terça-feira, 22 de julho de 2014

O jornal cheio de vazio

Sonhei que os donos e editores de jornal tinham consciência da importância do seu trabalho e valorizavam a inteligência de seus leitores. No meu sonho, os jornais tinham sido censurados pelos anunciantes que compravam espaço no jornal para vender sua propaganda. Como resposta à censura, a edição daquele dia que eu sonhei veio diferente: o jornal aberto media 2m de altura e quase um metro de largura. A maior parte desse espaço era preenchida de vazio, e as matérias, escritas em letra e tamanho normal, ocupavam pequenas manchas quadradas espalhadas de maneira pouco estética pela página.

Lembro de ter me admirado, durante o sonho, da engenhosidade: em vez de diminuir o tamanho do jornal (o que seria uma consequência necessária se não publicassem todos os anúncios, que devem girar em torno de metade de todo o volume informacional publicado no jornal), espicharam a folha e evidenciaram o vazio. Dessa forma, os anúncios não foram apenas retirados, mas substituídos por espaços vazios dez vezes maiores que os anúncios.

Acordei empolgada, achando que todo mundo tinha entendido a mensagem.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Acabou o carnaval

Vi os gols da Alemanha contra o Brasil, mas não lembro de ter visto a comemoração dos jogadores alemães - ou da torcida alemã. A câmera da Fifa enfocava o choro, o desespero e o susto dos torcedores brasileiros. Assisti o jogo transmitido pela Globo e não registrei as vaias da torcida brasileira, nem os olés que outras emissoras mostraram.

Enquanto Casa Grande e Ronaldo Fenômeno comentavam que o Brasil não tinha feito grande campanha, não tinha mostrado serviço nessa Copa, Galvão Bueno dizia que "assim é o esporte". Júlio César, o goleiro que tomou 7 gols, deu depoimento de que era "complicado explicar o inexplicável".

E quando, no Jornal Nacional, que dedicou 80% de seu tempo à Copa, os comentaristas (que falaram por último) foram explicar o que aconteceu na semifinal de hoje, quase todos atribuíram a responsabilidade pelos "erros" ao treinador que escalou mal o time. Detalhe: em bloco anterior (e notavelmente longo) Felipão assumira a total responsabilidade pela derrota. Mas considero importante destacar que desses 80% de tempo de Jornal Nacional dedicados à Copa, apenas 10% foram avaliações de pessoas que recebem salário para fazer avaliações. A maior parte das avaliações foi feita pelos torcedores.

A capa da Folha online traz, nas imagens cambiantes, um quadro com imagens de 8 pessoas: 1 homem e 7 mulheres da torcida com o rosto contorcido de dor. Tanto Patrícia Poeta como Galvão Bueno rasgaram elogios para a torcida (que cantou "sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor" incansavelmente e aplaudiu os jogadores da Alemanha no final do segundo tempo). Mas a atuação da Tropa de Choque no Mineirão foi silenciada na Globo.

A máscara (do hexa, do Brasil campeão, do orgulho da camisa) caiu. Todas as propagandas em que os jogadores brasileiros (que recebem salários astronômicos para - segundo David Luiz: "alegrar o povo brasileiro") aparecem como herois parecem agora a mais pura enganação. Todas as cidades-palco decoradas de verde-amarelo, todos os figurantes que torceram pelo time, pelo país e pelo sonho, acreditando na importância do seu papel, foram pegos no contrapé porque os atores em campo não desempenharam seu papel conforme o script. Porque os jogadores deixaram claro que até então estiveram atuando, não jogando futebol campeão de Copa.

domingo, 6 de julho de 2014

O livro e a mensageira

Da Bolívia, Luis e eu fomos para Campinas. Como eu ficaria mais tempo na cidade (para participar do GEL), me hospedei na casa de Telmo e Milena; Luis seguiu para Cachoeiro de Itapemirim (ES). O Telmo eu conhecia desde os primeiros anos em que morei em Barão Geraldo: foi co-fundador do Campinas Cicloviável e sempre se interessou por mobilidade e acessibilidade urbana, cicloativismo e bicicletas. A Milena eu sabia descrever em poucas palavras: companheira do Telmo, dança no grupo Excaravelhas, muito simpática.

Todas as manhãs, era a Milena que estava de pé, fazendo café, indo pra aula, sentando pra conversar. Foi numa dessas conversas na cozinha que ela me contou a história do pai.

Seu pai, Luiz Antônio de Figueiredo, era escritor. Foi aluno e colega de grandes nomes na Crítica Literária e seus livros contam com prefácios e posfácios de autoridades no campo das Letras. Morreu faz um mês aproximadamente e Milena estava ainda engajada no trabalho de separar seus livros e discos, além de avisar as pessoas que o pai tinha falecido. Quando ainda estava na casa do pai, chegou uma carta endereçada a Luiz Antônio. Era de Antônio Cândido. Milena abriu a carta e leu que Antônio Cândido se desculpava por demorar a dar um retorno sobre a última obra de Luiz Antônio, porque afinal estava com 100 anos de idade e a leitura se tornava uma tarefa difícil. Milena sabia que o pai tinha morrido esperando por essa carta de Antônio Cândido.

Descobriu o telefone do remetente da carta, juntou coragem e ligou. Foi ele mesmo quem atendeu. Ela estava nervosa, ansiosa por falar com Antônio Cândido sobre a morte do pai. Conforme a conversa ia sendo fiada, ela foi se sentindo mais à vontade, até perceber que o telefone, que antes a separava de seu interlocutor, agora os unia. Desligou o telefone confortada e encantada com a candura e cortesia de Antônio Cândido.

Terminou a história dizendo: "agora só preciso encontrar mais um professor que escreveu um posfácio no último livro do meu pai e ainda não tem um exemplar do livro. Por acaso você conhece o Ataliba?" Dei risada, porque eu tinha almoçado na mesa ao lado da dele no dia da abertura do GEL. Conferimos a programação e Milena se programou para ir ao Gel depois de uma mesa-redonda em que Ataliba Castilho mediava a fala de uma professora portuguesa que tinha acabado de lançar os dois primeiros volumes de uma Gramática do Português.

Naquela noite Milena estava cansada. Avisou por mensagem que não viria. Na plateia, localizei Rodolfo Ilari, que em seguida lançaria uma reedição de seu primeiro volume da Gramática do Português Falado - Classes de Palavras (em que há, no segundo volume, um capítulo sobre a preposição escrito por Ataliba, Ilari, Maria Lúcia, Renato e eu). Tanto Ilari como Ataliba me olhavam como se soubessem que sabiam que tinham esquecido quem eu era. Depois de tê-los cumprimentado, lembraram. Contei pro Ataliba da Milena, do pai e do livro posfaciado. Ficou muito triste com a notícia e perguntou como ele poderia entrar em contato com a Milena. Respondi que ela lhe escreveria um e-mail.

Torço para que Milena e Ataliba se encontrem face a face. Assim o mundo das Letras/palavras se concretiza na língua-viva, como diria Bakhtin.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

As fotos do Photoshop

Graças à boa vontade da minha mãe (que tem Photoshop e sabe usar), recupero e compartilho as fotos que fiz em La Paz. Nesta ruela colorida há vários museus e lojas de artesanato.
Pico do Ilimani. Disseram que o Chacaltaya (mais de 5.000m de altitude), que subimos em 1992, não tem mais neve no topo.
 
 A ida para o centro se mostrou mais rápida a pé...

domingo, 29 de junho de 2014

Passear: uma questão de perspectiva

Para o meu marido (nascido no Peru e filho de peruano), "passear" não significa admirar paisagens, mas saborear comidas tradicionais, especialmente quando se trata de comida andina.
Sopa de pollo com batata desidratada (a preta) no café da manhã
Quando eu fui "passear" por La Paz, tirei fotos das vielas com lojas de artesanato coloridas, museus e centros culturais, das avenidas abarrotadas de carros asiáticos velhos, micro-ônibus enfeitados e pessoas costurando pelos espaços vazios.
Saltenha se come de manhã
Tirei fotos decentes do Ilimani, fotos noturnas da cidade vertical (acho que preciso explicar: La Paz fica numa cratera povoada de cima a baixo. De noite, quem está no centro, vê as luzes da cidade envolvendo a cidade) e do teleférico.
Mercado Lansa
Quando fui ver as fotos que eu tirei, tive uma surpresa desagradavelmente amarga: todas estavam num formato esquisito (srw) que nenhum dos programas que tenho no computador consegue ler. Ficamos, pois, com as imagens do passeio gastronômico.
Meu mate (chá) de coca.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Em La Paz

Ilimani no horizonte
Dia 26 foi o dia de apresentar trechos do que será o nosso filme coletivo "O silêncio do Madeira". Carlos e Rodrigo se esforçaram muito para terminar o "Relatos de Torrentes & Caudales" a tempo de exibi-lo durante a cerimônia de Paraninfo em que Luis fez uma fala brilhante sobre ciência, desenvolvimento e as usinas fio d'água nos rios amazônicos. A comoção gerada pela fala dele foi tal que não houve espaço nem ocasião para a exibição do filme.

No dia seguinte, no âmbito do evento Megaprojetos nos rios amazônicos, ambos os filmes encontraram seu público. O filme deles tinha 25 minutos, o nosso, que ainda está em processo, tem 9 - e os dois se mostraram complementares.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Tempo e fuso

Luis e eu saímos de Porto Velho de noite rumo a Rio Branco. Como a balsa estava na mesma margem que nós, a viagem de ônibus só demorou 8 horas. Entre Jacy-Paraná e Abunã quase não havia asfalto (que se dissolveu com a cheia) e logo depois de atravessar o Madeira de balsa igualmente havia pouca aderência das rodas à brita que jogaram na via para atenuar o lamaçal.

Ainda estava escuro quando entramos no táxi que nos levaria à divisa com a Bolívia. Os nossos relógios marcavam 6:00, mas no Acre o fuso é diferente. O taxista relatou a peleja que foi fixar um terceiro fuso no Brasil, porque afinal de contas o sol somente desponta quando Rondônia marca 7:00, já que o Acre está situado mais a oeste que Rondônia.

Na divisa (Epitaciolândia), fomos deixados na Polícia Federal poucos minutos antes do estabelecimento abrir (às 8:00, que no meu relógio eram 9:00). Atravessamos a ponte (que mais parece um portal), entramos em Cobija e regressamos ao horário de Rondônia. Isso mesmo: quando são 8:00 em Brasília, são 7:00 em Rondônia, 6:00 no Acre e 7:00 de novo na Bolívia.

Em La Paz o dia começa depois das 7:30. Às 7:00 ainda estava escuro e não havia viv'alma na rua. Às 7:30 vi telhados brancos e uma pessoa caminhando na rua. 15 minutos depois ouvi carros, depois crianças entrando na escola. Então começaram as buzinas, sirenes, alarmes que seguem até o sol se por. As temperaturas aqui variam entre 1ºC e 13ºC. Estamos no mesmo fuso que Porto Velho, mas num clima completamente diferente.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Manifestações durante a Copa

No primeiro jogo da Copa, a Croácia jogou contra a FIFA, não contra o Brasil:
  • o único gol dos croatas foi anulado em virtude de uma falta no mínimo polêmica, 
  • a cotovelada de Neymar foi punida com cartão amarelo e não expulsão, 
  • todos concordam que Fred não sofreu falta, portanto não merecia pênalti, mas cartão amarelo pela dissimulação.

No Jornal Nacional, Galvão Bueno disse que o pênalti não alteraria o resultado final que era a vitória do Brasil. A edição de ontem do Jornal Nacional foi, exceto pelo boletim do tempo, unicamente dedicada à Copa. Não foi apresentada outra notícia além de novelinhas ligadas ao futebol.

E as manifestações? E o "não vai ter Copa?" A Globo não mostrou nada. Não é que não teve: teve muito pouco em comparação com a Copa das Confederações do ano passado.

Os croatas depredaram o vestiário depois do jogo. Os croatas agora são vândalos, arrauceiros, baderneiros, Black Bloks? Os jogadores da Croácia foram injustiçados e jogaram um jogo comprado, apitado por um juiz vendido. A Globo não mostrou, portanto não existiu.
Imagem encontrada na Carta Capital
No finalzinho da abertura da Copa, o curumim, uma das 3 crianças que soltou pombas brancas do meio do campo de futebol, ao retirar-se campo, abriu uma faixa exigindo demarcação das terras indígenas. A televisão não mostrou essa cena. As manifestações estão acontecendo dentro do estádio - e a grande mídia não mostra.

Neste momento, os mexicanos estão jogando contra Camarões. A estimativa é de que o México seja um adversário mais ameaçador ao Brasil que os Camarões. A falta que rendeu a Neymar um cartão amarelo se repetiu nesse jogo e foi considerada como mera falta (e quem levou a cotovelada foi um mexicano). Dois gols (!) dos mexicanos foram injustamente - e a narração do jogo concorda que o juiz não fez jus ao ofício - anulados por causa de um impedimento que não existiu.

Se eu fosse a consciência dos jogadores mexicanos, não voltava do intervalo para o campo. Se a massa do povo não está nas ruas para se manifestar contra a ilusão que é essa Copa, espero que os jogadores que perdem do Brasil, da Fifa e dos juízes se manifestem.

Atualização: os mexicanos ganharam. Assim como os brasileiros ganharam ontem. Será que o placar influencia na disposição para se manifestar?

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O filme dos amigos bolivianos



Antes de chegarem aqui, os quatro companheiros do FOBOMADE (Fórum Boliviano de meio Ambiente e Desenvolvimento), Abraham Cuéllar, Andres Bustamante, Carlos Fiengo e Rodrigo Rodriguez que nos ajudaram - e muito!! - com filmagens, equipamentos, formatos de video e segredos de computadora filmaram a cheia do Beni.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Por que são necessários novos de estudos do Madeira?

Por que são necessários novos estudos de impacto das usinas hidrelétricas após a cheia do Madeira from Lou-Ann Kleppa on Vimeo.

O debate sobre os impactos causados pelas usinas hidrelétricas instaladas no rio Madeira foi de alto nível e muito bem visitado. Muitas pessoas chegaram cheias de perguntas e saíram com uma convicção: é preciso manter o questionamento sobre a responsabilidade pelo impacto desastroso. É preciso investigar e debater sobre o que significam as usinas na Amazônia, o que significa ser atingido, como reconstruir a vida cotidiana, a memória, o território.

domingo, 18 de maio de 2014

Deslocados

Pequeno video que eu fiz sobre como cada um olha para a catástrofe ambiental que foi a cheia do Madeira. Os desabrigados foram desalojados de suas casas pela água, abrigados em colégios e, especificamente as pessoas no Baixo Madeira, foram posteriormente removidas dos colégios pela Defesa Civil e despejadas em escolas de Porto Velho. Por um lado, o depoimento de uma pessoa deslocada à revelia várias vezes por motivos diversos.

Por outro lado, o senador federal de Rondônia, Valdir Raupp, procura por palavras para descrever a situação das famílias desabrigadas: "momento ... de tristeza, né?", "não está ... vivendo com dignidade". O mais flagrante no discurso dele é a equivalência entre "mudar" ("eu mesmo já mudei umas vinte vezes", "quem aqui já não mudou pelo menos umas duas vezes?") e "ser removido para um abrigo", "ser deslocado sem perspectiva de retorno", "ser desalojado por tempo indeterminado".


quarta-feira, 30 de abril de 2014

Área de risco

Quando Dilma veio aqui, a fábula do lobo e do cordeiro foi ativada. Luis fez uma paródia:
O lobo recrimina o cordeiro por sujar a sua água. O cordeiro argumenta que está a jusante do lobo, portanto não poderia sujar a água do lobo. O lobo responde: mas o rio é meu. Você está sujando o meu rio.

Fui numa escola-abrigo onde a comunidade resiste para não ser removida pra o "abrigo único" e ouvi um ribeirinho dizendo que sabia que estava em "área de risco" quando morava às margens do rio. Fiquei pensando quando é que foi que as margens do rio Madeira se transformaram em "área de risco". Foi a partir da instalação das barragens.

Dizer que as comunidades ribeirinhas precisam ser removidas de seus territórios porque estão em "área de risco" é tão absurdo como se, na época da colonização, os portugueses justificassem o extermínio dos indígenas dizendo: "vocês estão em área de risco. Vocês vão pegar nossas doenças, perder suas identidades, cultura e terras. Vamos remover vocês do mapa."

No caso dos colonizadores portugueses, é evidente que os brancos ofereciam risco aos indígenas. No caso dos mega-empreendimentos, isso não é evidente ainda. Os efeitos são chamados de "desastres naturais" e não se procura retraçar a rede causal.

As hidrelétricas se apossaram do rio Madeira. Os reservatórios das duas usinas são chamados de pools, porque não correspondem ao formato canônico de uma bacia perto da barragem. O reservatório de Santo Antônio foi projetado (não sabemos hoje quais são as reais dimensões do reservatório) para alcançar em média 271 km2 e o de Jirau 302,5 km2 (de novo, a chuva provocou uma cheia sobre a cheia, de modo que é difícil dizer qual é a extensão real do reservatório). Como essa extensão se distribui no espaço? O rio não chega a ter 1 km de profundidade, nem 5 km de largura (de uma margem a outra). Os reservatórios-pool compreendem toda a extensão do rio: o de Santo Antônio vai da barragem de Santo Antônio até a barragem de Jirau. Por isso Mutum-Paraná não existe mais: estava no reservatório de Santo Antônio. O reservatório-pool de Jirau vai da barragem de Jirau até a linha imaginária que separa o Brasil da Bolívia. Em suma: as usinas tomaram posse do rio.

Ao segurarem água em tempo de cheia, as usinas decidiram sobre o destino de quem estava a montante e a jusante. E tudo em volta das usinas virou "área de risco" porque as usinas oferecem risco. Se a gente quisesse cortar o risco pela raiz, teria que remover as usinas.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Não pode, porque fica na APP

Conforme se lê no Diário da Amazônia de hoje, famílias foram removidas pelo poder público e as suas casas de palafita foram destruídas. Os moradores foram remanejados para o "Abrigo Único".
Fonte: Diário da Amazônia

O motivo para a demolição das casas é que estão em área de risco. O motivo para a remoção das famílias é que a área toda em que residiam é uma APP (Área de Proteção Permanente) em que, conforme as palavras do secretário municipal do Meio Ambiente "não pode haver nenhuma atividade humana [...]. As APPs são destinadas a proteger solos e, principalmente, as matas ciliares. Este tipo de vegetação cumpre a função de proteger os rios e reservatórios de assoreamentos, evitar transformações negativas nos leitos, garantir o abastecimento dos lençóis freáticos e a preservação da vida aquática".

Onde foi mesmo que Jirau construiu as obras de compensação de Jacy-Paraná?
O telhado branco e a estrutura ao lado são obras de compensação em Jacy

Na APP que alagou.

Audio de palestra proferida por Luis Novoa




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Palestra proferida em 3 de abril sobre a catástrofe ambiental na UFAC (via skype).

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Nature x nurture

"[...] porque em janeiro caíram 800 mm de chuva na Bolívia, o que não é normal." (Fala do representante de Jirau na audiência na OAB no início de abril de 2014).

Aquelas chuvas que alagavam a minha casa quando eu morava na Rua Venezuela (a casa alagou 4 vezes enquanto morei lá: 9/nov/2009, 3/dez/2009, 31/dez/2009 e 10/jan/2010) eram de aproximadamente 120 mm. As três últimas aconteceram no período de um mês.

Dá pra dizer que 800 ou 500 mm de chuva num mês é normal? "Normal" é o que obedece a um padrão. E o padrão é ditado pelos dados passados. Se no ano que vem houver outra supercheia como essa de agora, a de 2015 será considerada normal em relação à de 2014.

O que não está sendo considerado com a devida seriedade é que o ciclo da Natureza está sendo paulatinamente alterado pela nossa ação no mundo. Assim, a Natureza deixa de estar separada do homem e passa a ser produto/efeito de sua intervenção. Mario Osava, em seu texto (clique ali para ler o texto na íntegra, aqui estão apenas fragmentos que recortei e colei) publicado pelo Envolverde/IPS, cita:
Transformar uma floresta em pastagem multiplica por 26,7 a quantidade de água que escorre para os rios e por 10,8 a erosão do solo, constatou em 1989 um estudo de Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Isso significa que metade da chuva que cai em pastagens vai direto para os rios, aumentando as cheias e a sedimentação. Essa perda diminui em proporção à presença de vegetação mais alta e de raízes profundas, segundo medições de Fearnside em terrenos com declive de 20% em Ouro Preto D’Oeste, município de Rondônia.
A tese de Marc Dourojeanni (entrevistado por Mario Osava e professor emérito da Universidade Nacional Agrária de Lima) é de que o desmatamento no Peru e Bolívia - e não a chuva que caiu na Bolívia - deve ser tomado como causa das alagações na Bolívia e no Brasil. Ou seja, a culpa pela enchente não é da chuva, mas daquilo que causou essa chuva excessiva. A complexidade está entrando em jogo:
Uma massa de ar seco e quente estacionou no centro-sul do país entre dezembro e março, bloqueando ventos que transportam umidade da Amazônia, e, assim, a precipitação se concentrou na Bolívia e no Peru. Esses eventos climáticos tendem a se repetir com maior frequência devido à mudança climática global, segundo climatologistas. O desmatamento afeta o clima e exacerba seus efeitos.
Ouvi muito o promotor do MPF-RO, Rafael Bevilaqua, dizendo que os consórcios que operam as usinas, estão sendo acusadas de causarem "dano objetivo", ou seja, faz parte das atividades de qualquer usina manejar grandes quantidades de água. Era responsabilidade dos consórcios fazer estudos que previssem essa chuva, assim como era responsabilidade deles ter um plano de ação para lidar com essas massas de água.

No entanto, os consórcios afirmam nada ter a ver com a catástrofe ambiental e culpam a Natureza. Acontece que a Natureza já virou cultura (nurture). Monoculturas e pastos:
Cultivar a terra “é pior” do que as pastagens, porque “limpa todo o solo”, eliminando inclusive a erva que alimenta o gado e retém um pouco de água, apontou Dourojeanni. Mas a pecuária compacta o solo pelo pisotear do gado, acelerando o escorrimento, acrescentou esse biólogo de origem norte-americana e nacionalidade brasileira que pesquisa a Amazônia desde 1974.
E mais adiante:
A Bolívia está entre os 12 países de maior desmatamento atual, revela um estudo de 15 centros de pesquisa divulgado pela revista norte-americana Science, em novembro. O país perdeu 29.867 quilômetros quadrados de florestas entre 2000 e 2012, indicam imagens obtidas via satélite e ferramentas do Google. A pecuária é um grande fator e se expandiu principalmente em Beni, fronteiriço com Rondônia. Ali teriam morrido 290 mil bovinos entre janeiro e fevereiro, segundo a federação local de pecuaristas. A avalanche hídrica ameaça inclusive a eficiência das usinas hidrelétricas.
Estamos nos acostumando a ver catástrofes no noticiário. O capitão do navio coreano que naufragou foi o primeiro a sair, deixando a tripulação à própria sorte. Ele achava que não tinha responsabilidade sobre os estudantes que morreram afogados. Santo Antônio aumentou a cota em pleno dilúvio para gerar mais energia. Tal como o capitão coreano, isentou-se da responsabilidade pelos afetados e "fez o melhor que pôde".

terça-feira, 22 de abril de 2014

Cota baixando e as áreas de risco

30 de março foi a data em que se registrou o pico da "cheia histórica" em Porto Velho: 19,74m acima do nível normal do rio. Agora as águas já baixaram aproximadamente 1 metro e o desafio é limpar o que sobrou da casa, as ruas e a orla da cidade.
Como a topografia aqui é plana, é preciso considerar essa cota em pelo menos duas dimensões: até certo momento, o rio se manteve na calha (fevereiro. No gráfico, a linha preta sobe e desce que nem agulha overlock). Depois disso, o rio espraiou, ultrapassou suas margens e inchou os igarapés que alimentam o Madeira. E foi essa horizontalização do rio que tirou as pessoas dos seus respectivos territórios.

As áreas alagadas são agora consideradas "áreas de risco". E os moradores que voltaram para suas casas depois que a água baixou - e que passaram pelo esforço de limpar e recuperar a casa e os pertences - foram retirados de suas casas durante o feriado. E remanejados pro "Abrigo Único".

A enchente não afetou a classe média e alta que reside em Porto Velho. A cheia alagou as casas, plantações e criações de populações já vulnerabilizadas, que viviam às margens do Madeira sem acesso a água tratada e encanada, sem esgoto, sem iluminação pública, sem asfalto, sem coleta de lixo regular. Esse cenário agora é chamado de "área de risco". Se antes essas populações vulnerabilizadas não eram atendidas pelo Estado, agora são proibidas de retornar aos seus lugares e obrigadas a esperar que o Estado providencie compensações. Não querem indenização em dinheiro: querem terra e casa.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Por que os desabrigados repudiam o Abrigo Único

No "Abrigo Único" de Porto Velho, gerido pela Defesa Civil de Rondônia através da pessoa do coronel Gilvander Gregório, o desabrigado pela cheia do Madeira recebe um "tratamento de choque", como diz o próprio gestor do abrigo. Gregório foi portariado para gerenciar o Abrigo Único por duas semanas. A hierarquia no Abrigo Único é composta por dois degraus: Coronel Gregório no primeiro, os desabrigados todos no último (segundo o coronel, ele tem o dever de dar o mesmo tratamento a todos os "maconheiros, drogados, prostitutas, bandidos, encostados ... e pessoas de bem"). Não há comissões, grupos de articulação, esboços de organização interna.

O abrigo tem a função de liberar as escolas dos desabrigados que habitavam as suas salas de aula (há depoimentos de escolas que nunca foram tão limpas como no tempo em que os desabrigados pela cheia moravam lá), para que o ano letivo iniciasse. Acontece que muitos desabrigados preferem ficar nas escolas (onde há paredes, rede elétrica, sombra, espaço para os animais etc.) a migrar para o Abrigo Único.

Luis e eu, enquanto professores da UNIR, conseguimos o que nem a imprensa conseguiu: entrar no abrigo e entrevistar as pessoas. Via de regra, quem tem como endereço o Parque dos Tanques não tem autorização para dar entrevista e só recebe visita no horário de visita. Chegamos lá num domingo, junto com a chuva.

O acampamento parece um campo de concentração: todos são monitorados por câmeras, ninguém entra depois das 22:00, as famílias não podem cozinhar a própria comida e estão à mercê das marmitas que chegam e dos apitos do coronel autorizando que as pessoas na fila possam pegar suas marmitas. Não há móveis nas barracas, não há termômetro que registre a temperatura lá dentro, não há quem suporte o calor no interior das barracas expostas ao sol.

Pedimos para entrevistar algumas pessoas de bairros e comunidades diferentes. As pessoas que entrevistamos foram trazidas pelo gestor do abrigo. Um deles, morador do Triâgulo, que sofreu ano passado e retrasado com o desbarrancamento, não se declarou insatisfeito no Abrigo Único. Relatou que depois das 18h a usina (Santo Antônio) abre suas comportas e a terra treme no Triângulo. A casa dele estava entortando. Para ele, o abrigo chega a ser melhor que a casa que ele teve que deixar pra trás.

Apenas um entrevistado disse que quer voltar para a sua casa no bairro da Balsa. Todos os outros entrevistados estão desterrados, desenraizados. Não voltam para suas casas por causa da lama por toda parte, por causa dos peixes apodrecendo na lama, do fedor, da contaminação dos poços pelas fossas, da inacessibilidade (nunca teve estrada pra Linha 19 em Joana Darc), da plantação e dos animais que morreram.

Todos, no Abrigo Único, esperam. Que o governo dê casa, que a casa não seja de placa, que o tempo passe logo. Um entrevistado nos disse que se sentia como se estivesse no purgatório. Estão sendo "pacificados" para aceitarem de bom grado qualquer medida compensatória que vier.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Hiato: ocupamos a usina de Santo Antônio

No dia 17 de abril, a partir das 8:00 aconteceu, no Mercado Cultural, na região central de Porto Velho, a assembleia popular dos atingidos - organizada pelo MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens).
Nela, lideranças das comunidades atingidas (marcaram presença as lideranças da Reserva Extrativista Lago do Cuniã; São Carlos do Jamari; Comunidade do Trilho, Linha do Ibama, Linha Sta. Inês e loteamentos em Jacy-Paraná; Jacy-Paraná; Curicacas; Reassentamento Santa Rita; Reassentamento Morrinhos; projeto de Assentamento Joana Darc; Bom Será; Ilha de Belo Monte; Itacoã; Bom Jardim; Tira Fogo; Igarapé do Tucunaré; Nazaré; bairros: Nacional, São Sebastião e Balsa) e representantes de movimentos sociais (MAB, MPA, MST, CPT, CONACOBAM) deram seus depoimentos de violações de direitos humanos ocorridas antes, durante e após a catástrofe ambiental que é a "cheia do Madeira" (coloquei entre aspas, porque não se trata de um fenômeno natural e imprevisível). Estes depoimentos, além de reivindicações dos atingidos, foram incorporados na Carta do Madeira, lida e aprovada ao final da assembleia.
É preciso ainda registrar a presença e o apoio do MPF e de professores da UNIR (inclusive a reitora e o chefe de gabinete) tanto no microfone como na plateia.

Foto: Daniela Moreira
Depois da assembleia popular, todos os presentes (aproximadamente 600 pessoas) entraram em vários ônibus que se puseram em movimento. Eu só descobri nosso destino quando já estávamos em movimento: a usina de Santo Antônio.
Foi a primeira vez que todos nós ali presentes pudemos passar da cancela e entrar no território da usina. O carro de som ficou no pátio do estacionamento, assim como todos os outros veículos.
Caminhamos aproximadamente 1 km até a barragem. Como eu não estava na frente, não sei qual foi a reação dos operários e responsáveis na usina com a nossa chegada. Lembrei do evento ocorrido em 2000 no Rio de Janeiro, quando moradores de rua e de favelas entraram pela primeira vez num shopping. Registrei que quase todos que usavam uniformes nos filmavam e fotografavam.
Quando chegamos perto da água, todos ficamos impressionados com o que vimos. Aquilo não era mais o rio Madeira, não era mais a Cachoeira de Santo Antônio. Aquilo era o reservatório da usina de Santo Antônio.
Um senhor levantava os braços e bradava: "Acabou tudo, minha gente. Acabou tudo."
Dali nos dirigimos ao refeitório da planta em busca de água, porque o calor do meio-dia era intenso e estávamos expostos ao sol escaldante.
Os trabalhadores da usina já estavam manifestando seu descontentamento com as condições de trabalho: reduziram a jornada, planejam greve. Quando chegamos com muitas mulheres e crianças, quando chegamos sem medo, quando chegamos em marcha, eles devem ter se animado.
Mas não se misturaram. As negociações com os imediatos da planta (os dirigentes do consórcio não ficam ali, apenas os contratados e subcontratados das empreiteiras) foram se desenvolvendo enquanto as pessoas usavam os banheiros e tomavam água.
Ficou acertado que seria servido almoço para todo mundo. Entramos no refeitório que lotou com a nossa presença.
Foto: Daniela Moreira
Enquanto eu decidia se ia pegar sobremesa, vi, pela porta de entrada, que a Polícia tinha chegado. Não eram muitos (12), o que nos deu a segurança de que não tinham vindo para nos tirar de lá à força.
Fomos muito fotografados pelos policiais e seus P-2. Uma comissão de cada uma das três posições (nossa, da usina e da polícia) se reuniu para discutir como proceder. Ficou agendada uma reunião com os dirigentes da usina Santo Antônio para discutir a responsabilidade dos consórcios sobre os impactos causados desde a implementação das usinas e a garantia de que haja compensações pelo dano causado.
O dirigente do MAB fez o encerramento da nossa visita-ocupação da usina e fomos transportados pelos ônibus da UHE Santo Antônio até os nossos ônibus, que nos aguardavam do lado de fora da guarita. A imprensa chegou quando os ônibus estavam saindo, mas ainda conseguiu coletar algumas entrevistas. 

O Diário da Amazônia impresso de 18 a 22 de abril apresentou uma matéria sobre a "invasão" do canteiro de obras da hidrelétrica. No formato digital do mesmo jornal, as últimas notícias são de ontem e anteriores ao evento.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Jacy-Paraná

A 70 km de PVH, a fila de caminhões parados do outro lado de Jacy-Paraná era enorme
Estacionamos o carro
... e seguimos de voadeira (a R$ 5,00 por pessoa) para Jacy-Paraná
O impacto ambiental sobre Jacy é causado por Santo Antônio, já que a barragem de Jirau fica acima de Jacy
Vê-se que a água já baixou um pouco
O linhão (de energia) entre as árvores, cortando a paisagem
Visitamos a Comunidade do Trilho, estabelecida ao longo da carcaça da antiga Estrada de Ferro Madeira-Mamoré
Todos nos mostraram seus poços e como a água está engordurada e fedida
Suspeitam que o cemitério (que está abandonado à própria sorte) esteja contaminando a água dos poços devido à elevação do lençol freático - ocasionada pela retenção de água a montante de Santo Antônio

O impacto social em Jacy foi causado por Jirau: a população de 4 mil subiu para 24 mil habitantes. Com o número elevado de homens na cidade, cresceram prostituição, estupros, doenças venéreas e Aids. Aqui, os desabrigados foram alojados nas escolas e nos cabarés
Sabíamos que a Santo Antônio Energia tinha disponibilizado voadeiras gratuitamente para a população. Quando procuramos essas voadeiras, as 4 estavam estacionadas em Jacy. Quando chegamos do outro lado, havia uma fila de gente esperando a voadeira gratuita.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Para voltar a ver o rio


ENTRE RIOS from Caio Ferraz on Vimeo.

Acima, documentário de Caio Ferraz (2010) sobre dois rios paulistas que foram redesenhados em função do trânsito por automóveis. Abaixo, citação de Juliano Pessanha sobre o olhar para a cidade de dentro do automóvel - e fora dele.
“E foi junto da mesma bicicleta azul, durante uma incursão desolada e repleta de ressentimento pelos bairros de Vila Gomes e Rio Pequeno, que eu, ao cruzar uma pequena ponte, uma quase-pinguela, notei que ela estava esburacada e cheia de rachaduras e que os homens-carro a atravessavam rapidamente sem olhar para o chão esburacado e eles cruzavam como se estivessem numa avenida e então, nessa noite, compreendi que o homem quer dizer Esquecimento.”
Juliano Garcia Pessanha (“Certeza do Agora”, São Paulo: Ateliê Editorial, 2001) 

quinta-feira, 27 de março de 2014

Cota e quinhão

Cota significa, na linguagem técnica que os rondonienses aprenderam a usar nos últimos meses: o nível da água do rio. O mesmo Rio Madeira tem diferentes cotas em lugares diversos.

 No mapa se vê, na fronteira com a Bolívia, Abunã. Seguindo o curso do rio, vê-se a UHE Jirau (antes de Jaci-Paraná), a UHE Santo Antônio que fica a 7km de Porto Velho e Humaitá, já no estado do Amazonas.

Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), as cotas estão subindo a cada dia nos diversos pontos:
       
             Abunã   Jirau  Santo Antônio Porto Velho  Humaitá
18/02     23,68   88,33      69,89           17,76          23,95
19/02     23,77   88,33      69,93           17,82          23,58
20/02     23,88   88,55      69,88           17,87          23,61

21/03    25,29    89,22      69,47           19,36          25,14
22/03    25,38    89,36      69,48           19,41          25,58
23/03    25,49    89,51      69,52           19,47          25,18
24/03    25,53    89,51      69,55           19,53          25,24
25/03    25,54    89,54      69,55           19,60          25,26
26/03    25,52    89,53      69,44           19,63          25,29
27/03    25,50                                       19,66          25,33  

A partir desses dados, pode-se observar que em um mês as cotas dos reservatórios de Jirau e Santo Antônio não sofreram grandes alterações, ao passo que houve um incremento de quase dois metros na cota dos outros pontos do rio (Abunã a montante de Jirau, Porto Velho e Humaitá a jusante de Santo Antônio). Pode-se observar também uma leve queda da cota em Abunã nos últimos 3 dias e também uma leve queda nas duas UHEs nos dois últimos dias em que houve divulgação de dados.

Na cidade de Porto Velho, o trânsito é constantemente remodelado: rotas antigas estão sendo tomadas pelos igarapés, novas rotas são desbravadas. Moradores que usam a Estrada de Santo Antônio como única via de acesso estão prevendo o isolamento. As águas que entram pelo rio Madeira ou pelos igarapés estão contaminadas (não há saneamento básico na cidade: cada casa tem sua fossa, cada prédio/condomínio tem seu córrego). Nos abrigos (escolas e igrejas) só tem cesta básica e os desabrigados, que já se sentem menos gente, ficam sem mistura. Ouvi relatos de crianças pedindo frango em supermercado.

Será que nada disso era previsível? Em Jaci-Paraná, todas as obras de compensação erigidas pelo consórcio Energia Sustentável do Brasil (ESBR), responsável pela usina de Jirau, estão embaixo d´água. Todo asfalto que está submerso agora está se dissolvendo e precisará ser refeito. Todas as casas alagadas estão condenadas. Ambos os consórcios investiram em compensações antes e reparos agora. Pode ser que tenham gastado muito (para os nossos padrões pedestres), mas as usinas ganharam muito com a cheia.
Pelo gráfico publicado no boletim diário da ANA, pode-se observar a linha pontilhada que indica a cota de emergência segundo a CPRM de 16,68m e a linha preta que indica a cota do rio ao longo dos meses. Observa-se claramente a variabilidade do rio conforme o regime de chuvas na Amazônia e um pequeno detalhe: a partir de fevereiro, a linha preta disparou.

Em fevereiro, a UHE Santo Antônio desligou 11 turbinas e deixou de vender sua mercadoria (megawatts) para o governo (que paga R$ 78,87), para quem 70% da energia gerada é repassada. Continuou operando com 7 turbinas, que geraram energia para ser vendida no mercado livre (em que o mw/h está custando por volta de R$ 828,00). Na última semana de fevereiro, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) determinou que todas as turbinas de Santo Antônio fossem desligadas.

Agora, as usinas simplesmente não estão ganhando rios de dinheiro, mas tiveram o seu quinhão quando a cota estava alta nos reservatórios devido à retenção de água.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Sobre obviedades irrelevantes

Replico aqui um texto Roberto Smeraldi, publicado em: http://amazonia.org.br/2014/03/a-senhora-de-la-palice/

A Senhora de La Palice
18 de março de 2014    

De Roberto Smeraldi*

O Senhor de la Palice, marechal do rei Francisco I de França, se tornou desde o século XVI ícone da obviedade irrelevante, da afirmação de alguma verdade tão redundante que acaba desviando do que interessa. Tanto que seu epitáfio reza: “se não tivesse morrido, ainda estaria vivo”. Uma típica argumentação lapaliciana é aquela, por exemplo, de negar terminantemente o que ninguém disse, na ausência de elementos para poder afirmar alguma coisa sobre determinado assunto. A história mostrou depois que a fama do marechal foi causada mais por seus ajudantes de ordens: mas até hoje ele carrega o estigma.

Algo do gênero parece ter ocorrido com assessores da nossa presidente em ocasião de sua recente passagem pelos estados de Rondônia e Acre, para sobrevoar áreas alagadas. Mandaram a presidente afirmar em tom alto que “é absurdo atribuir às usinas a culpa pela cheia do Madeira”. Como discordar disso? Ora, se há muita água é porque houve muita chuva nas cabeceiras. Trata-se de uma frase tão óbvia que obrigaria até uma liderança dos black-blocs e o dono de um banco multinacional a assinarem juntos.

A visita da presidente visava atender obrigações imediatas de chefe de estado, como aquela de conhecer de perto uma conjuntura de calamidade e a de anunciar os devidos socorro e solidariedade para as populações atingidas. O que ela fez, ou prometeu fazer logo. Possivelmente queria se limitar a isso. Ou, caso quisesse ir além, inclusive para assegurar que é preocupação presidencial saber o que pode acontecer no futuro frente a situações como esta, podia determinar que se realizem estudos e projeções de cenários que deixaram de ser realizados, ou utilizados, quando do licenciamento das usinas.

É fato que os gestores do licenciamento na época assumiram a responsabilidade explícita de desconsiderar o parecer assinado por seu próprio corpo técnico, que alertava para a falta de estudos sobre os impactos do novo regime hidrológico nas beiras do rio à jusante do empreendimento (é o caso de Porto Velho). É também fato que os mesmos gestores assumiram a responsabilidade de desconsiderar parecer contratado pelas próprias empresas, a pedido do Ministério Público, que alertava sobre o efeito da curva de remanso (é o caso da Bolívia e de parcela de território brasileiro a montante de ambas barragens, incluindo a rodovia). E ainda é fato que tais gestores assumiram a responsabilidade de desconsiderar as consequências da mudança de localização da usina de Jirau sobre a cota do reservatório de Santo Antônio, negando de antemão que existissem. A tais três fatos, acrescente-se que se resolveu não estudar, talvez por considerá-lo improvável, um cenário com vazão como aquela que acabou sendo atingida logo neste primeiro ano após o início da operação de ambas usinas.

Anunciar que, embora tardiamente, se estudariam tais questões com consistência e transparência, pelo menos com o objetivo de controlar ou limitar ocorrências futuras, seria a opção mais prudente por parte da presidente. Até porque estaria alinhada com a decisão cautelosa do Operador Nacional do Sistema elétrico (ONS), que há semanas já resolveu suspender a geração de energia nas usinas em decorrência da atual situação. Ao desconhecer – pois ninguém estudou – quais impactos as usinas têm sobre um cenário de vazão como aquele atual, o ONS entendeu que devia eliminar o risco de agravar ainda uma situação já emergencial. Das duas, uma: ou o ONS agiu irresponsavelmente, ao interromper indefinidamente um serviço importante para o país e que sabidamente não guarda relação com a calamidade, ou agiu com prudência, justamente porque ignora como se dá esta relação.

E aqui vem o assunto de interesse público que a assessoria palaciana não deveria dispensar com motes lapalicianos. Não interessa à sociedade discutir da culpa da cheia, e sim saber como o conjunto das usinas interage com ela. Lembre-se que neste ano, ou seja no início de seu ciclo de operação, estamos ainda lidando apenas com a variável água. Progressivamente, nos anos vindouros, passaremos a lidar com a variável água e com a variável sedimentos, na medida em que os mesmos se acumularem, pois aquele sobrevoado pela presidente é o rio com maior carga sedimentária do mundo, contribuindo com apenas 15% do volume de água do Rio Amazonas, porém com 50% de seus sedimentos.

É isso que Ministério Público, Defensoria Pública, OAB, assim como instituições da sociedade civil organizada que se dedicaram a estudar o tema querem saber. É isso que o ONS assume desconhecer quando interrompe a geração elétrica, apesar de se tratar do momento mais favorável para a mesma, e portanto com expressivos prejuízos econômicos resultantes (até porque as usinas já custaram aos cofres públicos mais do que o dobro do valor previsto quando se decidira construi-las). E isso também pode acabar com a peculiar troca de acusações entre os dois consórcios – ambos com empresas estatais como principal acionista – que não perdem ocasião para reforçar que, se fizeram algo errado, só foi para se defender de algo pior feito pelo outro.

O que a cheia histórica do Rio Madeira sugere é de acabar logo com este desconhecimento. O pior cenário é o de conviver com uma perspectiva de vulnerabilidade episódica do território nas cheias – que inviabiliza qualquer investimento e planejamento – e, ao mesmo tempo, com o desligamento periódico das usinas nos momentos mais propícios para a geração elétrica, como forma de mitigação parcial dos impactos a jusante, mesmo sem saber se isso tem efeito.

* Roberto Smeraldi, 53, jornalista, é diretor da OSCIP Amigos da Terra – Amazônia Brasileira.

domingo, 16 de março de 2014

Dilma e o lobo

Ontem (sábado, 15 de março) a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, esteve em Porto Velho para apreciar a extensão da enchente que ainda não recebeu a devida atenção no Brasil. Ontem foram registrados 19,5 metros acima do nível normal do rio Madeira - e a tendência ainda é subir. Ela sobrevoou o Rio Madeira e só então acolheu o pedido de calamidade pública pleiteado pelo prefeito da cidade.

Segundo matéria publicada na Folha, Dilma colocou a culpa pela cheia histórica do Madeira na Natureza, isentando as usinas (Santo Antônio e Jirau) de qualquer responsabilidade pelo desastre que é
(i) o isloamento do Acre por terra,
(ii) o alagamento extenso de Bolívia, Acre, Rondônia e Amazonas,
(iii) os desalojados e desabrigados que perderam seu chão, casa e território e
(iv) as futuras doenças que virão depois que a água baixar.

Dilma defendeu as usinas usando a fábula do lobo e do cordeiro (na versão de La Fontaine, porque a de Esopo não apresenta a argumentação baseada na posição do cordeiro e do lobo em relação ao rio) da seguinte forma: o cordeiro argumenta que está abaixo do lobo, portanto não pode ter sujado a água que o lobo bebe. Para Dilma, a Bolívia está acima, "sujando" nossa água. E as usinas, pergunto eu: onde estão? Fora do rio? Santo Antônio fica 7 km acima da capital de Rondônia e a energia acumulada ali vem em linha reta contra Porto Velho (que fica na curva do rio). Santo Antônio fica acima do Baixo Madeira - que agora está dentro do Madeira.

O terceiro parágrafo do texto da Folha explica: não é a Bolívia que precisa ser responsabilizada, mas as chuvas que caíram na Bolívia. Na fábula, o lobo representa o tirano que impõe sua razão arbitrária para satisfazer seus desejos e o cordeiro representa a vítima. Nas palavras de Dilma, a chuva é o tirano que impõe sua razão arbitrária para satisfazer seus desejos e o povo ribeirinho é a vítima. E as usinas? Para Dilma, estão fora de questão, estão fora do rio Madeira.

A moral da história (porque as fábulas sempre trazem uma moral) contada por La Fontaine ficou assim na tradução de Ferreira Gullar:
Onde a lei não existe, ao que parece,
a razão do mais forte prevalece.
Na história de Pedro e o lobo, de Prokofiev, que igualmente existe em várias versões, temos novamente dois pólos. Se no Lobo e o cordeiro os pólos eram ocupados por vilão e vítima, o lobo de Pedro está num pólo e no outro estão Pedro e o pássaro e o pato e o gato e o avô e os caçadores. Contudo, o lobo nessa história não é vilão, é apenas um lobo subordinado às leis da Natureza. E Pedro, pássaro, pato e gato não são vítimas, mas um coletivo doméstico que, sem preparo algum, mas com muita vontade de se divertir, se aventura na natureza selvagem.

Na história contada pelo músico russo, Pedro tinha sido proibido pelo avô de passar (sozinho) da cerca que delimitava a floresta. Pedro abre a porteira na cerca e o pato, gato e pássaro o seguem, felizes por poderem explorar uma nova região. Na versão da Disney, Pedro tinha 6 anos e queria caçar. Ainda nessa versão, ao entrarem no terreno desconhecido, o pato vê o lobo em todos os lugares - o que não se confirma - e todos brigam com ele. Essa briga barulhenta chama a atenção do lobo que vem e engole o pato (o pato é vítima fatal em todas as versões). Pedro então rapidamente traça um plano com o pássaro de capturar o lobo e salvar a todos de suas garras.

Implantar usinas hidrelétricas de fio d'água nos rios amazônicos significa, metaforicamente falando, atravessar a cerca que separa o mundo conhecido e controlado da floresta em que há um lobo. Sair destemidamente à caça do lobo e levar outros desavisados consigo é irresponsável como foi irresponsável construir e fazer funcionar duas usinas numa das maiores sub-bacias amazônicas apesar da escassez de estudos apontada por vários órgãos, inclusive o Ibama. Abrir a porteira sem antes calcular os riscos foi tão desastroso como liberar as licenças para as usinas com estudos de impacto contestados. Por isso, através de uma liminar, a Justiça Federal determinou no dia 10
que as usinas Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, atendam as necessidades básicas - moradia, alimentação, transporte, educação e saúde - das famílias atingidas pela cheia do rio Madeira que moram acima de cada uma das hidrelétricas, sob pena de multa diária de R$ 100 mil para cada uma delas.

Segundo o juiz federal Herculano Martins Nacif, da 5ª Vara Ambiental e Agrária de Rondônia, há vínculo entre a cheia histórica do rio e as usinas instaladas no local. A decisão também prevê que um novo estudo de impacto ambiental seja feito no local. (Fonte: Folha 11/03/2014)
Os ribeirinhos e (sócio)ambientalistas foram os primeiros a prever as inundações e os desbarrancamentos. Suas vozes não tiveram eco nas audiências com os consórcios nem fora delas. Os ribeirinhos foram removidos, reassentados, desalojados, desabrigados primeiro. Como o pato que previu a desgraça e pagou o preço, os ribeirinhos pagaram o pato.

O lobo de Pedro não é o vilão, mas a conjuntura desfavorável. As chuvas deste ano foram mais intensas em janeiro/fevereiro que nos anos anteriores. As usinas não previram tanta chuva e não reagiram a tempo. Represaram a água que vinha da Bolívia (inundando tudo pra cima das usinas), Santo Antônio represou a água entre as usinas e aumentou sua cota de produção de energia em pleno dilúvio e ambas não reconhecem que, mesmo tendo diminuído a intensidade das chuvas aqui, a água do rio continua subindo.

Ninguém jamais culpou as usinas unica- e exclusivamente pela cheia do Madeira. A ação delas provavelmente teve o mesmo peso que a ação das chuvas. Mas as chuvas não assinam termo de responsabilidade, contrapartida, compromisso moral e social.

Dilma tem um compromisso com o assim-chamado desenvolvimento. No âmbito do PAC, o governo federal liberou recursos para a construção das usinas de Santo Antônio e Jirau. Quando Dilma relembrou a fábula do lobo e do cordeiro, ela foi porta-voz do empresariado: O mais forte sempre encontrará pretexto para fazer a sua razão prevalecer.


quinta-feira, 13 de março de 2014

A água da cidade

Estação de Captação de Água da CAERD em Porto Velho
O nível da água do Rio Madeira continua subindo. Muitos distritos do Baixo Madeira estão submersos: São Carlos está embaixo d`água até os telhados, Nazaré, que fica na curva do rio, teve suas casas levadas pela correnteza. Os desabrigados do Baixo Madeira estão vindo para Porto Velho. Luis e eu notamos até mesmo um leve aumento dos preços de aluguel em algumas imobiliárias.
UHE Santo Antonio

A água da cidade é tratada pela CAERD, que tem sua estação de captação no rio Madeira e está sofrendo para se isolar do rio que está comendo a cidade (no ano passado houve os desbarrancamentos, agora a inundação).
Quando Luis e eu chegamos, quase moramos numa casa e quase moramos num apartamento no centro com vista para o rio. Nas duas quase-moradias, a água era de poço artesiano. Sabemos que no Norte a incidência de contaminação de água de poço é grande, por isso preferimos água da Caerd (mas não foi por isso que não ficamos naquelas quase-moradias - a estória é longa). Agora já não sabemos mais se a Caerd está conseguindo tratar a água que sai da torneira do apartamento em que moramos na Avenida Rio Madeira.

Desastre é resultado de uma convergência de desvios e erros

Bairro Nacional
O posto debaixo d`água

A Farquar ficou interrompida