terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Caminhada branca

Confesso que me surpreendi quando encostei no balcão de passagens em Porto Alegre e a moça atrás do vidro me vendeu uma passagem pra Santa Maria dali a 10 minutos. Isso significava que, no dia depois da tragédia, o fluxo já não era mais em direção a Santa Maria.

Quando desci do ônibus em Camobi (bairro em que fica a UFSM e que fica a 10km da cidade), o silêncio me assustou. Cheguei a pensar que de agora em diante havia um acordo tácito de que era proibido rir, fazer barulho, cantar.

De noite havia uma caminhada marcada pra sair da praça Saldanha Marinho no centro e chegar no ginásio onde os corpos tinham sido velados. Não era pra levar velas, mas era pra vestir branco. No ônibus que peguei no Camobi quase todos estavam de branco. Aliviada, reparei que a alegria não tinha morrido. Os que estavam de branco desceram todos no mesmo ponto, subiram todos a mesma rua e se juntaram todos na mesma praça.

Na praça havia um mar de gente. Conversavam pouco. O máximo que saía era um "e aí" que obtinha como resposta outro "e aí" na mesma entonação. Registrei mais abraços e olhares tristes do que conversas, bandeiras, cartazes e protestos. Ondas de palmas vinham e se iam; não sei o que aplaudiam. Balões brancos foram soltos, mas eles voltavam e estouravam. Ouvi murmúrios diluídos do Pai Nosso e  ouvi como cantavam (mais de uma vez) o hino gaúcho com fervor:

Mostremos valor constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra

A massa branca se pôs em movimento. No trajeto, reparei que havia pouca gente nas janelas. Isso me deu a sensação de que a cidade inteira estava de branco e na rua. A massa branca caminhou até o ginásio. Lá de dentro ouvimos gritos e palmas. A massa respondeu e dispersou. Não caberia todo mundo dentro do ginásio e não era o propósito incomodar os remanescentes com a nossa presença.

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