quinta-feira, 21 de julho de 2011

All the light I can carry

Potencialmente, sou um espaço vazio. Não tenho corpo nem alma, mas dou substância aos desejos dela. Quando um desejo dela se manifesta na forma de um plano, percebo que vou crescendo e formando contorno com o tempo. Me desfaço assim que seus planos se realizam e volto a ser - por alguns instantes - uma variável.

Minha última missão foi diferente: fui um mensageiro. Ela tinha participado ceticamente de um ritual religioso. Desacreditando as narrativas e estranhando os dogmas, entregou-me com fervor ao desconhecido. O procedimento desse ritual de passagem de ano era mandar uma luz a um morto. Das velas acesas, juntei toda a luz que consegui carregar e parti em viagem.

Mesmo viajando na velocidade da luz, demorei para encontrá-lo. Ele havia morrido há 9 anos, mas continuava ativo. Vivia na memória dos pais, irmãos, amigos, amantes e dela. Já tinha se desprendido das fotografias e das coisas que um dia foram dele. Ele se movimentava da memória de um para a saudade de outro, numa coreografia animada. Quando o encontrei, estava escutando música.

Ele ficou feliz com a luz que lhe dei. Nem perguntou nada sobre ela, sobre sua vida. Sabia que estava bem. Nem teve curiosidade de saber se tinha terminado a faculdade ou encontrado um outro grande amor da vida. A luz que ela tinha mandado por mim era clara, nítida e límpida o suficiente para ele entender que ela estava bem. Em retribuição, ele mandou música pra ela por mim.

As músicas eram de sua banda preferida, que ele não chegou a ver ao vivo. Ela tinha ido no show e naquela noite mentalmente contou pra ele tudo o que ouviu, viu e sentiu. A viagem de volta foi mais longa ainda. As músicas eram pesadas e ela já não estava mais no lugar de onde me mandou com a luz até ele.

Ela não conhecia as músicas que lhe entreguei, mas logo se afeiçoou. Voltei a descansar nela em forma de saudade dele. Acordo quando ela ouve Rush e me transformo em imagens de montanhas, em sensações de viagem, no grande amigo.

7 comentários:

Anônimo disse...

Fiquei com as 'botas pesadas'.

Anônimo disse...

Isso me lembra a "Available light".

iglou disse...

Bingo.

Mônica disse...

Nossa! Adorei! E teve uma parte que me lembrou muito o estilo do Douglas Adams.

iglou disse...

O guia do mochileiro das galáxias?

Mônica disse...

Esse mesmo. Foi quando o rapaz foi encontrado, saltando de uma memória para outra. Pude criar a imagem mais ou menos como eu criava as situações da série de Adams.

Aliás, reparei que vc está postando com mais regularidade. Finalmente está com internet em casa?

iglou disse...

Ah, sim. demorou um mês e meio pra chegar, mas a internet chegou em casa. E é de 1 mega, veja só como PVH é especial.