terça-feira, 6 de março de 2012

Mus__a

Naquela manhã, todas as mulheres da cidade acordaram aliviadas. Independente de quanto tinham dormido ou do que tinham sonhado, todas acordaram bem dispostas, leves e frescas. Não tardaram a entender o que lhes fora subtraído durante a noite: a capacidade de ouvir música.

Ainda nas primeiras horas da manhã ensolarada, todas elas tiveram pelo menos uma experiência desagradável com sons desorganizados. Ou era o marido que assoviava sequências impossíveis de sons estridentes, ou era o rádio que cuspia uma nuvem de fumaça cinzenta, ou era o filho que produzia sons desarmônicos debaixo do chuveiro. Toda e qualquer forma de música parecia poluir o mundo.

Demorou até o meio-dia para que os homens percebessem que as mulheres sentiam-se fisicamente agredidas pelo barulho que saía do rádio, da TV, da boca do companheiro, pai, filho. Durante a tarde toda, a cidade não registrou nenhuma nota musical. As mulheres da cidade se deram conta de que não tinham mais memória de nenhuma canção, cantiga, balada ou qualquer peça musical. Todas as músicas de seu repertório haviam sido sumariamente apagadas. As professoras de piano, violino e flauta doce, suas alunas, as mulheres que cantavam no coral, a regente e a filha do fagotista sentiam-se ocas. Afazeres simples, que demandavam um certo ritmo, não fluíam de suas mãos ou pés. Estacavam enquanto andavam, nadavam, pedalavam, lavavam louça, passavam roupa ou limpavam a casa.

Ao final do dia, uma neblina rodeou a cidade. O cerco de neblina se fechou e foi sendo atraído para o centro da cidade: a praça. Conforme a neblina se movia em direção ao atrator, os habitantes da cidade a acompanhavam e se aglomeravam no gramado, por entre as árvores, na frente da concha acústica. Não havia nada programado para aquela noite agradável, no entanto quase todos seguiram o chamado inaudível que se escondia no ar condensado.

Luzes direcionaram a atenção de todos ao palco. Um homem de cabelos longos e negros fez seus dedos deslizarem pelas cordas do baixo. O som que vibrava das cordas do baixo reverberava no estômago do público. A voz aguda e clara transportou todos a uma paisagem de sonho. Os outros instrumentos foram entrando aos poucos na composição e logo tudo voltou a ter sentido e beleza.

Um comentário:

Mônica disse...

Coincidência? Ontem encontrei um rapaz que faz vídeos de si mesmo tocando violino. Achei muito bom. E como estou na onda de Game of Thrones, resolvi deixar o link para vc apreciar a música também: http://www.youtube.com/watch?v=1yydcG9woWA&list=PLA82B3F8724AAC8EA&index=3&feature=plcp

bjs