terça-feira, 20 de junho de 2017

Hospital

A primeira vez que levamos a Agnes no hospital foi no dia 04 de junho, porque desde o dia anterior ela estava com febrão (38,6). O pediatra de plantão pediu hemograma e raio-x (porque de tanto a menina chorar com o estetoscópio, ele não conseguiu ouvir o pulmão dela). Passamos a manhã toda no hospital e o diagnóstico foi inconclusivo: tem uma inflamação, mas não sabemos de que. Os pulmões estão limpos, então não é pneumonia. No final da consulta, Agnes enfiou dois dedos nos cantos da boca e mostrou os dentes novos nascendo. O pediatra de plantão assumiu que todos os sintomas podiam levar à erupção dos dentes. Pediu que eu coletasse a urina dela e descreveu o coletor como um saquinho embutido numa fralda.

Não achei esse coletor em nenhuma farmácia. Eles não sabiam do que eu estava falando. Comprei um termômetro que funciona com sinal infravermelho, porque dá o resultado imediatamente. Agnes tem pavor de estetoscópio, termômetro, nebulizador, salsep, dedo com gel que se aproxima do rosto dela e avental branco.

A febre alta permaneceu por 5 dias. Administrávamos paracetamol para baixar a febre, mas o efeito só durava 3 horas. Como ela estava com o nariz entupido, não conseguia dormir. Voltamos ao hospital e o diagnóstico foi que era gripe, porque era isso que tava dando em todo mundo. O pediatra de plantão ensinou a lavar o nariz dela com injeção de soro fisiológico e previu que teríamos mais uns dias de febre pela frente. Explicou que o coletor de urina é distribuído no laboratório do hospital. Peguei dois. Perdi os dois, porque aquilo é um adesivo que não pode ficar muito tempo na genitália da criança. Uma vez ela fez xixi e tudo foi pra fralda, outra vez não fez.

Nenhum pediatra acreditava que não estávamos conseguindo alimentar a nossa filha. Ela rejeitava tudo, cuspia, se defendia com as mãos, virava o rosto, vomitava. Sim, ela enfiava os dedos na goela e vomitava.

Daí ela teve diarreia e vômito, febre alta, nariz escorrendo e a gente não conseguia dar comida nem bebida pra ela a não ser que fosse na injeção. Comida virava caldo e ia pra injeção. Terror total. Voltamos pro hospital. O pediatra de plantão disse que é assim mesmo e nos dispensou. Continuei tentando coletar urina da Agnes, mas ela fazia muito pouco xixi.

Luis pediu ajuda pra Berenice, que garantiu um encaixe com uma pediatra de confiança dela. A consulta foi longa, e ela reparou que um ouvido estava avermelhado. E de novo vieram receitas de maçã, banana, bolacha maizena. Insistiu que coletássemos urina e disse que toda farmácia vende os saquinhos coletores.

Comprei os saquinhos coletores e continuei não conseguindo coletar urina, até ter a brilhante ideia de botar na Agnes uma fralda de pano (que não usamos mais, porque 14 delas rasgaram subitamente depois de 1 ano de uso). Quando ela finalmente fez um xixizinho, torci o absorvente pra dentro do saquinho coletor. Levei no hospital.

A febre da Agnes continuava alta, portanto fomos os três de volta ao hospital. Antes de sermos atendidos pelo pediatra de plantão, busquei o resultado do exame de urina: infecção urinária. Com esse resultado na mão, a pediatra de plantão perguntou se queríamos internar nossa filha. A alternativa seriam 5 injeções intramusculares de antibiótico. Mas o plantão dela estava terminando, então ela nos passou pra outra pediatra de plantão. Essa, por sua vez, esclareceu que 5 injeções na bunda eram piores que dois saquinhos de antibiótico na veia por dia. E internar tinha outra vantagem: soro, já que Agnes estava desidratada.

Internamos na noite do dia 15. Luis voltou pra casa pra dormir porque estava com conjuntivite. Eu dividi a cama de hospital com a Agnes. Na noite de sexta, esqueceram nossa janta. Luis reclamou e veio. Depois entramos na rotina do hospital, aprendemos o jargão usado e nos acostumamos com a comida, o espaço, a falta de sono. Percebemos que Agnes não teve dificuldade para ignorar o braço direito, em que estava conectado o soro. Usava os pés e a mão esquerda.

Na primeira visita, o pediatra diagnosticou uma inflamação nos ouvidos. Somando tudo, temos erupção dos dentes, gripe, infecção urinária e otite. E tudo isso não começou depois que internamos, só não foi diagnosticado.

Na segunda noite, Agnes acordou chorando à 1 da manhã. Tudo em volta dela estava molhado. A fralda não deu conta de segurar aquele soro todo. O enfermeiro de plantão me ajudou a trocar a Agnes e a cama. 4 horas e meia depois, a cena se repetiu. Pouco depois, o pediatra visitador passou. O pediatra visitador só passa uma vez ao dia e ainda estava escuro e eu morta de sono.

Gradualmente, Agnes foi se interessando por comida. Comeu meia fatia de pão pela primeira vez na vida (antes só comia pedaços bem pequenos), gostou da bandeja com compartimentos diferentes e chegou a pedir comida.

Na manhã de sábado fomos informados que havia surgido uma vaga na ala pediátrica e que subiríamos para o terceiro andar. Imediatamente ficou claro que não havia padrão entre os enfermeiros no tocante a soro e acesso (onde o soro/antibiótico é conectado na pessoa). Uns tiravam os fios e tampavam o acesso pra gente tirar a roupa dela e dar banho, outros passavam o saquinho de soro pela manga da camiseta. Uns aceleravam o pingamento, outros retardavam. Uns colocavam um controlador de velocidade de gotejamento intermediário, outro ia lá e tirava.

Aí a enfermeira viu que o braço em que estava instalado o acesso estava inchado. Era preciso encontrar outra veia. Tentaram o pé, não deu, ficaram com o braço esquerdo. O problema era que Agnes chupa dois dedos da mão esquerda pra se acalmar. Nessa noite eu fui pra casa, dormir. Luis e Agnes dividiram a cama do hospital e foram acordados às 4 da manhã para coletar sangue.

Pouco antes do domingo anoitecer, o pediatra visitador passou. Olhou o hemograma e deu alta - com o compromisso de continuarmos dando antibiótico via oral a cada 12 horas por mais 7 dias.

Em casa, Agnes está bem melhor. Comida e bebida continuam sendo um desafio.

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