quando fui corrigir o exercício de Semântica em que eu pedia que fornecessem exemplos (sem a definição, sem sinônimos) para algumas palavras, fui surpreendida com as respostas dadas no item ecológico.

Apareceram respostas que eu agruparia em três conjuntos: 1) ecológico é lá fora e lá longe, 2) ecológico é um produto que se compra/descarta, 3) ecológico é uma ação que não degrada o meio ambiente. Exemplos:

1) ambiente ecológico, parque ecológico, jardim ecológico, espaço ecológico, passeio ecológico;
2) carro ecológico, produto ecológico, lixo ecológico, rack ecológico, sofá ecológico, blusa ecológica, papel higiênico ecológico, sacola ecológica;
3) andar de bicicleta é ecológico.

Perguntei quantos na sala andam de bicicleta para a escola/trabalho, como constava nas respostas do exercício. Ninguém. 

Desde que nos ajuntamos em cidades, entendemos que a Natureza fica fora da cidade. Se tudo que está dentro da cidade não é natural nem selvagem, nossos animais de estimação se transformam em filhos. Para ter contato com a Natureza, é preciso sair da selva de pedra, por isso o meio ambiente, a Natureza ficam longe de nós e se transformam em programas de fim-de-semana.

Desde que entraram na moda, "sustentável" e "ecológico" são adjetivos que promovem produtos que, para serem produzidos, poluíram/degradaram muito. Não existe carro ecológico por definição - não só por causa do consumo de combustível (cuja obtenção não se dá sem impactos), - mas também por causa de sua produção: no processo de produção do carro, muitos excessos que não se decompõem na Natureza são gerados. Não existe lixo ecológico por definição - porque se o resíduo voltar a ser incorporado pelo ecossistema, não se trata de lixo, mas de adubo.

Se eu tivesse pedido, no exercício, que  fornecessem exemplos com a palavra "sustentável", é possível que tenha aparecido coisa pior. Desde que entraram na moda, essas duas palavrinhas acompanham qualquer nome de produto ou empresa, vide Energia Sustentável do Brasil (ESBR), o consórcio da UHE Jirau. Lembra da "Revolta de Jirau" em 2011? Lembra das famílias ribeirinhas que moravam em Mutum-Paraná que foram removidas pela Jirau para a company town da empresa, onde ficam alojados os trabalhadores da usina? Lembra da cheia histórica de 2014 que alagou parte da Bolívia? Energia Sustentável do Brasil.

Mas professora, disseram, se ecológico não é nem a natureza, nem as coisas que a gente compra, nem aquilo que a gente acha legal, mas não faz, então qual era a resposta certa?

Respondi que não havia resposta certa, mesmo porque o exercício pedia que escrevessem frases em que a palavra é exemplificada. O que eles responderam foi um reflexo do pensamento e uso da palavra nessa sociedade consumista em que estamos imersos, não uma reflexão sobre o significado de ecologia/ ecológico em si mesmo. Disse que eu esperava que eles fizessem a filosofia da palavra ecológico.

Ah, não! professora, nem me fale em Filosofia porque todo mundo dessa sala aqui reprovou em Filosofia.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A minha voz



Quando fizemos a pré-estreia do documentário Entre a cheia e o vazio na UNIR, Heloisa comentou que "ficou parecendo uma coisa TV Cultura, a narração". Confesso que sempre admirei a narração de Valéria Grillo no programa Planeta Terra (na TV Cultura) e fiquei surpresa com o fato de ela ter identificado "essa coisa TV Cultura" no documentário.

No dia da premiação no Fest Cine Amazônia, fui entrevistada por uma moça que elogiou a minha voz. Na aula de ontem, uma aluna (que ainda não viu o documentário) veio me dizer que um dia comentou com uma amiga de outra universidade que tinha uma professora (eu) com uma voz bonita e que a amiga tinha respondido: por acaso é uma professora que eu entrevistei no Fest Cine Amazônia?

Mandei o link do filme para vários amigos que eu não via há tempos; e aos poucos fui recebendo suas respostas. Junior, irmão tapioquense, disse que ficou com saudades ao ouvir minha voz. Telmo disse que ainda não tinha assistido o filme todo, mas tinha gostado da narração. Odir, um amigo que eu nunca vi ao vivo, logo perguntou se a narração era minha.

O filme rodou alguns sites, e no Diário do Centro do Mundo, o único comentário é praticamente uma reclamação da "voz irritante da narração". Achei curioso que a minha voz tenha virado objeto estético, quase se descolando do conteúdo que ela profere.

Queria que a minha voz servisse de guia, de fio condutor do filme, de alerta. Queria que a minha voz denunciasse que a seca em São Paulo e a cheia em Rondônia são ambas resultado de má gestão dos recursos hídricos e que os fenômenos climáticos são usados como escudo para fugir à responsabilidade pelos danos causados. 

domingo, 16 de novembro de 2014

Pequenas alegrias na sacada

Flor de tomate que foi polenizada manualmente

Tomatinho

Tomates ainda verdes

Folhagem

Flor da alfavaca

Acompanhando o crescimento da suculenta no ouriço de castanha

Suculenta que Liz nos deu em Castelo/ES

Sininhos ultrapassando os limites da sacada

sábado, 15 de novembro de 2014

Os comentários sobre Entre a cheia e o vazio

Foto: Walisson Rodrigues
Reparei que os meus amigos/parentes que não vivenciaram a cheia do Madeira de 2014 elogiaram o filme dizendo, assombrados, que no sul/sudeste/fora do Brasil se sabe muito pouco sobre Rondônia e os projetos hidrelétricos em rios amazônicos. Assombrados, porque percebem as dimensões do desastre apenas 9 meses depois que ele aconteceu, através desse documentário de 25 minutos.

Reparei que os não amigos, que criticam o documentário achando que somos ONG (não somos, nem mencionamos qualquer ONG justamente porque as ONGs todas silenciaram diante da catástrofe), que demos voz aos gringos (como se o sotaque do Philip Fearnside apagasse toda a sua trajetória de pesquisador do INPA), que a barragem foi submersa etc. e tal não sabem nada sobre Rondônia e os projetos hidrelétricos em rios amazônicos.

Para quem quiser voltar no tempo e acompanhar o processo de licenciamento das UHEs Jirau e Santo Antônio, recomendo O chamado do Madeira


terça-feira, 11 de novembro de 2014

Prêmio Mapinguari

O ator Cacá Carvalho (seu personagem mais famoso foi o Jamata), que interpretou muito bem o grito do Mapinguari durante o FestCineAmazônia, me entregou o Troféu Mapinguari
Agradecemos a todos que se envolveram nessa contestação técnico-social registrada no filme Entre a cheia e o vazio. Existe relação entre as usinas e a cheia histórica? Crendice? Estudos preliminares indicam que um novo desastre está por vir. As usinas lavarão as mãos novamente? Acreditamos na força do Mapinguari e de todos nós juntos para que isso não se repita. Gracias ao FestCineAmazônia que reconheceu esse esforço coletivo!
Prêmio Lídio Sohn de Melhor Produção Cultural Rondoniense no FestCineAmazônia (2014).

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Pré-estreia e debate de Entre a cheia e o vazio

Nosso filme foi selecionado para o FestCineAmazônia (que vai de 4 a 8 de novembro). Antes disso, convidamos para a pré-estreia na UNIR e debate após exibição.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Bacuri

Jairo precisava de uns documentos impressos. Fazia muito tempo que eu não pedalava. Imprimi os papeis que a Siomara mandou, botei numa pasta, botei a pasta no alforje e fui encher os pneus da Amarilda. Passei óleo na corrente e um pano no selim e manoplas. Vesti minha bermuda acolchoada, prometi pro marido que tomaria muito cuidado e parti para a comunidade Maravilha, na margem esquerda do rio Madeira.

Atravessei a ponte sobre o Madeira pedalando no (meio) acostamento e peguei a estrada de terra. Vi árvores caídas e me dei conta que ter escolhido a bicicleta como veículo tinha sido uma boa aposta. Um quase-tornado tinha varrido Porto Velho 2 dias atrás e agora eu via os estragos.

Na primeira grande poça tinha uma moto parada. O casal montado nela estudava a situação. Passei devagar por eles e atravessei a poça pedalando. Sujou as pernas. A segunda grande poça era contornável por um caminho lateral. Depois dessa, não cruzei com mais ninguém na estrada. A terceira poça era um lamaçal revolvido que preferi não encarar. Desmontei da bicicleta, empurrei pela "praia" à direita e voltei à estrada.

Jairo, que costuma pedalar esse caminho (a mãe dele mora perto aqui de casa) se espantou que eu tivesse me atirado nessa aventura. Pois a aventura ainda nem tinha começado...

Agradeceu pelos materiais impressos e explicou que a ata que eu tinha trazido precisava constar - manuscrita - no livro de atas. Disse que a caligrafia dele era tão feia que teriam levar a ata num médico, pra decifrar o que estava escrito. Me prontifiquei a copiar a ata para o caderno de atas. Se peguei malária, foi ali, concentrada na transcrição do texto.

Como agradecimento, Jairo me deu frutinhas. Que frutinha é essa? Bacuri. Mas bacuri não é menino? É. E hoje é dia das crianças.

Voltei correndo contra o tempo. Quando cheguei na ponte, escureceu. E começou a chover. Tive que desmontar da bicicleta e empurrá-la pela via dos pedestres, porque não há acostamento (nem meio acostamento) para quem volta para PVH. Toda a lama em mim ou na Amarilda foi lavada pela chuva. Liguei as luzinhas da bicicleta e me integrei ao trânsito. Na subida pela Costa e Silva até a Farquar, um mar de lixo dominava a avenida. Os motoristas, apreensivos, aceleravam, espalhando ondas de água com lixo para os lados. A cidade não tem sistema de drenagem.

Quando cheguei no cruzamento com a Jorge Teixeira, tinha parado de chover. Em casa, o asfalto estava seco. Abri a porta de casa e vi a apreensão do Luis. Estava preocupado por eu chegar no escuro e por não ter ligado. O celular estava no alforje (e não abri o alforje por causa da chuva). No banho, senti o corpo todo tenso.

O azedinho doce do bacuri alegrou a ciclista cansada e trouxe adjetivos positivos à boca do Luis.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O passarinho e a gaiola

Sábado passado Luis e eu compramos um pintagol. Na loja, Luis escolheu esse passarinho por causa do canto, não porque se tratava de um pintagol. Descobrimos que ele era um híbrido de canária com pintassilgo mais tarde, através da internet.

Trouxemos o passarinho com o maior cuidado pra casa e escolhemos um lugar para ele: a varanda. Tivemos medo de expor demais o passarinho ao vento - e quando ventou forte, o trouxemos pra dentro de casa. Aos poucos, o passarinho foi se soltando. Só cantou como cantava na loja quando tocamos para ele o som de outros pintagóis que encontramos no Youtube. Ao som de outro pintagol, reagiu furioso: cantava forte e todas as suas penas se eriçavam (especialmente as do topo da cabeça, formando um topete). Ao som de canários, reagiu tranquilo. Ao som de uma pintagol fêmea nos presenteou com um espetáculo: passou a pentear suas penas freneticamente. Girava no poleiro, quase caía, asseava as penas das asas, cabeça, peito, tudo, contorcendo-se para ficar apresentável.

Estudamos nosso passarinho por horas. O passarinho tem 4 dedos em cada pé: 3 numa direção e outro opositor. No pé direito dele, reparamos que o dedo opositor não agarrava o poleiro. Pensamos em adaptar o poleiro mais grosso para ele, porque parecia grosso demais, já que o pé direito dele escorregava constantemente desse poleiro. Cheguei a inserir um hashi na gaiola, mas as cores de cobra coral em volta do hashi devem ter assustado o nosso passarinho.

Fomos dormir sabendo que tínhamos um animal doméstico em casa. Na manhã seguinte, pensei em levantar e ir ver o passarinho quando acordei às 6h. Mas daí eu pensei que 6h era muito cedo pra ficar em pé e decidi nem levantar. Mas Luis levantou em seguida e foi ver o passarinho.

Na versão dele, ele queria me trazer o passarinho porque tinha me ouvido falar no dia anterior que eu tinha muita vontade de tocar o passarinho, mas que não dava, por causa da gaiola.

Luis ficou parado na porta do quarto, com as duas mãos perto do coração. Explicou que o passarinho deu uma bicada pontiaguda na mão dele, se soltou e saiu voando em direção à escola. Não sabíamos se o passarinho tinha passado os dois anos de vida dele dentro da gaiola ou se tinha sido capturado. Não sabíamos se ele saberia se virar no mundo fora da gaiola.

Descemos com a gaiola vazia e fomos, às 6:30h, em pleno domingo, para a escola ao lado do nosso prédio. O guarda nem ouviu a história do passarinho até o fim. Foi abrindo a porta e nos deixou procurar o nosso passarinho. Confiávamos que seríamos capazes de reconhecer nosso passarinho sem nome pelo canto. Pela primeira vez, me dei conta de que todos os passarinhos cantam - e que há muitos passarinhos lá fora. O que antes era ruído, paisagem sonora, de repente ganhou contornos variados e precisos.

De tarde, reconhecemos o canto do nosso passarinho. Da varanda do sexto andar, Luis identificou um passarinho que voava desajeitado e pousou na churrasqueira. Descemos com a gaiola vazia, o saco de comida de passarinho, uma camiseta para jogar em cima dele e muita esperança de poder dar segurança ao nosso passarinho esfomeado e sedento e assustado, coitado. O passarinho se mostrou mais esperto e ágil que nós. Levamos a gaiola e o computador para a churrasqueira e tocamos todos os videos de pintagol para o nosso passarinho empoleirado num arco do ginásio da escola.

Na tarde do dia seguinte, chegamos a comer na churrasqueira ao som de pintagóis que saía das caixas de som. O nosso passarinho aparecia, olhava pra gaiola vazia, cantava, voava, cantava e desaparecia. Pouco antes do anoitecer, vimos o passarinho no muro que separa esse prédio do outro prédio. Passamos horas conversando com ele, brincando de esconde-esconde. Quando escureceu, ele se retirou para o prédio vizinho. Calculamos a hora em que ele estaria dormindo, com a cabeça encolhida e a guarda baixa e fomos, com a gaiola vazia, até o prédio vizinho. Para a nossa surpresa, o guarda noturno era criador de passarinhos, tinha vários curiós e conhecia pintagol. Na área de lazer do prédio vizinho, procuramos os três, com lanterna, pelo passarinho. Deixamos a gaiola vazia com o porteiro, na esperança de ele identificar e capturar o nosso passarinho de manhã, assim que ele começasse a cantar.

Na manhã seguinte, Luis buscou a gaiola vazia na nossa portaria. Todos os dias, o passarinho cantava e nós descíamos para conversar com ele. Já não levávamos a gaiola, comida, computador, porque percebíamos que deveríamos desistir da ideia de colocar o nosso passarinho de volta na gaiola. Ele estava voando bem, não escorregava dos fios ou galhos em que pousava e estava sobrevivendo à chuva e tempestade.

Hoje temos certeza de que ele sabe onde nós estamos: já o vimos empoleirado em cima do prédio atrás do nosso (de frente pra nossa varanda) e no nosso prédio (olhando para a janela da cozinha, do outro lado da casa). De certa forma, não conseguimos nos desligar dele: mesmo não sendo capazes de alimentá-lo ou protegê-lo (agora já não sabemos mais de que), descemos toda vez que o ouvimos e acompanhamos seu voo e seu canto. Numa vez que desci para ver nosso passarinho, fui seguindo-o até ser impedida de continuar: cheguei na grade que separa a piscina do resto do prédio. Olhando por entre as grades para o nosso passarinho, tive a estranha sensação de estar dentro de uma gaiola.

sábado, 27 de setembro de 2014

Abre-te, gergelim

Luis tinha jogado gergelim e chia num vaso. Foi crescendo uma planta que não sabíamos o que era. Aí ela formou flores brancas e essas cápsulas que se mantiveram verdes e fechadas durante um mês, aproximadamente.
Gradativamente as cápsulas foram secando (a temperatura média em Porto Velho é de 30º). Ajudei uma a se abrir e vi que cada cápsula era formada por quatro corredores de onde iam saindo os gergelins.
Não contei quantos saíram dessas cavernas, mas não me surpreenderia se fossem 40...

sábado, 20 de setembro de 2014

Ingá

Fui na feira e perguntei pro moço da banca de produtos orgânicos:

- Quanto é o ingá?
- Um é dois, dois é três.
- Me dê um, por favor.
- Pode escolher, patroa.
- Não sei escolher ingá.
- Então leve esses dois. E Deus lhe abençoe.
Eu nunca tinha comido ingá. Gostei.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Tudo bem, sem problema

O telefone toca de manhã, eu atendo. Uma voz embolada me diz:
- Desculpe, mas não posso hoje de manhã. Ontem eu me estressei muito, aí eu tomei um remedinho e não consegui levantar ainda. Podemos marcar pra hoje de tarde, se não for muito incômodo?
- Tudo bem, sem problema.

Horas mais tarde, vou ao restaurante e sento numa mesa perto da janela. Chega uma família com uma menina pequena, de 3 anos aproximadamente, fazendo birra. Pai e mãe instalam-se na mesa ao meu lado, a menina fica no meio do caminho, de costas para os pais. O pai conversa, chama a menina para a mesa. Ela vai sendo conduzida para a mesa a contragosto, reclamando que a cadeira é dura. A menina ajoelha na cadeira, deita a cabeça em cima da mesa e esconde o rosto. O pai suspira e pergunta se ela quer que ele busque a cadeira dela. Vira-se para mim e pergunta:
- Você se importa de trocar essa cadeira aí ao seu lado por essa daqui? É que a gente sempre senta nessa mesa e ela acha que essa cadeira aí do seu lado é mais macia.
-Tudo bem, sem problema.

domingo, 14 de setembro de 2014

Nosso jardim suspenso

Vista para fora da nossa sacada

"The constant gardner"

Meu jardineiro fiel

Feijão azuki e jambu

Nossa primeira colheita de feijão!

Pimentas que ganhamos de espólio da Fran

sábado, 13 de setembro de 2014

Memória compartilhada

Tenho a impressão que conheci melhor meu sogro depois que ele faleceu. Pessoas que o conheceram 30 anos atrás compartilharam estórias vividas (com ele) em suas infâncias. A impressão que eu tinha do meu sogro foi ampliada: não lembro dele apenas no passado recente, mas imagino como ele foi no passado remoto. Todas as memórias dele, vividas ou construídas, foram trazidas ao presente.


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Labirintos UNíRicos*

L foi na DGP para pedir um estagiário para auxiliá-la nas tarefas administrativas do PIBID. L foi orientada a fazer a solicitação de estagiário na PRAD ou PROPLAN e foi explicado a ela que se a PRAD ou PROPLAN aprovassem o pedido, ela receberia currículos de candidatos a estagiário, dentre os quais ela poderia escolher um - que seria então contratado pela DGP.

L escreveu e enviou o mesmo memorando para a PRAD e para a PROPLAN. Da PROPLAN não recebeu resposta, da PRAD recebeu um e-mail encaminhado para a DPI, pedindo ao responsável que verificasse se havia orçamento para esse tipo de programas (PIBID). L aguardou. Veio resposta da DPI diretamente para L. Não havia orçamento de estagiário para o PIBID, e que, para esclarecer quaisquer dúvidas, L deveria dirigir-se ao coordenador geral do PIBID.

L respondeu que é a coordenadora geral do PIBID.

Caminho sem saída.

L escolheu outra via: pegou o telefone, ligou para o gabinete da PROPLAN e explicou sua demanda de estagiário. Foi orientada a reenviar o memorando solicitando estagiário e assim o fez. Esperou. Nada aconteceu. Pensou que tivesse entrado em outra rota sem saída. Ligou novamente para a PROPLAN e ouviu como resposta que o despacho já tinha seguido para a DGP havia duas semanas.

L encaminhou-se para a DGP, mas não havia ninguém lá. O estagiário da DGP lembrou do caso e mostrou a L o seu memorando com o despacho da PROPLAN anexado. Segundo o estagiário, assim que as responsáveis na DGP voltassem de viagem, o trâmite seguiria seu curso normal.

Nada aconteceu nas duas semanas seguintes.

L regressou à DGP e perguntou quando lhe ofereceriam diversos currículos de candidatos para que ela escolhesse um estagiário. A resposta foi desconcertante: a estagiária já tinha sido contratada e já estava trabalhando. No NUCSA. Foi sugerido a L que fosse ao NUCSA para negociar a estagiária contratada com o coordenador de projeto de pesquisa.

Pressentindo que o caminho até o NUCSA significaria um beco sem saída desgastante, L foi ao gabinete da PROPLAN, expor a situação. Caminhou com o pró-reitor até a PRAD, onde estava encalhado o processo de contratação da estagiária. A pró-reitora explicou a L que a estagiária ainda não tinha sido contratada, já que havia problemas no processo: o PIBID está subordinado à PROGRAD, não ao NUCSA. A pró-reitora pegou o telefone e ligou para a DGP. Foi combinado que L passaria na DGP para decidir se aceitava a estagiária.

L foi dar sua aula de sexta à tarde. Na sala, encontrava-se a estagiária. L perguntou a ela se concordava em estagiar no PIBID. Sim. Foi à DGP e avisou que aceita que sua aluna seja contratada como estagiária do PIBID.


* Por mais que "UNíRicos" remeta a sentimentos diáfanos e tranquilizadores, e por mais que essa história não tenha nada de onírica e se assemelhe mais a um pesadelo, não pude deixar de gostar do trocadilho.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Propaganda em tempos de crise

A imagem das duas usinas instaladas no rio Madeira anda bem abalada depois da cheia do Madeira. Desalojados e desabrigados durante a cheia afirmam que a cheia foi intensificada pelos impactos das usinas.

Para se defender das chamadas à responsabilidade, afirmam que o desastre foi da Natureza. O governador do estado de Rondônia e a presidenta do Brasil ecoam que a cheia foi natural. Tenho observado que foi adotada uma nova estratégia de defesa - especialmente pela Santo Antônio Energia, que fica a 5km do centro da capital do estado.

Em 15 de julho o Jornal Diário da Amazônia noticiou que 30 taxistas de Porto Velho visitaram a UHE Santo Antônio. Quem tiver curiosidade de ler a matéria, que clique ali. Explicaram aos taxistas, que são pessoas que conversam com muitas pessoas por dia, que a energia gerada pela usina era capaz de abastecer 1,4 mi de residências. Será que mencionaram que essa energia gerada aqui vai direto pro linhão que atravessa o Brasil e chega em Araraquara (SP)? Será que mencionaram que a energia gerada aqui não abastece residências, mas a indústria eletrointensiva? A matéria menciona o sindicato dos taxistas e um taxista que opera no aeroporto. Potenciais multiplicadores de propaganda da usina.

Hoje o mesmo jornal noticia um evento que a Eletrobras promoveu: palestras e visita à usina. Quem são os multiplicadores da vez? Jornalistas. Isso mesmo. Agora os jornalistas são capacitados para escrever sobre as usinas usando como fonte fidedigna (e exclusiva) a própria usina. A jornalista entrevistada confirmou minhas suspeitas: "[...] elaborar matérias sobre e para o setor elétrico não é tarefa fácil [...]". Eu entendo que essa segunda preposição, em negrito, tem um valor de "encomendadas por": matérias encomendadas pelo setor elétrico para tranquilizar os leitores do jornal.

Microclima

Imagem do GoogleMaps
Desde a consolidação do reservatório de Itaipu (que é gigantesco), instalou-se na região um microclima. O regime de chuvas ficou completamente alterado na região. Aqui em Porto Velho tem chovido extraodinariamente muito nessa época do ano.

Nas usinas do rio Madeira (UHE Santo Antônio e UHE Jirau) não há reservatórios de acumulação como em Itaipu, mas o que os especialistas chamam de "pools". As duas usinas estão instaladas no mesmo rio, uma depois da outra. O reservatório da UHE Santo Antônio termina na UHE Jirau e o reservatório da UHE Jirau termina - segundo o que está escrito nos documentos - na linha imaginária que separa o Brasil da Bolívia. "Pool" então é fazer da extensão do rio um reservatório. Então não podemos explicar as chuvas excessivas (com direito a ventania, raios e trovões) pelo acúmulo de água no reservatório.
Fonte: Agência Nacional de Águas (ANA).
Observando o gráfico da ANA, vemos que a linha rosa marca as máximas históricas de cheias do Madeira em Porto Velho. A linha verde, mais harmônica, marca a média de permanência da água no leito do rio ao longo do ano. Pela linha verde, observa-se que o rio enche até março, vaza entre abril e agosto, está mais seco em setembro e volta a encher a partir de outubro. Neste mesmo gráfico, a linha preta indica o nível da água do rio Madeira em Porto Velho em 2014, o ano da grande cheia. O pico da cheia foi no fim de março, em maio houve repiquetes que se acentuaram em junho e julho e em agosto o nível está baixando, mas ainda assim acima do máximo historicamente registrado nessa época do ano.

Há muita umidade no ar - que condensa e precipita por volta das 15h. Se não fossem as usinas, não teria havido a supercheia. Se não fosse a supercheia, estaríamos na estiagem.

sábado, 2 de agosto de 2014

Estradas na Amazônia

Jairo no barco
Há quem diga que as estradas na Amazônia são os rios. Se isso foi verdade enquanto a Amazônia era verde, não é mais hoje. A migração massiva nos anos 70-80, a depredação (de madeira, minérios e dos rios pelas barragens) e agora o estado de exceção instaurado pela cheia de 2014 são justificativas para abertura de estradas sem estudo de impacto ou expedição de licença.

Estrada recém aberta
Posso lembrar de dois exemplos de estradas encaradas como grande solução depois do isolamento provocado pela cheia de 2014: a estrada Parque, que foi anunciada nos jornais como grande solução para ligar Guajará-Mirim à BR 364, artéria do estado de Rondônia; e a estrada que liga a BR 319 ao Maravilha e Niterói. Mas dessa última estrada ninguém ouviu falar, nem mesmo as autoridades competentes.

A Estrada Parque, a BR 421, atravessa o Parque Estadual de Guajará-Mirim (área de proteção integral). Este parque é residência de indígenas da etnia Karipuna e sabe-se que há na região indícios de índios não contactados pelos brancos (o termo "isolados" é corrente, mas o mais justo seria: "resistentes à modernidade capitalista"). A estrada tinha sido interditada como resultado do trabalho do Ministério Público Federal de Rondônia em março de 2014 com o argumento de que era preciso preservar a vida da/na floresta. No mesmo mês a estrada foi reaberta, inviabilizando a área de proteção integral. Depois que as águas baixaram e a BR 364 foi liberada, não se teve notícia da reversão dessa decisão que fere frontalmente direitos conquistados pelos povos indígenas. Pelo contrário, as manchetes de jornais locais comemoram que a Estrada Parque "está garantida".

Estrada sendo "cascalhada"
Jairo e família tinham ido passar o Natal no sul e foram se demorando por lá. Veio a cheia e eles decidiram ficar lá até as águas do Madeira baixarem. Quando Jairo voltou, teve grande surpresa: uma estrada nova atravessava os fundos (fundiária) de suas terras e as terras de seus vizinhos. Entendeu que a estrada nova é uma solução encontrada pela especulação fundiária/imobiliária estimulada pela construção da ponte devido à inviabilidade da estrada da beira (que foi tomada pelo rio Madeira e pela lama e acabou ficando muito perto da barranca devido à erosão das praias e barrancas). A estrada atravessa o Maravilha e chega em Niterói, onde surgiram muitos lotes. O problema é que a estrada fragiliza ainda mais a porção mais preservada da APA (Área de Proteção Ambiental) Rio Madeira. A comunidade Maravilha é uma das poucas áreas próximas a Porto Velho que contém manchas de floresta densa e olhos d'água.
Ponte que leva à margem esquerda do rio Madeira
Fomos na SEMA (Secretaria do Meio Ambiente), saber se tinham expedido licença (resultante de estudos de impacto) para esta estrada que foi aberta pela SEMAGRIC (Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento). Disseram que não, que deveríamos nos dirigir à SEDAM (Secretaria Estadual de Desenvolvimento Ambiental), mas que se houvesse licença, a SEMA saberia. Além disso, no IBAMA,  ficaram surpresos ao ouvir sobre essa nova estrada. A questão é que existe agora uma ligação direta e rápida entre Porto Velho e a APA do Maravilha.

A entrada da estrada pela BR que vem da balsa (enquanto a ponte não é inaugurada) igualmente não parece regulamentada: além de não haver placa, não há acesso: quebraram a guia da BR na largura da estrada nova e pronto.
A guia da BR 319 foi quebrada para servir de entrada para a estrada
Caminhão da Semagric fazendo estrada
Será que existe licença para essa estrada?
Irmãos, primos, cunhados, vizinhos e parceiros se juntaram para discutir maneiras de minimizar os efeitos da estrada e evitar grilagem. Com a estrada, vem gente. Não necessariamente gente preocupada em preservar o meio ambiente (os mananciais, fauna e flora nativas) e viver da terra de maneira integrada.
Reunião
Quando fomos conferir se as placas ("Propriedade particular" e "Área de proteção ambiental") que Jairo tinha colocado na beira da estrada ainda estavam lá, flagramos três pessoas destruindo as placas. O senhor (em destaque na foto) que liderava o grupo afirmou que aquelas terras à direta da estrada eram dele e que ele também não foi consultado se concordava com a abertura da estrada ali.
Suposto dono da terra
Agora todos vão ao INCRA, verificar se esse homem tem mesmo título de terra ali.

Rio sem praia

Praia no Maravilha 2012
O primeiro amigo que Luis me apresentou foi o Jairo (e família: Siomara, Jarina e Uirá) que mora no Maravilha que fica do outro lado do rio Madeira, na altura do Belmont. Em 2012, as praias que se formam nas margens do rio Madeira na época da estiagem estavam desbarrancando devido ao impacto da usina de Santo Antônio.
Desbarrancamento já em 2012
Os ribeirinhos costumavam plantar nessas praias (a terra é fértil) durante a vazante e colher antes que o rio voltasse a encher. Havia maxixe plantado quando fui lá a primeira vez. Desde que as usinas fecharam o rio a passaram a controlar a vazão do rio, não tem mais havido praia (nem cultivo) no rio Madeira.
Porto do Jairo em 2013. Foto: Luis

Porto do Jairo em 2013. Foto: Luis
Ano passado, Luis voltou a visitar o Jairo enquanto eu estava em Santa Maria. As fotos do porto do Jairo (acima: antes e abaixo: depois) apontam para os efeitos da cheia de 2014.

Barranco íngreme, sem praia em 2014
Como a praia sumiu, a estrada da beira do rio (que leva da balsa/ponte até a casa do Jairo no Maravilha) está na beira do barranco. Nem tiramos fotos por causa da adrenalina de passar de carro naquelas poças de água parada desde a enchente.
Barranco íngreme e com árvores mortas em Belmot
O que vimos foi uma paisagem predominantemente marrom: a marca da água da enchente, as árvores mortas, o rio revolvido, a vegetação arrancada.
A praia sumiu depois da cheia

terça-feira, 22 de julho de 2014

O jornal cheio de vazio

Sonhei que os donos e editores de jornal tinham consciência da importância do seu trabalho e valorizavam a inteligência de seus leitores. No meu sonho, os jornais tinham sido censurados pelos anunciantes que compravam espaço no jornal para vender sua propaganda. Como resposta à censura, a edição daquele dia que eu sonhei veio diferente: o jornal aberto media 2m de altura e quase um metro de largura. A maior parte desse espaço era preenchida de vazio, e as matérias, escritas em letra e tamanho normal, ocupavam pequenas manchas quadradas espalhadas de maneira pouco estética pela página.

Lembro de ter me admirado, durante o sonho, da engenhosidade: em vez de diminuir o tamanho do jornal (o que seria uma consequência necessária se não publicassem todos os anúncios, que devem girar em torno de metade de todo o volume informacional publicado no jornal), espicharam a folha e evidenciaram o vazio. Dessa forma, os anúncios não foram apenas retirados, mas substituídos por espaços vazios dez vezes maiores que os anúncios.

Acordei empolgada, achando que todo mundo tinha entendido a mensagem.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Acabou o carnaval

Vi os gols da Alemanha contra o Brasil, mas não lembro de ter visto a comemoração dos jogadores alemães - ou da torcida alemã. A câmera da Fifa enfocava o choro, o desespero e o susto dos torcedores brasileiros. Assisti o jogo transmitido pela Globo e não registrei as vaias da torcida brasileira, nem os olés que outras emissoras mostraram.

Enquanto Casa Grande e Ronaldo Fenômeno comentavam que o Brasil não tinha feito grande campanha, não tinha mostrado serviço nessa Copa, Galvão Bueno dizia que "assim é o esporte". Júlio César, o goleiro que tomou 7 gols, deu depoimento de que era "complicado explicar o inexplicável".

E quando, no Jornal Nacional, que dedicou 80% de seu tempo à Copa, os comentaristas (que falaram por último) foram explicar o que aconteceu na semifinal de hoje, quase todos atribuíram a responsabilidade pelos "erros" ao treinador que escalou mal o time. Detalhe: em bloco anterior (e notavelmente longo) Felipão assumira a total responsabilidade pela derrota. Mas considero importante destacar que desses 80% de tempo de Jornal Nacional dedicados à Copa, apenas 10% foram avaliações de pessoas que recebem salário para fazer avaliações. A maior parte das avaliações foi feita pelos torcedores.

A capa da Folha online traz, nas imagens cambiantes, um quadro com imagens de 8 pessoas: 1 homem e 7 mulheres da torcida com o rosto contorcido de dor. Tanto Patrícia Poeta como Galvão Bueno rasgaram elogios para a torcida (que cantou "sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor" incansavelmente e aplaudiu os jogadores da Alemanha no final do segundo tempo). Mas a atuação da Tropa de Choque no Mineirão foi silenciada na Globo.

A máscara (do hexa, do Brasil campeão, do orgulho da camisa) caiu. Todas as propagandas em que os jogadores brasileiros (que recebem salários astronômicos para - segundo David Luiz: "alegrar o povo brasileiro") aparecem como herois parecem agora a mais pura enganação. Todas as cidades-palco decoradas de verde-amarelo, todos os figurantes que torceram pelo time, pelo país e pelo sonho, acreditando na importância do seu papel, foram pegos no contrapé porque os atores em campo não desempenharam seu papel conforme o script. Porque os jogadores deixaram claro que até então estiveram atuando, não jogando futebol campeão de Copa.

domingo, 6 de julho de 2014

O livro e a mensageira

Da Bolívia, Luis e eu fomos para Campinas. Como eu ficaria mais tempo na cidade (para participar do GEL), me hospedei na casa de Telmo e Milena; Luis seguiu para Cachoeiro de Itapemirim (ES). O Telmo eu conhecia desde os primeiros anos em que morei em Barão Geraldo: foi co-fundador do Campinas Cicloviável e sempre se interessou por mobilidade e acessibilidade urbana, cicloativismo e bicicletas. A Milena eu sabia descrever em poucas palavras: companheira do Telmo, dança no grupo Excaravelhas, muito simpática.

Todas as manhãs, era a Milena que estava de pé, fazendo café, indo pra aula, sentando pra conversar. Foi numa dessas conversas na cozinha que ela me contou a história do pai.

Seu pai, Luiz Antônio de Figueiredo, era escritor. Foi aluno e colega de grandes nomes na Crítica Literária e seus livros contam com prefácios e posfácios de autoridades no campo das Letras. Morreu faz um mês aproximadamente e Milena estava ainda engajada no trabalho de separar seus livros e discos, além de avisar as pessoas que o pai tinha falecido. Quando ainda estava na casa do pai, chegou uma carta endereçada a Luiz Antônio. Era de Antônio Cândido. Milena abriu a carta e leu que Antônio Cândido se desculpava por demorar a dar um retorno sobre a última obra de Luiz Antônio, porque afinal estava com 100 anos de idade e a leitura se tornava uma tarefa difícil. Milena sabia que o pai tinha morrido esperando por essa carta de Antônio Cândido.

Descobriu o telefone do remetente da carta, juntou coragem e ligou. Foi ele mesmo quem atendeu. Ela estava nervosa, ansiosa por falar com Antônio Cândido sobre a morte do pai. Conforme a conversa ia sendo fiada, ela foi se sentindo mais à vontade, até perceber que o telefone, que antes a separava de seu interlocutor, agora os unia. Desligou o telefone confortada e encantada com a candura e cortesia de Antônio Cândido.

Terminou a história dizendo: "agora só preciso encontrar mais um professor que escreveu um posfácio no último livro do meu pai e ainda não tem um exemplar do livro. Por acaso você conhece o Ataliba?" Dei risada, porque eu tinha almoçado na mesa ao lado da dele no dia da abertura do GEL. Conferimos a programação e Milena se programou para ir ao Gel depois de uma mesa-redonda em que Ataliba Castilho mediava a fala de uma professora portuguesa que tinha acabado de lançar os dois primeiros volumes de uma Gramática do Português.

Naquela noite Milena estava cansada. Avisou por mensagem que não viria. Na plateia, localizei Rodolfo Ilari, que em seguida lançaria uma reedição de seu primeiro volume da Gramática do Português Falado - Classes de Palavras (em que há, no segundo volume, um capítulo sobre a preposição escrito por Ataliba, Ilari, Maria Lúcia, Renato e eu). Tanto Ilari como Ataliba me olhavam como se soubessem que sabiam que tinham esquecido quem eu era. Depois de tê-los cumprimentado, lembraram. Contei pro Ataliba da Milena, do pai e do livro posfaciado. Ficou muito triste com a notícia e perguntou como ele poderia entrar em contato com a Milena. Respondi que ela lhe escreveria um e-mail.

Torço para que Milena e Ataliba se encontrem face a face. Assim o mundo das Letras/palavras se concretiza na língua-viva, como diria Bakhtin.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

As fotos do Photoshop

Graças à boa vontade da minha mãe (que tem Photoshop e sabe usar), recupero e compartilho as fotos que fiz em La Paz. Nesta ruela colorida há vários museus e lojas de artesanato.
Pico do Ilimani. Disseram que o Chacaltaya (mais de 5.000m de altitude), que subimos em 1992, não tem mais neve no topo.
 
 A ida para o centro se mostrou mais rápida a pé...

domingo, 29 de junho de 2014

Passear: uma questão de perspectiva

Para o meu marido (nascido no Peru e filho de peruano), "passear" não significa admirar paisagens, mas saborear comidas tradicionais, especialmente quando se trata de comida andina.
Sopa de pollo com batata desidratada (a preta) no café da manhã
Quando eu fui "passear" por La Paz, tirei fotos das vielas com lojas de artesanato coloridas, museus e centros culturais, das avenidas abarrotadas de carros asiáticos velhos, micro-ônibus enfeitados e pessoas costurando pelos espaços vazios.
Saltenha se come de manhã
Tirei fotos decentes do Ilimani, fotos noturnas da cidade vertical (acho que preciso explicar: La Paz fica numa cratera povoada de cima a baixo. De noite, quem está no centro, vê as luzes da cidade envolvendo a cidade) e do teleférico.
Mercado Lansa
Quando fui ver as fotos que eu tirei, tive uma surpresa desagradavelmente amarga: todas estavam num formato esquisito (srw) que nenhum dos programas que tenho no computador consegue ler. Ficamos, pois, com as imagens do passeio gastronômico.
Meu mate (chá) de coca.