domingo, 26 de julho de 2015

Do outro lado do rio

Quando chegamos no sítio, Tucumã rosnou para nós. Conforme Luis conversava com o cachorro mencionando os nomes de Jairo, Siomara, Damian, Syrius (todos os alertas ligaram ao som desse nome), Tucumã se acalmava. Notamos a ausência das galinhas, mas elas são espertas: assim que a gente foi pra cozinha, elas apareceram.
O peixe grudou (o couro do tambaqui) na grade, então a solução foi assar o peixe como os gaúchos fazem churrasco. As galinhas não tiveram medo do fogo para resgatar o espólio.
Grande parte do nosso cuidado envolveu o coelho - que é coelha. Limpamos a casinha dela, demos água limpa e tentamos adivinhar o que ela come. Ela beliscava gramídeas e comeu um cará roxo cozido. Siomara ajudou, indicando por mensagem de celular o que ela come: poeirara, uma trepadeira que dá na beira do rio, estava com favas de feijão como ela descreveu e florzinhas roxas. A outra coisa que a coelha gosta de comer - para nossa surpresa - são flores de hibisco. O olhar, a curiosidade e a sabedoria da coelha me lembraram muito a Akari.
Cozinha ribeirinha: limão galego e macaxeira na bancada; lista de compras escrita na tábua, fósforos e vela para o caso de acabar a luz, ouriço de castanha para conter coisas variadas, panelas dependuradas, artesanal misturado com comprado pronto.

domingo, 19 de julho de 2015

Disk fogueira


Antes mesmo de escurecer, os meninos tinham coletado galhos e gravetos para a fogueira. Os palitos de fósforo e o óleo foram se acabando conforme progrediam as tentativas de acender a fogueira. Álcool não tinha, porque a porcentagem era baixa.
Lembro de terem tentado acender pão com óleo, latinha com óleo, jornal, mas nada pegava. Cada um de nós abanou aquelas chaminhas que não viravam brasa e logo se apagavam.
De tanto pelejarem, a mãe do Junior chamou um vizinho que trouxe um kit-fogueira: caixa de feira, palha seca, galhos secos. O rapaz agiu tão rápido, de forma tão determinada e profissional, que Luis brincou que tinham chamado o disk-fogueira.
Soraya Bolaños tocando sax
As batatas estavam ótimas, as conversas também. Para coroar, Soraya (namorada do Ruy) tocou um pouco de sax para nós. E assim os meus amigos e os amigos do Luis se misturaram.

Oca sempre viva

A Oca da Tapioca foi batizada assim pelo Ruy em 2002. Na época éramos muitos: Ruy, Hagar, Ferrone, Lígia, Ingrid, Rorô, Pablares, Junior e eu. Depois, em 2006 (acho), mudamos para uma casa menor. Eu estava na Holanda e todos praguejaram quando tiveram que carregar minhas caixas e caixas de livros. Se não fosse a minha mudança empacotada e o compromisso de levar as coisas da Lou para uma nova república, talvez cada um teria ido para o seu canto.

Agora no Gel, quando sentamos na mesa para contar quantas pessoas já passaram pela Oca, Ruy, Sales e eu chegamos a uns 26 - que eu não serei capaz de recuperar agora: Caldinho, Vanessa, Livinha, Elisabeth, Du, Gustavo, Kenia, Renata. Em 2009 fui pra Rondônia - com breve passagem por São Paulo, na Mônica, que me deu de presente a Akari. Quando o Junior foi pra China, a Oca da Tapioca se dissolveu.
Junior jogando bola com o cão: cãobol
Dia desses, Junior voltou da China depois de 4 anos. Ruy e Sales, que mantiveram contato com o gafanhoto na China por Whatsapp, foram ao seu encontro em Ribeirão (onde mora a família do Junior) e me avisaram. Expliquei pro meu marido que eu tinha muitas saudades dos meus irmãos tapioquenses. Marcão nos levou.
Sales querendo jogar
Junior continua o mesmo, o que me surpreendeu foi a irmãzinha dele, que virou uma exímia cozinheira. Ela fez um caldo de mandioca bem caipira, cocada, chocolate quente, tudo para garantir a comida caso a tradicional batatada não desse certo.

A pequena irmã do Junior é ótima cozinheira
Apesar de Ruy dizer que agora tem uma nova relação com os alimentos (palavras dele!), ele continua consumindo Coca-Cola e pedindo pizza de 4 queijos sem tomate e sem orégano. É verdade que ele emagreceu, mas não vi ele comendo nada de diferente.
Ruy e a Coca-Cola
Sales e Luis travaram uma longa conversa sobre o universo circense enquanto Junior jogava bola com o Ruy e os cachorros. Sem ter visto nenhuma apresentação do Jerônimo, Luis virou fã dele.
Sales, ou o palhaço Jerônimo
Foto: Ruy Braz
Quando Marcão veio nos buscar, convidamos nosso anfitrião a ficar para a fogueira e tradicional batatada. Aceitou de pronto.

sábado, 18 de julho de 2015

Em Ribeirão Preto

Kika e Pedro
Luis e eu fomos a Ribeirão Preto, visitar Marcão, Kika e as crianças. Os dois meninos são espoletas, muito ativos e, como se vê pelas camisetas que usam, adeptos do futebol.
Miguel e Kika
Kika e Marcão foram muitíssimo atenciosos conosco durante nossa estadia.
Marcão
Enquanto as crianças brincavam, nós tecemos longas conversas. Agradecemos por fazer parte da rotina deles por uns dias!

terça-feira, 14 de julho de 2015

Boldrini

Rafael e o pai
Madá (minha sogra) vinha a Campinas para acompanhar o Rafael (sobrinho do Luis) por causa de uma cirurgia no braço. Apesar do Rafael já ser maior de idade, diz o lema: uma vez Boldrini, sempre Boldrini. Rafael não tinha paciência para os hospitalhaços e seus presentinhos. Voltei de São Paulo a Campinas para dar uma força para a Madá.

Madá e eu fomos de ônibus até o Boldrini e ficamos mais tempo esperando nos pontos do que viajando dentro dos ônibus. Quando Luis chegou, alugamos um carro - o que facilitou bastante a vida da Madá e do Rafael - que saiu do hospital com muita dor na bacia, de onde parte do osso foi retitrada para ser enxertada no braço.

Dali a duas semanas Rafael tiraria os pontos. Como não valia a pena voltar a Cachoeiro e depois voltar a Campinas, ficaram em Campinas, na casa de Ernesto (irmão do Luis).

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Pastor de férias: dois cultos num domingo

Olga assumiu a tarefa de levar o pastor de Diadema a Santos, para fazer o culto, porque o pastor de Campo Grande está de férias. Convidou uma amiga da comunidade, a Márcia. Pra aumentar a trupe, me convidou também e fomos em 4 para Santos.
Eu ainda estava de cachecol e casaco, tossindo muito e tomando composto de mel e própolis.
 Almoçamos na volta, em Demarchi, num restaurante em que estava acontecendo um casamento.
De tardezinha, Olga e mais duas mulheres da comunidade Campo Grande celebraram o culto na Capela de Cristo no lugar do pastor Guilherme. Pra mim, igreja sempre foi comunidade. E a comunidade sempre foi uma segunda família.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Falando alemão no Museu da Língua Portuguesa

Prof. Dr. Rainer Enrique Hamel, Dep. Antropologia da UAM, México
No último dia do Gel, Rosana veio pedir a um dos seus orientandos se não podiam acompanhar o prof. Hamel até o Museu da Língua Portuguesa no sábado. O motorista levaria, tudo cortesia do evento. Nenhum deles reagiu animadamente, então me dispus: estarei em São Paulo no sábado, pode marcar na porta do museu.
Exposição Poesia Agora
Prof. Hamel proferiu (no Gel) conferência sobre o plurilinguismo e políticas linguísticas no tocante a publicações científicas. É fluente em portunhol, mas se sentiu mais à vontade para falar alemão comigo. E assim visitamos o Museu da Língua Portuguesa falando em alemão. E viva a diversidade linguística, não é mesmo?
Desafio: escrever poemas de acordo com a palavra-título do livro

terça-feira, 7 de julho de 2015

63. Gel

Minha apresentação no GEL (Grupo de Estudos Linguísticos) na sessão de Neurolinguística foi logo no primeiro dia, primeiro horário, de manhã. Aqueles que apresentaram depois de mim falaram sobre assuntos bastante heterogêneos: linguagem no envelhecimento, na afasia, na escola e mutismo (em diversas situações). Num simpósio (modalidade em que apresentei no ano passado), o tema era mais focado: jargonafasia.

Muitas perguntas e sugestões foram feitas sobre o que apresentei: interações fictivas na afasia. Percebo que nunca estou no mainstream do que se faz no IEL. Que eu saiba, sou a única no Brasil que abraçou e explorou até seus limites a Teoria da Adaptação (Kolk e colaboradores) e que eu saiba, sou uma das poucas que está fazendo a ponte entre a Neurolinguística Discursiva e a Linguística Cognitiva.
Além dos 4 (fora eu) que apresentaram, havia no público mais outros 4 orientandos da Rosana. As fotos foram feitas pela fotógrafa do evento e estão no site do Gel.
Pra mim, o Gel é um lugar de reencontro. Ilari, Ataliba, Pablo, Renato, Rosana, os orientandos da Rosana estão sempre no Gel. Elenir não pode ir nesse ano, uma pena. O Gel também proporciona reencontros fora do congresso: ano passado, fiquei na casa de Telmo e Milena; este ano fiquei hospedada na casa do Sales (também conhecido como palhaço Jerônimo), antigo morador da nossa república. Ruy, um dos mais antigos tapioquenses, me reconheceu na rua e colocamos as memórias da Oca da Tapioca em sintonia.

domingo, 5 de julho de 2015

Tempo e cuidado

04 jun 2015

fim de abril de 2015

dezembro de 2014


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Domingo na floresta

A ideia para o domingo era juntar um monte de gente e visitar a Reserva do Arirambas, do outro lado do rio. Luis fez um convite com mapa, indicando hora e local do encontro para atravessar a ponte. A mãe do Jairo já estava conosco no carro, o peixe já estava providenciado e, pontualmente no horário combinado, apareceu a Betânia. Depois, quando terminamos de comer o peixe, apareceu o Weder com a sobremesa.
Pra não dormir depois do almoço, empreendemos um passeio na floresta (esperamos o Weder almoçar primeiro, claro). Tudo pronto, resolvemos nos embrenhar na paisagem verde. Toca o telefone. Era Narcísio, o botânico. Chamei pra expedição, ele explicou: hoje é domingo, dia de descanso, passei a semana inteira em campo.
E lá fomos os seis, no ritmo da mãe do Jairo segurando sua sacolinha (ela queria coletar tucumã). Syrius, o cachorro, também foi junto, mas num passo diferente do nosso.
Jairo foi chamando atenção para as diferenças no solo e na vegetação, foi mostrando as árvores e madeiras, abrindo por vezes a trilha no facão e ajudando a atravessar os igarapés.
Tinha muitas (tipo assim: muitas!) borboletas pequenas e brancas voando pela mata. Betânia disse que algumas espécies de borboletas servem como bioindicador de presença humana no território. Achei curioso. Um louva-deus-pau pousou no braço da Betânia. Fiquei com medo de ele não tolerar a aproximação que a minha câmera requer, por isso não ficou tão nítida a imagem.
Nesta última foto não aparecem os peixes que eu vi nadando na água. Mas eu vi.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Jaci: múltiplos espelhos da Amazônia

Caio Cavechini veio a Rondônia para estrear o filme Jaci: sete pecados de uma obra amazônica nos dias 29 e 30 de maio de 2015. Antes disso, o filme estreou em São Paulo e no Rio pelo Festival É Tudo Verdade. O diretor queria prestar contas ao povo que possibilitou que o filme existisse, exibindo-o onde as imagens foram coletadas.

Em Jaci-Paraná, a divulgação do filme se deu de boca em boca, com a ajuda do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragem) e do CDCA (Centro de defesa da Criança e do Adolescente). As pessoas foram chegando aos poucos, se escorando pelas laterais do ginásio, esperando pacientemente que o filme começasse. Quando um membro do CDCA pegou o microfone para apresentar o diretor do documentário, as pessoas se despregaram das paredes e se aglomeraram em volta dos bancos. Quando o filme começou, muitos ainda estavam em pé. Depois das primeiras risadas, os bancos vazios da frente foram transferidos para trás e todos se acomodaram.

Um dos personagens do filme, Renílson, estava na plateia. Rindo e cochichando, as meninas da primeira fila apontaram para ele, sentado na outra ponta. Antes que o rosto da D. Maria aparecesse na tela, os homens sentados na minha frente adivinharam que a voz era dela. Quando apareceu a Dona Sílvia dizendo que "quem falar mal das usinas tem que apanhar", saltaram impropérios da boca do representante da Comunidade do Trilho, sentado atrás de nós. Ele também corrigiu o operário que tenta definir Jaci em uma palavra: "cidade do pecado". Gritou mais alto: associação comercial! - querendo dizer que a associação comercial de Jaci se transformou numa intermediação entre os interesses da associação comercial (em nome de Jaci-Paraná) e a ESBR (Energia Sustentável do Brasil, consórcio da UHE Jirau). O filme era um espelho com o qual o público interagia.

Depois da exibição do filme, abriu-se o debate e um jovem relatou que tinha ficado contrariado de ir à estreia do filme com base no que tinha visto no trailer, em que Jaci é retratada como cidade do pecado. Uma representante do MAB, com sua fala forte, reconheceu que Jaci agora tem esse estigma e se esforça para encontrar meios de resgatar a cultura local. A reitora da UNIR ressaltou que esse filme registrava o olhar de quem até então tinha sido objeto do nosso olhar. O espelho olha de volta.

Antes de ir embora debaixo de chuva forte, o coordenador do MAB presente avisou que espias da UHE Jirau tinham acompanhado a sessão.

Em Porto Velho, a divulgação da estreia do filme se deu praticamente apenas pelo Facebook. Na véspera, percebemos que o Audicine no SESC possivelmente não acomodaria todos e pedimos para que a exibição fosse feita no Teatro. Lotou. Durante a exibição, as pessoas reagiam em uníssono. Riam juntas, murmuraram logo que viram Moreira Mendes - coisa que em Jaci não aconteceu - e lembraram da cena vivida em 2011 dos operários de Jirau chegando na cidade de Porto Velho. A funcionária do SESC, que estava sentada do meu lado, comentou que alguém da UHE Jirau tinha ligado insistentemente para o SESC atrás de uma cópia do filme antes da estreia.

A última pessoa que conversou com o Caio no SESC pediu uma entrevista e agradeceu, revelando, somente ao se despedir, que trabalha para a assessoria de imprensa da Energia Sustentável do Brasil.

Como muita gente não tinha conseguido ir nas sessões de estreia, três dias depois, anunciamos uma nova exibição no auditório da UNIR Centro. Dessa vez, foi proposto ao público que não passassem desapercebidos alguns aspectos formais da edição (câmera, trilha sonora, o eixo central do filme etc.) e possíveis desdobramentos do filme. As pessoas se manifestaram  timidamente, contendo risos - em função talvez do ambiente universitário em que se deu a exibição.

A conversa que tivemos depois do filme, no entanto, foi aberta. Um dos rapazes que acompanhou o julgamento do operário Raimundo, acusado de liderar os "atos de vandalismo" em Jirau estava sentado na primeira fila do auditório. Contou que Raimundo, além de ter sido torturado pela polícia,  foi parar no presídio Urso Branco e hoje é dependente químico. Uma estudante de Psicologia confessou ter ficado impressionada com o abismo existente entre o que está nos livros sobre Psicologia do Trabalho e o que ela tinha visto na tela. Uma estudante de Engenharia Elétrica ficou chocada como a vida dos operários vale pouco no canteiro de obras. Um senhor insistiu que houvesse mais exibições desse filme em nível nacional. Ele entendia que a mídia local não cobriu/cobre satisfatoriamente eventos ligados às usinas ou às cheias do Madeira, permitindo que predominasse o senso comum de que a população foi inocente ao "permitir" a instalação das usinas. "É desinformada, e precisa ver esse filme!" Uma estudante de Letras disse que era fácil se reconhecer no filme porque as pessoas eram apresentadas sempre pelo primeiro nome. Essa mesma moça interpretou que o final do filme permite entender que essa história não acabou.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Jaci: sete pecados de uma obra amazônica

Estreia em Rondônia de Jaci: sete pecados de uma obra amazônica seguida de bate-papo com os diretores e convidados. A estreia em PVH será no Audicine do SESC dia 30, às 19h.
 O documentário Jaci: sete pecados de uma obra amazônica (102 min.) dirigido por Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros foi realizado pela Repórter Brasil e gestado ao longo de quatro anos. Grande parte das imagens foi capturada por celulares de trabalhadores que construíram a usina hidrelétrica de Jirau, instalada no rio Madeira, em Rondônia. Aproximadamente 30 câmeras foram usadas para captar as imagens, sendo algumas imagens de entrevistas, outras de registro da vida de operários. Os diretores são os mesmos que fizeram Carne, Osso (2011), vencedor do Prêmio Vladimir Herzog, em que o espectador mergulha no universo repetitivo e opressivo dos frigoríficos brasileiros. Mais que um registro do mundo do trabalho, Jaci: sete pecados de uma obra amazônica aborda sete aspectos que giram em torno da construção de Jirau.

domingo, 17 de maio de 2015

Nichtlustig

-Então é isso. O que ela faz?
-Você abre a porta e sai luz, nada mais.

-Eu instalei a cerca elétrica. Uma semana depois elas tinham TV e pena de morte.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

A interação

Quando Harro morava nos fundos da D. Maria e eu queria falar com ele, eu precisava ligar na casa dela. Ela tinha que avisar o Harro e ele vinha atender o telefone. Eu ouvia o Harro se aproximando já de longe: o cachorro da D. Maria latia, os chinelos dele arrastavam, ele suspirava, soprava e respirava ruidosamente e então, finalmente, ele atendia o telefone: "Por que você está ligando, o que aconteceu?" Durante a conversa mostrava desconforto: "você deve estar gastando rios de dinheiro com essa conversa telefônica" e se despedia: "e se precisar de mim, liga, mas não tão cedo."

Liguei ontem no asilo e a enfermeira que atendeu foi chamar "seu Harro". Não ouvi os passos dele se aproximando do telefone, mas ouvi um pequeno pigarro antes de atender. O "alô" saiu sóbrio e calmo. Fez graças e piadas durante a conversa, perguntou quando eu vinha visitar e se despediu mandando lembranças "a quem estivesse perto de mim".

Por mais que ele reclame da comida, por mais que ele reclame do tédio, por mais que os rostos catatônicos dos outros o deprimam, por mais que pense que está em Caxias do Sul, Harro agora não está mais sozinho, e isso se faz notar em sua postura. Agora ele tem uma imagem de si através dos outros. Não lembro de ter ouvido seus suspiros, gemidos e exclamações. Pelo contrário, limpou a garganta antes de atender - e antes de desligar, lembrou que eu não vivo sozinha. Não lembrou do Luis, mas lembrou que não sou sozinha.


domingo, 3 de maio de 2015

Meu passado, minha herança

O telefone tocou de noite, Luis atendeu. Pelos suspiros, ahs e puxas, entendi que alguém da família estava mal de saúde. Quando me passou o telefone, entendi que esse alguém era da minha família, mais especificamente o meu pai biológico. Minha tia de Gramado, Ruth, contou que Harro estava no hospital.

Oma já tinha ligado alguns meses antes para se queixar que Harro tinha esquecido por cinco meses de pagar o aluguel da casa de fundos onde mora. Como a Oma é fiadora dele, foram reclamar com ela. Ele até foi na imobiliária, mas quando chegou lá, percebeu que não tinha levado o talão de cheques.

O mal do Harro não era físico, mas uma desorganização temporal e espacial. Enquanto estava na casa da D. Maria, semanas antes de ser levado ao hospital, Harro parou de sair de casa. D. Maria foi ver se estava bem e o viu deitado, dormindo. Ofereceu comida, ele disse que comeria mais tarde. Quando ela voltou, a comida continuava intocada. Passou a levar comida para ele todos os dias. Ou ele escondia a comida, ou ignorava. Só comia quando ela ficava do lado, esperando ele terminar.

D. Maria pediu socorro para a Ruth, ex-cunhada dele. Ruth passou a levar comida todos os dias, até decidir pedir ajuda. Uma psicóloga e uma assistente social foram lá, viram o estado de degradação da casa em que Harro viveu seis anos sem nunca limpar nada, e o encaminharam para o hospital. Lá ele tomou soro e tentou voltar pra casa todas as noites. Por isso Gerhard e Ruth foram chamados para passar as noites com ele. Enquanto isso, D. Maria fez faxina de quatro dias na casa dos fundos.

Consegui passagem que não me custasse metade do salário para a semana seguinte. Os exames do Harro se mostraram normais e Ruth e Gerhard o levaram consigo para casa, aguardando a minha chegada. Cinco dias o Harro ficou na casa de Gerhard e Ruth. Quando via uma porta aberta, entrava e deitava. Dormiu em todas as camas e sofás da casa.

Cheguei de noite, depois de um dia inteiro de viagem. A primeira coisa que notei foi a confabulação:

Harro disse que tinha dormido na casa dele na noite anterior e que só tinha voltado para a casa do Gerhard porque sabia que eu vinha. Disse que era um homem ocupado, que tinha mil coisas para fazer, que o trabalho o chamava de volta. Expliquei que eu estava ali em Gramado no meio do semestre porque ele tinha ido parar no hospital e precisava, segundo o atestado médico, de cuidados contínuos. Ele respondeu que tinha ido ao hospital para fazer uns exames de rotina e que estava bem. Perguntei onde estavam os exames, então. Ele se defendeu dizendo que tinha passado adiante, porque o médico só é liberado se tiver os exames do paciente na mão.

Memória

No dia seguinte, a memória se mostrou fragilizada: não lembrava mais que a mãe tinha morrido, que o pai tinha morrido, que o tio tinha morrido, que os únicos parentes que ele ainda tem são Philip e eu. Não tinha se dado conta de que parara de trabalhar há três anos em madeira, não se lembrava mais da D. Maria ou da casa que habitou. Encontrou um bilhete na carteira em que estava anotado o seu endereço e não o reconheceu como seu endereço. Quando viu a D. Maria, não teve dúvidas de quem ela era. O mesmo se deu com a Oma. Quando falei da Oma, ele perguntou se a mãe dele ainda estava viva. Expliquei que eu falava da minha outra avó. Nem o nome dela não ajudou a evocar a memória dela. Só quando ela entrou na cozinha é que passou a ser óbvio quem é a Oma.

Harro não lembrava que eu tinha casado (em Gramado), que o Philip morava na Alemanha e trabalha num jardim de infância. Todas as noites, minha conversa com o Luis (no telefone) foi sobre Harro. Luis entendia melhor do que eu esse homem que me era estranho, e foi me ajudando a conduzir a situação.

Ficou claro pra mim que a memória de si está no outro. Harro viveu muitos anos isolado, não viu o tempo passar, não viu o espaço mudar, nem tinha com quem conversar. D. Maria, Ruth e Enio, antigo amigo artesão do Harro, me disseram mais coisas sobre Harro do que ele seria capaz de puxar da memória. D. Maria me deu um maço de papéis (contas, contratos e cartas). As contas e contratos datavam entre 1999 e 2004. As cartas giravam em torno da morte dos pais. Isso ele guardou. Mas não lembra.

Espaço

Me deram o quarto ao lado do quarto dele. Às 6h da manhã depois da primeira noite de sono, ele errou a porta do quarto ao voltar do banheiro. Eu já estava acordada, porque ele não tinha conseguido abrir as portas sem fazer barulho. Depois dessa vez, não entrou mais no meu quarto.

Num outro dia, depois de dormir à tarde, Harro quis ir ao banheiro, mas não lembrava onde era. Saiu do quarto, passou pela porta aberta do banheiro, desceu as escadas ofegando, me perguntou onde era o banheiro e subiu as escadas de novo.

Desenhei a planta da casa dele (na D. Maria), explicando cada cômodo, alocando as coisas dele no espaço esquecido. Esse papel ele guardou na carteira. Frequentemente ele abria a carteira e olhava para o desenho que eu tinha feito.

Tempo

Todo dia "mas eu já fiz isso" se repetia. "Já está na hora do almoço? Mas nós já não almoçamos? Eu já peguei batatas" (e o prato continuava vazio).

Não lembrava se tinha se separado ou divorciado da minha mãe. Eu disse que eles tinham se divorciado e que minha mãe tinha casado de novo. Com Walter. Ele completou: Walter Rosenbaum. Disso ele lembrava.

Quando foi me apresentar para outra pessoa, disse que eu tinha estudado Belas Artes (o que se aplica à minha mãe) e disse que também tinha um filho e esticou a mão, mostrando o tamanho de menos de um metro - como se Philip ainda fosse criança. Se despediu de mim mandando lembranças a São Leopoldo (cidade em que nasci e de onde saímos há 30 anos).

Harro foi convencido de que não podia mais viver sozinho, que não podia voltar para a casa dos fundos da D. Maria e esperar que o abandono de si mesmo voltasse outra vez. O único lar (casa de repouso, asilo, os nomes variam) que tinha vaga para homens fica a meio caminho de Nova Petrópolis. Fomos lá num dia, para conhecer. A enfermeira me mostrou tudo, dizendo que das 22 pessoas internadas ali, apenas umas quatro eram lúcidas. Tive medo de colocar o Harro num lugar tão parado, mas ele concordou - lhe pareceu o mais barato e perto. No dia seguinte, Ruth e eu levamos o Harro. Pareceu tranquilo, conformado. No dia seguinte, fui visitar com Gerhard. Levamos uma escultura do Harro para ser exposta no salão maior, para que se soubesse que ele era artesão e pedimos que ele não fosse chamado de vô (ele não tem netos), mas de Harro. No dia seguinte, quando fui visitar (dessa vez com a D. Maria), a peça tinha sumido, Harro estava bravo, desconfiado de tudo e todos, não queria me deixar ir.

E não foi fácil deixá-lo. Coloquei o meu pai no asilo porque nos pareceu a melhor solução (para ele, para Ruth, Gerhard, Oma e D. Maria). Mas, no asilo, ele é tão diferente dos outros, que não parece estar no lugar certo. Fiquei espantada como ele confiava em mim e fiquei pensando se não seria uma facada nas costas deixá-lo no asilo. Entendi que eu era a única pessoa que tinha condições de fazer isso - com ajuda do meu marido. O apoio do Luis foi fundamental.

Quando cheguei em Porto Velho, o administrador da casa de repouso me ligou dizendo que tinham encontrado a escultura nas coisas do Harro. Dias depois, liguei para conversar com a enfermeira que me tranquilizou: Harro estava bem, tomando banho todos os dias, comendo bem, tinham cortado suas unhas, aparado barba e cabelo e ele estava "bonitão". Pediu permissão para levá-lo ao parque em Nova Petrópolis. Ruth, Gerhard e Oma tinham visitado naquele mesmo dia e levaram revistas, livros e palavras-cruzadas em alemão.

Harro fez parte da minha infância até os sete anos, mas eu não lembro dele na minha infância. Grande parte da minha memória de São Leopoldo tem como suporte as poucas fotografias que possuo. Lembro do jardim, lembro das frutas, das árvores, da piscina que era uma caixa d'água, mas não lembro dos meus pais (entre si ou comigo). Assim como o Alzheimer de Harro mergulha partes de sua vida numa densa neblina, a minha infância não me é bem acessível.

Nos dois álbuns de fotografia que tenho de São Leopoldo, Harro está em apenas uma foto. Há poucas fotos de amigos brincando no jardim. Contei pro meu irmão que eu tinha uma lembrança de uma cena do Opa e eu sentados num banco comendo laranja do céu - e que ontem encontrei essa foto do Opa descascando laranja. Philip considerou que eu estivesse construindo memórias a partir das imagens, mas lembrou do jeito que o Opa descascava as laranjas: ele ia girando a laranja, cortando uma tira longa de casca e depois cortava a laranja em fatias, na horizontal. Fiquei em silêncio. É assim que eu descasco laranjas.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Saudades de Yehuda

Joe e Yehuda tocam uma bicicletaria. Joe e Yehuda são ciclistas de tipos diferentes: Joe gosta de pedalar em grupos de ciclistas, pedala no asfalto para melhorar o tempo, usa lycra e capacete. Sua bicicleta é de corrida e ele a usa quando as condições forem favoráveis.

Yehuda não gosta de lycra, capacetes ou óculos escuros e prefere pára-lamas, bagageiro, bolsas, luzes. Yehuda pedala todos os dias para todos os lugares, carregando o que for necessário. Sua bicicleta é urbana e ele a usa como meio de transporte.
Depois de muito tempo esgotados, voltaram a ser impressos os volumes 2, 3 e 4 do Yehuda Moon.

domingo, 12 de abril de 2015

Bodenlos

O gênero biografia merece, às vezes, subespecificações. As biografias Persépolis e Epiléptico, por exemplo, se apresentam na forma de quadrinhos. As biografias de Michelangelo, Darwin e Van Gogh, todas escritas por Irving Stone, são biografias romanceadas. Já as autobiografias, escritas pelos sujeitos que são objeto da biografia, acabam dando mais valor ao percurso de ideias: Max Planck, Richard Feynmann, Werner Heisenberg entrelaçam vida e obra. Deste estilo poderia ser a autobiografia filosófica de Vilém Flusser, Bodenlos. Mas Bodenlos ainda é diferente.

A autobiografia está dividida em quatro partes: monólogo (em que é relatada a condição de judeu praguense que veio se refugiar, como único sobrevivente da família, no Brasil); diálogo (em que suas reflexões com e sobre onze figuras iminentes são tecidas); discurso (em que suas aulas ganham destaque); reflexões (em que o regresso a Praga é preparado e efetivado).

Numa palestra de Gustavo Bernardo, ele descrevia Bodenlos como sendo uma biografia em que Flusser escreve sobre os seus amigos (Alex Bloch, Milton Vargas, Vicente Ferreira da Silva, Samson Flexor, João Guimarães Rosa, Haroldo de Campos, Dora Ferreira da Silva, José Bueno, Romy Fink, Miguel Reale e Mira Schendel) e quase nada sobre si. Lendo o livro, percebi que, além de escrever sobre cada amigo em capítulo separado, Flusser articula-os, comparando-os entre si e a si mesmo.

Mais que isso, como muitos de seus amigos são ligados à palavra escrita, Bodenlos se mostra como uma grande reflexão sobre a escrita:

Escrever é trabalhar de dentro da língua sobre a língua. Pois a práxis de tal trabalho implica um constante distanciar-se da língua [...]. Tal distanciamento provocava por sua vez alienação daquela língua que brotava, calada, do próprio ser-no-mundo. (p. 183)
E como a ciência é escrita, suas reflexões sobre ciência são consequência:
Ciência para mim sempre tem sido uma maneira de falar, e filosofia da ciência, portanto, parte da filosofia da língua. Apenas, parte que tendia cancerosamente a invadir as demais partes. Creio que a filosofia da ciência encontrará sua posição apropriada apenas dentro de uma teoria de comunicação a ser futuramente elaborada.
[...]
Procurei focalizar a ciência enquanto discurso cumulativo de explicações "objetivas" de fenômenos, e enquanto método historicamente determinado de humanizar a natureza e naturalizar o homem. (p. 280-281)
Para mim progresso científico é a maneira como o homem afirma sua dignidade perante a realidade, embora o faça diabolicamente. (p. 283) 
A função da técnica é modificar o homem que a possui. Não, portanto, manipular coisas e homens coisificados é a função da Técnica, mas modificar o homem pela própria práxis. Destarte a filosofia pode humanizar a técnica e evitar a tecnologização do homem. (p. 288)
Bodenlos me ajudou a tirar o chão da ciência - que eu considerava edifício sólido.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Páscoa ribeirinha

Jairo veio pelo rio, navegou um pouco pelo esgoto do Nacional e veio nos buscar
Saímos aqui, perto da ponte
As águas do Madeira já estão baixando, mas ainda se vê a marca marrom do mês anterior, em que a cota chegou a 17m. A estrada da beira que vai margeando o Madeira está caída em alguns trechos e completamente abandonada à floresta em outros.
Estrada abandona
A nova estrada, que entra pelo KM 4,5 da BR 319 está bem encharcada, e como a casa do Jairo fica na estrada da beira, e tem vários pontos com muita água pra atravessar, não tinha como chegar de carro. Por isso Jairo nos buscou de barco.
Estrada da beira
No sítio tinha os membros da Arirambas, as galinhas, o coelho, os cachorros, o hamster, os passarinhos, os mosquitos, as flores, as árvores etc. Não tirei fotos de todos, apenas de um gafanhoto que não teve medo da câmera.



Nem todos ficaram pro churrasco, infelizmente. Luis cuidou da carne, Jairo desenterrou, descascou e cozinhou macaxeira amarela.
O churrasqueiro
Luis na cozinha

Jairo do lado de fora, descascando macaxeira recém-colhida
A casa do Damián
Damián
Antes de ir embora, fomos (de barco, porque pela estrada teríamos que passar por uma poça com água podre, em que provavelmente morreram animais) ver a casa do Damián. Devagarzinho a casa vai tomando forma.
Jairo e Luis