quinta-feira, 6 de julho de 2017

65. GEL

Essa foi a minha primeira viagem solo desde que Agnes nasceu. Entrei num avião em Porto Velho > desembarquei em Guarulhos > entrei num ônibus que me deixou em Congonhas > embarquei em outro avião com destino a Presidente Prudente > aluguei um carro e dirigi 130 km altamente vigiados por radar e câmeras (com 3 pedágios) até Assis.

Na conferência de abertura, Rajagopalan (Raja, para os alunos e colegas) falou sobre o discurso científico na Linguística que não mudou muito desde o século XIX, apesar da língua e da sociedade terem mudado. Fiquei pensando na reunião tensa que tivemos semana passada no Departamento de Vernáculas sobre a mudança da matriz curricular e como eu fui voto vencido quando propus que não se usasse o nome "Introdução às Ciências da Linguagem" para a disciplina "Introdução à Linguística". O argumento que convenceu os meus colegas foi que o aluno veria no nome da disciplina que o estudo da linguagem é científico, que seria confrontado com a ciência ao estudar a linguagem.

Lembrei também do Ethnologue, o catálogo de línguas do mundo que recentemente chegou lá em casa. Como se trata de inventariar as línguas quando muitas delas correm risco de não serem mais faladas (e muitas línguas de fato não são mais faladas), são adotadas classificações como: moribunda, extinta, vívida.

Raja atentou para o fato de a ciência dominante na época em que a Linguística ganhou status de ciência ter sido a Biologia. Neste sentido, conceitos da Biologia foram exportados para outras ciências. Estrutura, por exemplo, é um termo que a Linguística importou da Biologia. No Curso de Linguística Geral não é usada a palavra estrutura nenhuma vez, mas Saussure é considerado estruturalista quando postula que a língua é um sistema. Outro exemplo de importação de conceitos biológicos é entender as línguas como organismos que nascem (pidgins), se desenvolvem e morrem (passando antes pelo estágio de morbidez).

No dia seguinte, vi uma conferência de Roger Chartier (falando portunhol!!!) sobre tradução e o intraduzível. A impossibilidade de tradução logo deu lugar, na sua fala, aos diversos esforços de tradução e a aventura que é traduzir algo de uma língua e cultura para outra língua e cultura.

Reencontrei a Larissa (orientanda da Rosana) que eu tinha conhecido no 63. GEL, na Unicamp. Nós duas éramos as únicas a apresentar comunicação individual em Neurolinguística. Rosana não veio, Maza não veio, Elenir não veio, o pessoal da Dudu não veio, o povo da PUC não veio. Só Larissa e eu pra representarmos a Neurolinguística no GEL. Como eu estava de carro e Natália (do meu departamento e da Revista RE-UNIR) precisava ir pra rodoviária depois do almoço, fomos as três almoçar no centro. Foi divertidíssimo ser o pivô entre essas duas, que se deram super bem.

Fui ver uma mesa redonda com um nome curioso: algo como Da tradução de Gabriel García Márquez à terminologia da Química. Pois é. Um conferencista apresentou sobre a tradução para o português de uma obra de García Márquez e a outra apresentou sobre as traduções que ela faz para empresas de pesticidas. Fiquei assustada quando ela abriu a fala dela anunciando e repetindo os sucessos de safra de grãos e como o Brasil era um grande exportador de soja. Comecei a entender onde ela ia chegar quando ela mencionou a quantidade de agrotóxicos e pesticidas que o Brasil importa todo ano. O objeto dela eram as traduções de nomes de compostos e pesticidas, que não seguiam um padrão, portanto alguns produtos eram adquiridos apesar da lei proibi-lo.  

Reencontrei Cláudia e Pascoalina, ambas (e eu também) ex-orientandas da Fausta. Perdi toda a conferência sobre Torquato Neto (a opção era uma mesa-redonda sobre a Linguística queer - sabe-se lá o que é isso) conversando com elas. De fato, o mestrado está mais longe que o GEL do ano retrasado ou a reunião de departamento da semana passada, e me diverti com algumas distorções: não é em Roraima que você está? Você não fez o doutorado com o Ilari?

Fiquei contente de ouvir Edson Rosa, que tinha organizado dois volumes sobre Linguística Funcional, me dizendo que queria muito encontrar uma teoria em Linguística Funcional que ele pudesse usar para analisar seus dados. E também fiquei super orgulhosa de ouvir que ele usa um artigo meu sobre gramaticalização de preposições em sala de aula.

Fui na conferência de Antônio Suárez Abreu sobre cognitivismo e fiquei entediada com a aulinha meio desconexa que ele deu (com muitas imagens plásticas, recortadas de propaganda de revista) sobre metonímia - com longas divagações sobre nomes de cidades - e fiquei enjoada com o público pedindo, na hora do debate, pra ele falar mais sobre frames e scripts. Larissa teve a mesma impressão que eu que não aprendemos muito com ele - ou o público.

Na hora da nossa apresentação, estávamos convencidas de que apresentaríamos uma pra outra e até chegamos a combinar com o monitor da sala que podíamos usar mais que 15 minutos pra apresentação, já que as outras seções tinham em média 5 apresentadores. Mas foi chegando gente assim que Larissa começou a falar sobre circunlóquios enquanto estratégia para contornar dificuldade de encontrar palavras em idosos.

A apresentação dela ainda contava com dados preliminares e intuições. Eu apresentei um trabalho que venho remoendo há 10 anos: telegramas e 'fala telegráfica'. A proposta de usar 'fala reduzida' nem mesmo foi feita, mas o importante é que consegui desconstruir com clareza a ideia de que a fala do sujeito com agramatismo é semelhante a um telegrama, ou seja, telegráfica. Como tínhamos muito tempo, Larissa e eu ficamos ainda conversando com o nosso público (alunos da Unesp de Assis e da Unicamp) sobre Neurolinguística no IEL e no Brasil.

Foi muito bom estar num congresso, acompanhar discussões, ver livros, autores e velhos amigos. Mas me senti muito mal de estar longe da Agnes e do Luis. Chorava de saudade toda vez que ouvia a voz dela no telefone. Dois dias viajando, dois dias de congresso. Desconfio que isso não vá se repetir antes de ela completar 15 anos...

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