segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Bacuri

Jairo precisava de uns documentos impressos. Fazia muito tempo que eu não pedalava. Imprimi os papeis que a Siomara mandou, botei numa pasta, botei a pasta no alforje e fui encher os pneus da Amarilda. Passei óleo na corrente e um pano no selim e manoplas. Vesti minha bermuda acolchoada, prometi pro marido que tomaria muito cuidado e parti para a comunidade Maravilha, na margem esquerda do rio Madeira.

Atravessei a ponte sobre o Madeira pedalando no (meio) acostamento e peguei a estrada de terra. Vi árvores caídas e me dei conta que ter escolhido a bicicleta como veículo tinha sido uma boa aposta. Um quase-tornado tinha varrido Porto Velho 2 dias atrás e agora eu via os estragos.

Na primeira grande poça tinha uma moto parada. O casal montado nela estudava a situação. Passei devagar por eles e atravessei a poça pedalando. Sujou as pernas. A segunda grande poça era contornável por um caminho lateral. Depois dessa, não cruzei com mais ninguém na estrada. A terceira poça era um lamaçal revolvido que preferi não encarar. Desmontei da bicicleta, empurrei pela "praia" à direita e voltei à estrada.

Jairo, que costuma pedalar esse caminho (a mãe dele mora perto aqui de casa) se espantou que eu tivesse me atirado nessa aventura. Pois a aventura ainda nem tinha começado...

Agradeceu pelos materiais impressos e explicou que a ata que eu tinha trazido precisava constar - manuscrita - no livro de atas. Disse que a caligrafia dele era tão feia que teriam levar a ata num médico, pra decifrar o que estava escrito. Me prontifiquei a copiar a ata para o caderno de atas. Se peguei malária, foi ali, concentrada na transcrição do texto.

Como agradecimento, Jairo me deu frutinhas. Que frutinha é essa? Bacuri. Mas bacuri não é menino? É. E hoje é dia das crianças.

Voltei correndo contra o tempo. Quando cheguei na ponte, escureceu. E começou a chover. Tive que desmontar da bicicleta e empurrá-la pela via dos pedestres, porque não há acostamento (nem meio acostamento) para quem volta para PVH. Toda a lama em mim ou na Amarilda foi lavada pela chuva. Liguei as luzinhas da bicicleta e me integrei ao trânsito. Na subida pela Costa e Silva até a Farquar, um mar de lixo dominava a avenida. Os motoristas, apreensivos, aceleravam, espalhando ondas de água com lixo para os lados. A cidade não tem sistema de drenagem.

Quando cheguei no cruzamento com a Jorge Teixeira, tinha parado de chover. Em casa, o asfalto estava seco. Abri a porta de casa e vi a apreensão do Luis. Estava preocupado por eu chegar no escuro e por não ter ligado. O celular estava no alforje (e não abri o alforje por causa da chuva). No banho, senti o corpo todo tenso.

O azedinho doce do bacuri alegrou a ciclista cansada e trouxe adjetivos positivos à boca do Luis.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O passarinho e a gaiola

Sábado passado Luis e eu compramos um pintagol. Na loja, Luis escolheu esse passarinho por causa do canto, não porque se tratava de um pintagol. Descobrimos que ele era um híbrido de canária com pintassilgo mais tarde, através da internet.

Trouxemos o passarinho com o maior cuidado pra casa e escolhemos um lugar para ele: a varanda. Tivemos medo de expor demais o passarinho ao vento - e quando ventou forte, o trouxemos pra dentro de casa. Aos poucos, o passarinho foi se soltando. Só cantou como cantava na loja quando tocamos para ele o som de outros pintagóis que encontramos no Youtube. Ao som de outro pintagol, reagiu furioso: cantava forte e todas as suas penas se eriçavam (especialmente as do topo da cabeça, formando um topete). Ao som de canários, reagiu tranquilo. Ao som de uma pintagol fêmea nos presenteou com um espetáculo: passou a pentear suas penas freneticamente. Girava no poleiro, quase caía, asseava as penas das asas, cabeça, peito, tudo, contorcendo-se para ficar apresentável.

Estudamos nosso passarinho por horas. O passarinho tem 4 dedos em cada pé: 3 numa direção e outro opositor. No pé direito dele, reparamos que o dedo opositor não agarrava o poleiro. Pensamos em adaptar o poleiro mais grosso para ele, porque parecia grosso demais, já que o pé direito dele escorregava constantemente desse poleiro. Cheguei a inserir um hashi na gaiola, mas as cores de cobra coral em volta do hashi devem ter assustado o nosso passarinho.

Fomos dormir sabendo que tínhamos um animal doméstico em casa. Na manhã seguinte, pensei em levantar e ir ver o passarinho quando acordei às 6h. Mas daí eu pensei que 6h era muito cedo pra ficar em pé e decidi nem levantar. Mas Luis levantou em seguida e foi ver o passarinho.

Na versão dele, ele queria me trazer o passarinho porque tinha me ouvido falar no dia anterior que eu tinha muita vontade de tocar o passarinho, mas que não dava, por causa da gaiola.

Luis ficou parado na porta do quarto, com as duas mãos perto do coração. Explicou que o passarinho deu uma bicada pontiaguda na mão dele, se soltou e saiu voando em direção à escola. Não sabíamos se o passarinho tinha passado os dois anos de vida dele dentro da gaiola ou se tinha sido capturado. Não sabíamos se ele saberia se virar no mundo fora da gaiola.

Descemos com a gaiola vazia e fomos, às 6:30h, em pleno domingo, para a escola ao lado do nosso prédio. O guarda nem ouviu a história do passarinho até o fim. Foi abrindo a porta e nos deixou procurar o nosso passarinho. Confiávamos que seríamos capazes de reconhecer nosso passarinho sem nome pelo canto. Pela primeira vez, me dei conta de que todos os passarinhos cantam - e que há muitos passarinhos lá fora. O que antes era ruído, paisagem sonora, de repente ganhou contornos variados e precisos.

De tarde, reconhecemos o canto do nosso passarinho. Da varanda do sexto andar, Luis identificou um passarinho que voava desajeitado e pousou na churrasqueira. Descemos com a gaiola vazia, o saco de comida de passarinho, uma camiseta para jogar em cima dele e muita esperança de poder dar segurança ao nosso passarinho esfomeado e sedento e assustado, coitado. O passarinho se mostrou mais esperto e ágil que nós. Levamos a gaiola e o computador para a churrasqueira e tocamos todos os videos de pintagol para o nosso passarinho empoleirado num arco do ginásio da escola.

Na tarde do dia seguinte, chegamos a comer na churrasqueira ao som de pintagóis que saía das caixas de som. O nosso passarinho aparecia, olhava pra gaiola vazia, cantava, voava, cantava e desaparecia. Pouco antes do anoitecer, vimos o passarinho no muro que separa esse prédio do outro prédio. Passamos horas conversando com ele, brincando de esconde-esconde. Quando escureceu, ele se retirou para o prédio vizinho. Calculamos a hora em que ele estaria dormindo, com a cabeça encolhida e a guarda baixa e fomos, com a gaiola vazia, até o prédio vizinho. Para a nossa surpresa, o guarda noturno era criador de passarinhos, tinha vários curiós e conhecia pintagol. Na área de lazer do prédio vizinho, procuramos os três, com lanterna, pelo passarinho. Deixamos a gaiola vazia com o porteiro, na esperança de ele identificar e capturar o nosso passarinho de manhã, assim que ele começasse a cantar.

Na manhã seguinte, Luis buscou a gaiola vazia na nossa portaria. Todos os dias, o passarinho cantava e nós descíamos para conversar com ele. Já não levávamos a gaiola, comida, computador, porque percebíamos que deveríamos desistir da ideia de colocar o nosso passarinho de volta na gaiola. Ele estava voando bem, não escorregava dos fios ou galhos em que pousava e estava sobrevivendo à chuva e tempestade.

Hoje temos certeza de que ele sabe onde nós estamos: já o vimos empoleirado em cima do prédio atrás do nosso (de frente pra nossa varanda) e no nosso prédio (olhando para a janela da cozinha, do outro lado da casa). De certa forma, não conseguimos nos desligar dele: mesmo não sendo capazes de alimentá-lo ou protegê-lo (agora já não sabemos mais de que), descemos toda vez que o ouvimos e acompanhamos seu voo e seu canto. Numa vez que desci para ver nosso passarinho, fui seguindo-o até ser impedida de continuar: cheguei na grade que separa a piscina do resto do prédio. Olhando por entre as grades para o nosso passarinho, tive a estranha sensação de estar dentro de uma gaiola.

sábado, 27 de setembro de 2014

Abre-te, gergelim

Luis tinha jogado gergelim e chia num vaso. Foi crescendo uma planta que não sabíamos o que era. Aí ela formou flores brancas e essas cápsulas que se mantiveram verdes e fechadas durante um mês, aproximadamente.
Gradativamente as cápsulas foram secando (a temperatura média em Porto Velho é de 30º). Ajudei uma a se abrir e vi que cada cápsula era formada por quatro corredores de onde iam saindo os gergelins.
Não contei quantos saíram dessas cavernas, mas não me surpreenderia se fossem 40...

sábado, 20 de setembro de 2014

Ingá

Fui na feira e perguntei pro moço da banca de produtos orgânicos:

- Quanto é o ingá?
- Um é dois, dois é três.
- Me dê um, por favor.
- Pode escolher, patroa.
- Não sei escolher ingá.
- Então leve esses dois. E Deus lhe abençoe.
Eu nunca tinha comido ingá. Gostei.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Tudo bem, sem problema

O telefone toca de manhã, eu atendo. Uma voz embolada me diz:
- Desculpe, mas não posso hoje de manhã. Ontem eu me estressei muito, aí eu tomei um remedinho e não consegui levantar ainda. Podemos marcar pra hoje de tarde, se não for muito incômodo?
- Tudo bem, sem problema.

Horas mais tarde, vou ao restaurante e sento numa mesa perto da janela. Chega uma família com uma menina pequena, de 3 anos aproximadamente, fazendo birra. Pai e mãe instalam-se na mesa ao meu lado, a menina fica no meio do caminho, de costas para os pais. O pai conversa, chama a menina para a mesa. Ela vai sendo conduzida para a mesa a contragosto, reclamando que a cadeira é dura. A menina ajoelha na cadeira, deita a cabeça em cima da mesa e esconde o rosto. O pai suspira e pergunta se ela quer que ele busque a cadeira dela. Vira-se para mim e pergunta:
- Você se importa de trocar essa cadeira aí ao seu lado por essa daqui? É que a gente sempre senta nessa mesa e ela acha que essa cadeira aí do seu lado é mais macia.
-Tudo bem, sem problema.

domingo, 14 de setembro de 2014

Nosso jardim suspenso

Vista para fora da nossa sacada

"The constant gardner"

Meu jardineiro fiel

Feijão azuki e jambu

Nossa primeira colheita de feijão!

Pimentas que ganhamos de espólio da Fran

sábado, 13 de setembro de 2014

Memória compartilhada

Tenho a impressão que conheci melhor meu sogro depois que ele faleceu. Pessoas que o conheceram 30 anos atrás compartilharam estórias vividas (com ele) em suas infâncias. A impressão que eu tinha do meu sogro foi ampliada: não lembro dele apenas no passado recente, mas imagino como ele foi no passado remoto. Todas as memórias dele, vividas ou construídas, foram trazidas ao presente.


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Labirintos UNíRicos*

L foi na DGP para pedir um estagiário para auxiliá-la nas tarefas administrativas do PIBID. L foi orientada a fazer a solicitação de estagiário na PRAD ou PROPLAN e foi explicado a ela que se a PRAD ou PROPLAN aprovassem o pedido, ela receberia currículos de candidatos a estagiário, dentre os quais ela poderia escolher um - que seria então contratado pela DGP.

L escreveu e enviou o mesmo memorando para a PRAD e para a PROPLAN. Da PROPLAN não recebeu resposta, da PRAD recebeu um e-mail encaminhado para a DPI, pedindo ao responsável que verificasse se havia orçamento para esse tipo de programas (PIBID). L aguardou. Veio resposta da DPI diretamente para L. Não havia orçamento de estagiário para o PIBID, e que, para esclarecer quaisquer dúvidas, L deveria dirigir-se ao coordenador geral do PIBID.

L respondeu que é a coordenadora geral do PIBID.

Caminho sem saída.

L escolheu outra via: pegou o telefone, ligou para o gabinete da PROPLAN e explicou sua demanda de estagiário. Foi orientada a reenviar o memorando solicitando estagiário e assim o fez. Esperou. Nada aconteceu. Pensou que tivesse entrado em outra rota sem saída. Ligou novamente para a PROPLAN e ouviu como resposta que o despacho já tinha seguido para a DGP havia duas semanas.

L encaminhou-se para a DGP, mas não havia ninguém lá. O estagiário da DGP lembrou do caso e mostrou a L o seu memorando com o despacho da PROPLAN anexado. Segundo o estagiário, assim que as responsáveis na DGP voltassem de viagem, o trâmite seguiria seu curso normal.

Nada aconteceu nas duas semanas seguintes.

L regressou à DGP e perguntou quando lhe ofereceriam diversos currículos de candidatos para que ela escolhesse um estagiário. A resposta foi desconcertante: a estagiária já tinha sido contratada e já estava trabalhando. No NUCSA. Foi sugerido a L que fosse ao NUCSA para negociar a estagiária contratada com o coordenador de projeto de pesquisa.

Pressentindo que o caminho até o NUCSA significaria um beco sem saída desgastante, L foi ao gabinete da PROPLAN, expor a situação. Caminhou com o pró-reitor até a PRAD, onde estava encalhado o processo de contratação da estagiária. A pró-reitora explicou a L que a estagiária ainda não tinha sido contratada, já que havia problemas no processo: o PIBID está subordinado à PROGRAD, não ao NUCSA. A pró-reitora pegou o telefone e ligou para a DGP. Foi combinado que L passaria na DGP para decidir se aceitava a estagiária.

L foi dar sua aula de sexta à tarde. Na sala, encontrava-se a estagiária. L perguntou a ela se concordava em estagiar no PIBID. Sim. Foi à DGP e avisou que aceita que sua aluna seja contratada como estagiária do PIBID.


* Por mais que "UNíRicos" remeta a sentimentos diáfanos e tranquilizadores, e por mais que essa história não tenha nada de onírica e se assemelhe mais a um pesadelo, não pude deixar de gostar do trocadilho.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Propaganda em tempos de crise

A imagem das duas usinas instaladas no rio Madeira anda bem abalada depois da cheia do Madeira. Desalojados e desabrigados durante a cheia afirmam que a cheia foi intensificada pelos impactos das usinas.

Para se defender das chamadas à responsabilidade, afirmam que o desastre foi da Natureza. O governador do estado de Rondônia e a presidenta do Brasil ecoam que a cheia foi natural. Tenho observado que foi adotada uma nova estratégia de defesa - especialmente pela Santo Antônio Energia, que fica a 5km do centro da capital do estado.

Em 15 de julho o Jornal Diário da Amazônia noticiou que 30 taxistas de Porto Velho visitaram a UHE Santo Antônio. Quem tiver curiosidade de ler a matéria, que clique ali. Explicaram aos taxistas, que são pessoas que conversam com muitas pessoas por dia, que a energia gerada pela usina era capaz de abastecer 1,4 mi de residências. Será que mencionaram que essa energia gerada aqui vai direto pro linhão que atravessa o Brasil e chega em Araraquara (SP)? Será que mencionaram que a energia gerada aqui não abastece residências, mas a indústria eletrointensiva? A matéria menciona o sindicato dos taxistas e um taxista que opera no aeroporto. Potenciais multiplicadores de propaganda da usina.

Hoje o mesmo jornal noticia um evento que a Eletrobras promoveu: palestras e visita à usina. Quem são os multiplicadores da vez? Jornalistas. Isso mesmo. Agora os jornalistas são capacitados para escrever sobre as usinas usando como fonte fidedigna (e exclusiva) a própria usina. A jornalista entrevistada confirmou minhas suspeitas: "[...] elaborar matérias sobre e para o setor elétrico não é tarefa fácil [...]". Eu entendo que essa segunda preposição, em negrito, tem um valor de "encomendadas por": matérias encomendadas pelo setor elétrico para tranquilizar os leitores do jornal.

Microclima

Imagem do GoogleMaps
Desde a consolidação do reservatório de Itaipu (que é gigantesco), instalou-se na região um microclima. O regime de chuvas ficou completamente alterado na região. Aqui em Porto Velho tem chovido extraodinariamente muito nessa época do ano.

Nas usinas do rio Madeira (UHE Santo Antônio e UHE Jirau) não há reservatórios de acumulação como em Itaipu, mas o que os especialistas chamam de "pools". As duas usinas estão instaladas no mesmo rio, uma depois da outra. O reservatório da UHE Santo Antônio termina na UHE Jirau e o reservatório da UHE Jirau termina - segundo o que está escrito nos documentos - na linha imaginária que separa o Brasil da Bolívia. "Pool" então é fazer da extensão do rio um reservatório. Então não podemos explicar as chuvas excessivas (com direito a ventania, raios e trovões) pelo acúmulo de água no reservatório.
Fonte: Agência Nacional de Águas (ANA).
Observando o gráfico da ANA, vemos que a linha rosa marca as máximas históricas de cheias do Madeira em Porto Velho. A linha verde, mais harmônica, marca a média de permanência da água no leito do rio ao longo do ano. Pela linha verde, observa-se que o rio enche até março, vaza entre abril e agosto, está mais seco em setembro e volta a encher a partir de outubro. Neste mesmo gráfico, a linha preta indica o nível da água do rio Madeira em Porto Velho em 2014, o ano da grande cheia. O pico da cheia foi no fim de março, em maio houve repiquetes que se acentuaram em junho e julho e em agosto o nível está baixando, mas ainda assim acima do máximo historicamente registrado nessa época do ano.

Há muita umidade no ar - que condensa e precipita por volta das 15h. Se não fossem as usinas, não teria havido a supercheia. Se não fosse a supercheia, estaríamos na estiagem.

sábado, 2 de agosto de 2014

Estradas na Amazônia

Jairo no barco
Há quem diga que as estradas na Amazônia são os rios. Se isso foi verdade enquanto a Amazônia era verde, não é mais hoje. A migração massiva nos anos 70-80, a depredação (de madeira, minérios e dos rios pelas barragens) e agora o estado de exceção instaurado pela cheia de 2014 são justificativas para abertura de estradas sem estudo de impacto ou expedição de licença.

Estrada recém aberta
Posso lembrar de dois exemplos de estradas encaradas como grande solução depois do isolamento provocado pela cheia de 2014: a estrada Parque, que foi anunciada nos jornais como grande solução para ligar Guajará-Mirim à BR 364, artéria do estado de Rondônia; e a estrada que liga a BR 319 ao Maravilha e Niterói. Mas dessa última estrada ninguém ouviu falar, nem mesmo as autoridades competentes.

A Estrada Parque, a BR 421, atravessa o Parque Estadual de Guajará-Mirim (área de proteção integral). Este parque é residência de indígenas da etnia Karipuna e sabe-se que há na região indícios de índios não contactados pelos brancos (o termo "isolados" é corrente, mas o mais justo seria: "resistentes à modernidade capitalista"). A estrada tinha sido interditada como resultado do trabalho do Ministério Público Federal de Rondônia em março de 2014 com o argumento de que era preciso preservar a vida da/na floresta. No mesmo mês a estrada foi reaberta, inviabilizando a área de proteção integral. Depois que as águas baixaram e a BR 364 foi liberada, não se teve notícia da reversão dessa decisão que fere frontalmente direitos conquistados pelos povos indígenas. Pelo contrário, as manchetes de jornais locais comemoram que a Estrada Parque "está garantida".

Estrada sendo "cascalhada"
Jairo e família tinham ido passar o Natal no sul e foram se demorando por lá. Veio a cheia e eles decidiram ficar lá até as águas do Madeira baixarem. Quando Jairo voltou, teve grande surpresa: uma estrada nova atravessava os fundos (fundiária) de suas terras e as terras de seus vizinhos. Entendeu que a estrada nova é uma solução encontrada pela especulação fundiária/imobiliária estimulada pela construção da ponte devido à inviabilidade da estrada da beira (que foi tomada pelo rio Madeira e pela lama e acabou ficando muito perto da barranca devido à erosão das praias e barrancas). A estrada atravessa o Maravilha e chega em Niterói, onde surgiram muitos lotes. O problema é que a estrada fragiliza ainda mais a porção mais preservada da APA (Área de Proteção Ambiental) Rio Madeira. A comunidade Maravilha é uma das poucas áreas próximas a Porto Velho que contém manchas de floresta densa e olhos d'água.
Ponte que leva à margem esquerda do rio Madeira
Fomos na SEMA (Secretaria do Meio Ambiente), saber se tinham expedido licença (resultante de estudos de impacto) para esta estrada que foi aberta pela SEMAGRIC (Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento). Disseram que não, que deveríamos nos dirigir à SEDAM (Secretaria Estadual de Desenvolvimento Ambiental), mas que se houvesse licença, a SEMA saberia. Além disso, no IBAMA,  ficaram surpresos ao ouvir sobre essa nova estrada. A questão é que existe agora uma ligação direta e rápida entre Porto Velho e a APA do Maravilha.

A entrada da estrada pela BR que vem da balsa (enquanto a ponte não é inaugurada) igualmente não parece regulamentada: além de não haver placa, não há acesso: quebraram a guia da BR na largura da estrada nova e pronto.
A guia da BR 319 foi quebrada para servir de entrada para a estrada
Caminhão da Semagric fazendo estrada
Será que existe licença para essa estrada?
Irmãos, primos, cunhados, vizinhos e parceiros se juntaram para discutir maneiras de minimizar os efeitos da estrada e evitar grilagem. Com a estrada, vem gente. Não necessariamente gente preocupada em preservar o meio ambiente (os mananciais, fauna e flora nativas) e viver da terra de maneira integrada.
Reunião
Quando fomos conferir se as placas ("Propriedade particular" e "Área de proteção ambiental") que Jairo tinha colocado na beira da estrada ainda estavam lá, flagramos três pessoas destruindo as placas. O senhor (em destaque na foto) que liderava o grupo afirmou que aquelas terras à direta da estrada eram dele e que ele também não foi consultado se concordava com a abertura da estrada ali.
Suposto dono da terra
Agora todos vão ao INCRA, verificar se esse homem tem mesmo título de terra ali.

Rio sem praia

Praia no Maravilha 2012
O primeiro amigo que Luis me apresentou foi o Jairo (e família: Siomara, Jarina e Uirá) que mora no Maravilha que fica do outro lado do rio Madeira, na altura do Belmont. Em 2012, as praias que se formam nas margens do rio Madeira na época da estiagem estavam desbarrancando devido ao impacto da usina de Santo Antônio.
Desbarrancamento já em 2012
Os ribeirinhos costumavam plantar nessas praias (a terra é fértil) durante a vazante e colher antes que o rio voltasse a encher. Havia maxixe plantado quando fui lá a primeira vez. Desde que as usinas fecharam o rio a passaram a controlar a vazão do rio, não tem mais havido praia (nem cultivo) no rio Madeira.
Porto do Jairo em 2013. Foto: Luis

Porto do Jairo em 2013. Foto: Luis
Ano passado, Luis voltou a visitar o Jairo enquanto eu estava em Santa Maria. As fotos do porto do Jairo (acima: antes e abaixo: depois) apontam para os efeitos da cheia de 2014.

Barranco íngreme, sem praia em 2014
Como a praia sumiu, a estrada da beira do rio (que leva da balsa/ponte até a casa do Jairo no Maravilha) está na beira do barranco. Nem tiramos fotos por causa da adrenalina de passar de carro naquelas poças de água parada desde a enchente.
Barranco íngreme e com árvores mortas em Belmot
O que vimos foi uma paisagem predominantemente marrom: a marca da água da enchente, as árvores mortas, o rio revolvido, a vegetação arrancada.
A praia sumiu depois da cheia

terça-feira, 22 de julho de 2014

O jornal cheio de vazio

Sonhei que os donos e editores de jornal tinham consciência da importância do seu trabalho e valorizavam a inteligência de seus leitores. No meu sonho, os jornais tinham sido censurados pelos anunciantes que compravam espaço no jornal para vender sua propaganda. Como resposta à censura, a edição daquele dia que eu sonhei veio diferente: o jornal aberto media 2m de altura e quase um metro de largura. A maior parte desse espaço era preenchida de vazio, e as matérias, escritas em letra e tamanho normal, ocupavam pequenas manchas quadradas espalhadas de maneira pouco estética pela página.

Lembro de ter me admirado, durante o sonho, da engenhosidade: em vez de diminuir o tamanho do jornal (o que seria uma consequência necessária se não publicassem todos os anúncios, que devem girar em torno de metade de todo o volume informacional publicado no jornal), espicharam a folha e evidenciaram o vazio. Dessa forma, os anúncios não foram apenas retirados, mas substituídos por espaços vazios dez vezes maiores que os anúncios.

Acordei empolgada, achando que todo mundo tinha entendido a mensagem.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Acabou o carnaval

Vi os gols da Alemanha contra o Brasil, mas não lembro de ter visto a comemoração dos jogadores alemães - ou da torcida alemã. A câmera da Fifa enfocava o choro, o desespero e o susto dos torcedores brasileiros. Assisti o jogo transmitido pela Globo e não registrei as vaias da torcida brasileira, nem os olés que outras emissoras mostraram.

Enquanto Casa Grande e Ronaldo Fenômeno comentavam que o Brasil não tinha feito grande campanha, não tinha mostrado serviço nessa Copa, Galvão Bueno dizia que "assim é o esporte". Júlio César, o goleiro que tomou 7 gols, deu depoimento de que era "complicado explicar o inexplicável".

E quando, no Jornal Nacional, que dedicou 80% de seu tempo à Copa, os comentaristas (que falaram por último) foram explicar o que aconteceu na semifinal de hoje, quase todos atribuíram a responsabilidade pelos "erros" ao treinador que escalou mal o time. Detalhe: em bloco anterior (e notavelmente longo) Felipão assumira a total responsabilidade pela derrota. Mas considero importante destacar que desses 80% de tempo de Jornal Nacional dedicados à Copa, apenas 10% foram avaliações de pessoas que recebem salário para fazer avaliações. A maior parte das avaliações foi feita pelos torcedores.

A capa da Folha online traz, nas imagens cambiantes, um quadro com imagens de 8 pessoas: 1 homem e 7 mulheres da torcida com o rosto contorcido de dor. Tanto Patrícia Poeta como Galvão Bueno rasgaram elogios para a torcida (que cantou "sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor" incansavelmente e aplaudiu os jogadores da Alemanha no final do segundo tempo). Mas a atuação da Tropa de Choque no Mineirão foi silenciada na Globo.

A máscara (do hexa, do Brasil campeão, do orgulho da camisa) caiu. Todas as propagandas em que os jogadores brasileiros (que recebem salários astronômicos para - segundo David Luiz: "alegrar o povo brasileiro") aparecem como herois parecem agora a mais pura enganação. Todas as cidades-palco decoradas de verde-amarelo, todos os figurantes que torceram pelo time, pelo país e pelo sonho, acreditando na importância do seu papel, foram pegos no contrapé porque os atores em campo não desempenharam seu papel conforme o script. Porque os jogadores deixaram claro que até então estiveram atuando, não jogando futebol campeão de Copa.

domingo, 6 de julho de 2014

O livro e a mensageira

Da Bolívia, Luis e eu fomos para Campinas. Como eu ficaria mais tempo na cidade (para participar do GEL), me hospedei na casa de Telmo e Milena; Luis seguiu para Cachoeiro de Itapemirim (ES). O Telmo eu conhecia desde os primeiros anos em que morei em Barão Geraldo: foi co-fundador do Campinas Cicloviável e sempre se interessou por mobilidade e acessibilidade urbana, cicloativismo e bicicletas. A Milena eu sabia descrever em poucas palavras: companheira do Telmo, dança no grupo Excaravelhas, muito simpática.

Todas as manhãs, era a Milena que estava de pé, fazendo café, indo pra aula, sentando pra conversar. Foi numa dessas conversas na cozinha que ela me contou a história do pai.

Seu pai, Luiz Antônio de Figueiredo, era escritor. Foi aluno e colega de grandes nomes na Crítica Literária e seus livros contam com prefácios e posfácios de autoridades no campo das Letras. Morreu faz um mês aproximadamente e Milena estava ainda engajada no trabalho de separar seus livros e discos, além de avisar as pessoas que o pai tinha falecido. Quando ainda estava na casa do pai, chegou uma carta endereçada a Luiz Antônio. Era de Antônio Cândido. Milena abriu a carta e leu que Antônio Cândido se desculpava por demorar a dar um retorno sobre a última obra de Luiz Antônio, porque afinal estava com 100 anos de idade e a leitura se tornava uma tarefa difícil. Milena sabia que o pai tinha morrido esperando por essa carta de Antônio Cândido.

Descobriu o telefone do remetente da carta, juntou coragem e ligou. Foi ele mesmo quem atendeu. Ela estava nervosa, ansiosa por falar com Antônio Cândido sobre a morte do pai. Conforme a conversa ia sendo fiada, ela foi se sentindo mais à vontade, até perceber que o telefone, que antes a separava de seu interlocutor, agora os unia. Desligou o telefone confortada e encantada com a candura e cortesia de Antônio Cândido.

Terminou a história dizendo: "agora só preciso encontrar mais um professor que escreveu um posfácio no último livro do meu pai e ainda não tem um exemplar do livro. Por acaso você conhece o Ataliba?" Dei risada, porque eu tinha almoçado na mesa ao lado da dele no dia da abertura do GEL. Conferimos a programação e Milena se programou para ir ao Gel depois de uma mesa-redonda em que Ataliba Castilho mediava a fala de uma professora portuguesa que tinha acabado de lançar os dois primeiros volumes de uma Gramática do Português.

Naquela noite Milena estava cansada. Avisou por mensagem que não viria. Na plateia, localizei Rodolfo Ilari, que em seguida lançaria uma reedição de seu primeiro volume da Gramática do Português Falado - Classes de Palavras (em que há, no segundo volume, um capítulo sobre a preposição escrito por Ataliba, Ilari, Maria Lúcia, Renato e eu). Tanto Ilari como Ataliba me olhavam como se soubessem que sabiam que tinham esquecido quem eu era. Depois de tê-los cumprimentado, lembraram. Contei pro Ataliba da Milena, do pai e do livro posfaciado. Ficou muito triste com a notícia e perguntou como ele poderia entrar em contato com a Milena. Respondi que ela lhe escreveria um e-mail.

Torço para que Milena e Ataliba se encontrem face a face. Assim o mundo das Letras/palavras se concretiza na língua-viva, como diria Bakhtin.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

As fotos do Photoshop

Graças à boa vontade da minha mãe (que tem Photoshop e sabe usar), recupero e compartilho as fotos que fiz em La Paz. Nesta ruela colorida há vários museus e lojas de artesanato.
Pico do Ilimani. Disseram que o Chacaltaya (mais de 5.000m de altitude), que subimos em 1992, não tem mais neve no topo.
 
 A ida para o centro se mostrou mais rápida a pé...

domingo, 29 de junho de 2014

Passear: uma questão de perspectiva

Para o meu marido (nascido no Peru e filho de peruano), "passear" não significa admirar paisagens, mas saborear comidas tradicionais, especialmente quando se trata de comida andina.
Sopa de pollo com batata desidratada (a preta) no café da manhã
Quando eu fui "passear" por La Paz, tirei fotos das vielas com lojas de artesanato coloridas, museus e centros culturais, das avenidas abarrotadas de carros asiáticos velhos, micro-ônibus enfeitados e pessoas costurando pelos espaços vazios.
Saltenha se come de manhã
Tirei fotos decentes do Ilimani, fotos noturnas da cidade vertical (acho que preciso explicar: La Paz fica numa cratera povoada de cima a baixo. De noite, quem está no centro, vê as luzes da cidade envolvendo a cidade) e do teleférico.
Mercado Lansa
Quando fui ver as fotos que eu tirei, tive uma surpresa desagradavelmente amarga: todas estavam num formato esquisito (srw) que nenhum dos programas que tenho no computador consegue ler. Ficamos, pois, com as imagens do passeio gastronômico.
Meu mate (chá) de coca.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Em La Paz

Ilimani no horizonte
Dia 26 foi o dia de apresentar trechos do que será o nosso filme coletivo "O silêncio do Madeira". Carlos e Rodrigo se esforçaram muito para terminar o "Relatos de Torrentes & Caudales" a tempo de exibi-lo durante a cerimônia de Paraninfo em que Luis fez uma fala brilhante sobre ciência, desenvolvimento e as usinas fio d'água nos rios amazônicos. A comoção gerada pela fala dele foi tal que não houve espaço nem ocasião para a exibição do filme.

No dia seguinte, no âmbito do evento Megaprojetos nos rios amazônicos, ambos os filmes encontraram seu público. O filme deles tinha 25 minutos, o nosso, que ainda está em processo, tem 9 - e os dois se mostraram complementares.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Tempo e fuso

Luis e eu saímos de Porto Velho de noite rumo a Rio Branco. Como a balsa estava na mesma margem que nós, a viagem de ônibus só demorou 8 horas. Entre Jacy-Paraná e Abunã quase não havia asfalto (que se dissolveu com a cheia) e logo depois de atravessar o Madeira de balsa igualmente havia pouca aderência das rodas à brita que jogaram na via para atenuar o lamaçal.

Ainda estava escuro quando entramos no táxi que nos levaria à divisa com a Bolívia. Os nossos relógios marcavam 6:00, mas no Acre o fuso é diferente. O taxista relatou a peleja que foi fixar um terceiro fuso no Brasil, porque afinal de contas o sol somente desponta quando Rondônia marca 7:00, já que o Acre está situado mais a oeste que Rondônia.

Na divisa (Epitaciolândia), fomos deixados na Polícia Federal poucos minutos antes do estabelecimento abrir (às 8:00, que no meu relógio eram 9:00). Atravessamos a ponte (que mais parece um portal), entramos em Cobija e regressamos ao horário de Rondônia. Isso mesmo: quando são 8:00 em Brasília, são 7:00 em Rondônia, 6:00 no Acre e 7:00 de novo na Bolívia.

Em La Paz o dia começa depois das 7:30. Às 7:00 ainda estava escuro e não havia viv'alma na rua. Às 7:30 vi telhados brancos e uma pessoa caminhando na rua. 15 minutos depois ouvi carros, depois crianças entrando na escola. Então começaram as buzinas, sirenes, alarmes que seguem até o sol se por. As temperaturas aqui variam entre 1ºC e 13ºC. Estamos no mesmo fuso que Porto Velho, mas num clima completamente diferente.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Manifestações durante a Copa

No primeiro jogo da Copa, a Croácia jogou contra a FIFA, não contra o Brasil:
  • o único gol dos croatas foi anulado em virtude de uma falta no mínimo polêmica, 
  • a cotovelada de Neymar foi punida com cartão amarelo e não expulsão, 
  • todos concordam que Fred não sofreu falta, portanto não merecia pênalti, mas cartão amarelo pela dissimulação.

No Jornal Nacional, Galvão Bueno disse que o pênalti não alteraria o resultado final que era a vitória do Brasil. A edição de ontem do Jornal Nacional foi, exceto pelo boletim do tempo, unicamente dedicada à Copa. Não foi apresentada outra notícia além de novelinhas ligadas ao futebol.

E as manifestações? E o "não vai ter Copa?" A Globo não mostrou nada. Não é que não teve: teve muito pouco em comparação com a Copa das Confederações do ano passado.

Os croatas depredaram o vestiário depois do jogo. Os croatas agora são vândalos, arrauceiros, baderneiros, Black Bloks? Os jogadores da Croácia foram injustiçados e jogaram um jogo comprado, apitado por um juiz vendido. A Globo não mostrou, portanto não existiu.
Imagem encontrada na Carta Capital
No finalzinho da abertura da Copa, o curumim, uma das 3 crianças que soltou pombas brancas do meio do campo de futebol, ao retirar-se campo, abriu uma faixa exigindo demarcação das terras indígenas. A televisão não mostrou essa cena. As manifestações estão acontecendo dentro do estádio - e a grande mídia não mostra.

Neste momento, os mexicanos estão jogando contra Camarões. A estimativa é de que o México seja um adversário mais ameaçador ao Brasil que os Camarões. A falta que rendeu a Neymar um cartão amarelo se repetiu nesse jogo e foi considerada como mera falta (e quem levou a cotovelada foi um mexicano). Dois gols (!) dos mexicanos foram injustamente - e a narração do jogo concorda que o juiz não fez jus ao ofício - anulados por causa de um impedimento que não existiu.

Se eu fosse a consciência dos jogadores mexicanos, não voltava do intervalo para o campo. Se a massa do povo não está nas ruas para se manifestar contra a ilusão que é essa Copa, espero que os jogadores que perdem do Brasil, da Fifa e dos juízes se manifestem.

Atualização: os mexicanos ganharam. Assim como os brasileiros ganharam ontem. Será que o placar influencia na disposição para se manifestar?

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O filme dos amigos bolivianos



Antes de chegarem aqui, os quatro companheiros do FOBOMADE (Fórum Boliviano de meio Ambiente e Desenvolvimento), Abraham Cuéllar, Andres Bustamante, Carlos Fiengo e Rodrigo Rodriguez que nos ajudaram - e muito!! - com filmagens, equipamentos, formatos de video e segredos de computadora filmaram a cheia do Beni.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Por que são necessários novos de estudos do Madeira?

Por que são necessários novos estudos de impacto das usinas hidrelétricas após a cheia do Madeira from Lou-Ann Kleppa on Vimeo.

O debate sobre os impactos causados pelas usinas hidrelétricas instaladas no rio Madeira foi de alto nível e muito bem visitado. Muitas pessoas chegaram cheias de perguntas e saíram com uma convicção: é preciso manter o questionamento sobre a responsabilidade pelo impacto desastroso. É preciso investigar e debater sobre o que significam as usinas na Amazônia, o que significa ser atingido, como reconstruir a vida cotidiana, a memória, o território.

domingo, 18 de maio de 2014

Deslocados

Pequeno video que eu fiz sobre como cada um olha para a catástrofe ambiental que foi a cheia do Madeira. Os desabrigados foram desalojados de suas casas pela água, abrigados em colégios e, especificamente as pessoas no Baixo Madeira, foram posteriormente removidas dos colégios pela Defesa Civil e despejadas em escolas de Porto Velho. Por um lado, o depoimento de uma pessoa deslocada à revelia várias vezes por motivos diversos.

Por outro lado, o senador federal de Rondônia, Valdir Raupp, procura por palavras para descrever a situação das famílias desabrigadas: "momento ... de tristeza, né?", "não está ... vivendo com dignidade". O mais flagrante no discurso dele é a equivalência entre "mudar" ("eu mesmo já mudei umas vinte vezes", "quem aqui já não mudou pelo menos umas duas vezes?") e "ser removido para um abrigo", "ser deslocado sem perspectiva de retorno", "ser desalojado por tempo indeterminado".


quarta-feira, 30 de abril de 2014

Área de risco

Quando Dilma veio aqui, a fábula do lobo e do cordeiro foi ativada. Luis fez uma paródia:
O lobo recrimina o cordeiro por sujar a sua água. O cordeiro argumenta que está a jusante do lobo, portanto não poderia sujar a água do lobo. O lobo responde: mas o rio é meu. Você está sujando o meu rio.

Fui numa escola-abrigo onde a comunidade resiste para não ser removida pra o "abrigo único" e ouvi um ribeirinho dizendo que sabia que estava em "área de risco" quando morava às margens do rio. Fiquei pensando quando é que foi que as margens do rio Madeira se transformaram em "área de risco". Foi a partir da instalação das barragens.

Dizer que as comunidades ribeirinhas precisam ser removidas de seus territórios porque estão em "área de risco" é tão absurdo como se, na época da colonização, os portugueses justificassem o extermínio dos indígenas dizendo: "vocês estão em área de risco. Vocês vão pegar nossas doenças, perder suas identidades, cultura e terras. Vamos remover vocês do mapa."

No caso dos colonizadores portugueses, é evidente que os brancos ofereciam risco aos indígenas. No caso dos mega-empreendimentos, isso não é evidente ainda. Os efeitos são chamados de "desastres naturais" e não se procura retraçar a rede causal.

As hidrelétricas se apossaram do rio Madeira. Os reservatórios das duas usinas são chamados de pools, porque não correspondem ao formato canônico de uma bacia perto da barragem. O reservatório de Santo Antônio foi projetado (não sabemos hoje quais são as reais dimensões do reservatório) para alcançar em média 271 km2 e o de Jirau 302,5 km2 (de novo, a chuva provocou uma cheia sobre a cheia, de modo que é difícil dizer qual é a extensão real do reservatório). Como essa extensão se distribui no espaço? O rio não chega a ter 1 km de profundidade, nem 5 km de largura (de uma margem a outra). Os reservatórios-pool compreendem toda a extensão do rio: o de Santo Antônio vai da barragem de Santo Antônio até a barragem de Jirau. Por isso Mutum-Paraná não existe mais: estava no reservatório de Santo Antônio. O reservatório-pool de Jirau vai da barragem de Jirau até a linha imaginária que separa o Brasil da Bolívia. Em suma: as usinas tomaram posse do rio.

Ao segurarem água em tempo de cheia, as usinas decidiram sobre o destino de quem estava a montante e a jusante. E tudo em volta das usinas virou "área de risco" porque as usinas oferecem risco. Se a gente quisesse cortar o risco pela raiz, teria que remover as usinas.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Não pode, porque fica na APP

Conforme se lê no Diário da Amazônia de hoje, famílias foram removidas pelo poder público e as suas casas de palafita foram destruídas. Os moradores foram remanejados para o "Abrigo Único".
Fonte: Diário da Amazônia

O motivo para a demolição das casas é que estão em área de risco. O motivo para a remoção das famílias é que a área toda em que residiam é uma APP (Área de Proteção Permanente) em que, conforme as palavras do secretário municipal do Meio Ambiente "não pode haver nenhuma atividade humana [...]. As APPs são destinadas a proteger solos e, principalmente, as matas ciliares. Este tipo de vegetação cumpre a função de proteger os rios e reservatórios de assoreamentos, evitar transformações negativas nos leitos, garantir o abastecimento dos lençóis freáticos e a preservação da vida aquática".

Onde foi mesmo que Jirau construiu as obras de compensação de Jacy-Paraná?
O telhado branco e a estrutura ao lado são obras de compensação em Jacy

Na APP que alagou.

Audio de palestra proferida por Luis Novoa




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Palestra proferida em 3 de abril sobre a catástrofe ambiental na UFAC (via skype).

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Nature x nurture

"[...] porque em janeiro caíram 800 mm de chuva na Bolívia, o que não é normal." (Fala do representante de Jirau na audiência na OAB no início de abril de 2014).

Aquelas chuvas que alagavam a minha casa quando eu morava na Rua Venezuela (a casa alagou 4 vezes enquanto morei lá: 9/nov/2009, 3/dez/2009, 31/dez/2009 e 10/jan/2010) eram de aproximadamente 120 mm. As três últimas aconteceram no período de um mês.

Dá pra dizer que 800 ou 500 mm de chuva num mês é normal? "Normal" é o que obedece a um padrão. E o padrão é ditado pelos dados passados. Se no ano que vem houver outra supercheia como essa de agora, a de 2015 será considerada normal em relação à de 2014.

O que não está sendo considerado com a devida seriedade é que o ciclo da Natureza está sendo paulatinamente alterado pela nossa ação no mundo. Assim, a Natureza deixa de estar separada do homem e passa a ser produto/efeito de sua intervenção. Mario Osava, em seu texto (clique ali para ler o texto na íntegra, aqui estão apenas fragmentos que recortei e colei) publicado pelo Envolverde/IPS, cita:
Transformar uma floresta em pastagem multiplica por 26,7 a quantidade de água que escorre para os rios e por 10,8 a erosão do solo, constatou em 1989 um estudo de Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Isso significa que metade da chuva que cai em pastagens vai direto para os rios, aumentando as cheias e a sedimentação. Essa perda diminui em proporção à presença de vegetação mais alta e de raízes profundas, segundo medições de Fearnside em terrenos com declive de 20% em Ouro Preto D’Oeste, município de Rondônia.
A tese de Marc Dourojeanni (entrevistado por Mario Osava e professor emérito da Universidade Nacional Agrária de Lima) é de que o desmatamento no Peru e Bolívia - e não a chuva que caiu na Bolívia - deve ser tomado como causa das alagações na Bolívia e no Brasil. Ou seja, a culpa pela enchente não é da chuva, mas daquilo que causou essa chuva excessiva. A complexidade está entrando em jogo:
Uma massa de ar seco e quente estacionou no centro-sul do país entre dezembro e março, bloqueando ventos que transportam umidade da Amazônia, e, assim, a precipitação se concentrou na Bolívia e no Peru. Esses eventos climáticos tendem a se repetir com maior frequência devido à mudança climática global, segundo climatologistas. O desmatamento afeta o clima e exacerba seus efeitos.
Ouvi muito o promotor do MPF-RO, Rafael Bevilaqua, dizendo que os consórcios que operam as usinas, estão sendo acusadas de causarem "dano objetivo", ou seja, faz parte das atividades de qualquer usina manejar grandes quantidades de água. Era responsabilidade dos consórcios fazer estudos que previssem essa chuva, assim como era responsabilidade deles ter um plano de ação para lidar com essas massas de água.

No entanto, os consórcios afirmam nada ter a ver com a catástrofe ambiental e culpam a Natureza. Acontece que a Natureza já virou cultura (nurture). Monoculturas e pastos:
Cultivar a terra “é pior” do que as pastagens, porque “limpa todo o solo”, eliminando inclusive a erva que alimenta o gado e retém um pouco de água, apontou Dourojeanni. Mas a pecuária compacta o solo pelo pisotear do gado, acelerando o escorrimento, acrescentou esse biólogo de origem norte-americana e nacionalidade brasileira que pesquisa a Amazônia desde 1974.
E mais adiante:
A Bolívia está entre os 12 países de maior desmatamento atual, revela um estudo de 15 centros de pesquisa divulgado pela revista norte-americana Science, em novembro. O país perdeu 29.867 quilômetros quadrados de florestas entre 2000 e 2012, indicam imagens obtidas via satélite e ferramentas do Google. A pecuária é um grande fator e se expandiu principalmente em Beni, fronteiriço com Rondônia. Ali teriam morrido 290 mil bovinos entre janeiro e fevereiro, segundo a federação local de pecuaristas. A avalanche hídrica ameaça inclusive a eficiência das usinas hidrelétricas.
Estamos nos acostumando a ver catástrofes no noticiário. O capitão do navio coreano que naufragou foi o primeiro a sair, deixando a tripulação à própria sorte. Ele achava que não tinha responsabilidade sobre os estudantes que morreram afogados. Santo Antônio aumentou a cota em pleno dilúvio para gerar mais energia. Tal como o capitão coreano, isentou-se da responsabilidade pelos afetados e "fez o melhor que pôde".

terça-feira, 22 de abril de 2014

Cota baixando e as áreas de risco

30 de março foi a data em que se registrou o pico da "cheia histórica" em Porto Velho: 19,74m acima do nível normal do rio. Agora as águas já baixaram aproximadamente 1 metro e o desafio é limpar o que sobrou da casa, as ruas e a orla da cidade.
Como a topografia aqui é plana, é preciso considerar essa cota em pelo menos duas dimensões: até certo momento, o rio se manteve na calha (fevereiro. No gráfico, a linha preta sobe e desce que nem agulha overlock). Depois disso, o rio espraiou, ultrapassou suas margens e inchou os igarapés que alimentam o Madeira. E foi essa horizontalização do rio que tirou as pessoas dos seus respectivos territórios.

As áreas alagadas são agora consideradas "áreas de risco". E os moradores que voltaram para suas casas depois que a água baixou - e que passaram pelo esforço de limpar e recuperar a casa e os pertences - foram retirados de suas casas durante o feriado. E remanejados pro "Abrigo Único".

A enchente não afetou a classe média e alta que reside em Porto Velho. A cheia alagou as casas, plantações e criações de populações já vulnerabilizadas, que viviam às margens do Madeira sem acesso a água tratada e encanada, sem esgoto, sem iluminação pública, sem asfalto, sem coleta de lixo regular. Esse cenário agora é chamado de "área de risco". Se antes essas populações vulnerabilizadas não eram atendidas pelo Estado, agora são proibidas de retornar aos seus lugares e obrigadas a esperar que o Estado providencie compensações. Não querem indenização em dinheiro: querem terra e casa.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Por que os desabrigados repudiam o Abrigo Único

No "Abrigo Único" de Porto Velho, gerido pela Defesa Civil de Rondônia através da pessoa do coronel Gilvander Gregório, o desabrigado pela cheia do Madeira recebe um "tratamento de choque", como diz o próprio gestor do abrigo. Gregório foi portariado para gerenciar o Abrigo Único por duas semanas. A hierarquia no Abrigo Único é composta por dois degraus: Coronel Gregório no primeiro, os desabrigados todos no último (segundo o coronel, ele tem o dever de dar o mesmo tratamento a todos os "maconheiros, drogados, prostitutas, bandidos, encostados ... e pessoas de bem"). Não há comissões, grupos de articulação, esboços de organização interna.

O abrigo tem a função de liberar as escolas dos desabrigados que habitavam as suas salas de aula (há depoimentos de escolas que nunca foram tão limpas como no tempo em que os desabrigados pela cheia moravam lá), para que o ano letivo iniciasse. Acontece que muitos desabrigados preferem ficar nas escolas (onde há paredes, rede elétrica, sombra, espaço para os animais etc.) a migrar para o Abrigo Único.

Luis e eu, enquanto professores da UNIR, conseguimos o que nem a imprensa conseguiu: entrar no abrigo e entrevistar as pessoas. Via de regra, quem tem como endereço o Parque dos Tanques não tem autorização para dar entrevista e só recebe visita no horário de visita. Chegamos lá num domingo, junto com a chuva.

O acampamento parece um campo de concentração: todos são monitorados por câmeras, ninguém entra depois das 22:00, as famílias não podem cozinhar a própria comida e estão à mercê das marmitas que chegam e dos apitos do coronel autorizando que as pessoas na fila possam pegar suas marmitas. Não há móveis nas barracas, não há termômetro que registre a temperatura lá dentro, não há quem suporte o calor no interior das barracas expostas ao sol.

Pedimos para entrevistar algumas pessoas de bairros e comunidades diferentes. As pessoas que entrevistamos foram trazidas pelo gestor do abrigo. Um deles, morador do Triâgulo, que sofreu ano passado e retrasado com o desbarrancamento, não se declarou insatisfeito no Abrigo Único. Relatou que depois das 18h a usina (Santo Antônio) abre suas comportas e a terra treme no Triângulo. A casa dele estava entortando. Para ele, o abrigo chega a ser melhor que a casa que ele teve que deixar pra trás.

Apenas um entrevistado disse que quer voltar para a sua casa no bairro da Balsa. Todos os outros entrevistados estão desterrados, desenraizados. Não voltam para suas casas por causa da lama por toda parte, por causa dos peixes apodrecendo na lama, do fedor, da contaminação dos poços pelas fossas, da inacessibilidade (nunca teve estrada pra Linha 19 em Joana Darc), da plantação e dos animais que morreram.

Todos, no Abrigo Único, esperam. Que o governo dê casa, que a casa não seja de placa, que o tempo passe logo. Um entrevistado nos disse que se sentia como se estivesse no purgatório. Estão sendo "pacificados" para aceitarem de bom grado qualquer medida compensatória que vier.